Por Leonardo Lima Ribeiro
De madrugada, caminho em ritmo irregular. A cada passo dado, segue o acolhimento do vento que acaricia o rosto lacrimoso. Tal afago é um presente gratuito, que circula em torno do corpo enquanto o comércio da civilização dorme.
O abraço da noite, arrastada pelos ensaios de tempestade, serve para não enlouquecer. A brisa gélida e as gotas singelas de neblina tocam e escorrem sobre a pálida face. Abraçam a tez angustiada e chamam para dançar os cílios dos olhos semicerrados. O olhar contempla as árvores das praças, erguidas como ponto de respiração dos espaços de concreto.
Entre as árvores e os largos pedaços de cimento, os que dormem não têm oportunidade de observar os espectros humanos que se escondem nas ruas. São notívagos quase sem vida, que gaguejam a língua dos seres vivos.
Estão assentados entre muros, colunas e ruínas, quando não sob tetos sombrios, para esconderem a pouca energia que lhes resta. Também podem ser encontrados em becos e grandes vias escuras que separam armazéns e galpões, muitos deles banhados pelas lamas que simulam riachos em que apenas os sapos e insetos circulam.
Por vezes, o que permite perceber a concretude de suas existências são os fraternos comprimentos. Meio de pacificação relacional. Surpreendidos pelo andarilho, têm receio de serem malvistos, têm vergonha de si mesmos. Embora não se vejam como iguais em função das agruras da vida, consigo tocá-los com os olhos enquanto giram a cabeça para baixo. Durante o movimento, é comum procurarem local que sirva de represa da visão a eles direcionada. Humilhados pelos males da história brasileira, lutam não apenas para enterrarem as memórias. Esconder os corpos do olhar dos outros é uma tarefa da qual não conseguem se furtar.
Ao arremessar o corpo pelas madrugadas, miro os olhos das maiorias silenciosas, que vivem de comer o que os outros recusam. Com o pouco da lucidez que me resta, as observo e percebo o desconforto sentido em resposta. Caso pudessem, se esconderiam no âmago das próprias sombras, e delas nunca mais sairiam.
São as sombras da noite, deitadas, sentadas ou esmagadas pela extensão de postes e prédios opulentos, os quais a elas não pertencem. O sofrimento e desalento são intensamente traumáticos, enquanto o leito é vertido nos espaços de recusa dos outros. As sombras vivas deitam sobre si mesmas, perguntando-se sobre quem assina o nome do solo sobre o qual desmaiam.
Com olhos arregalados, às vezes sentam com os restos de comida extraídos dos sacos pretos que lhes servem de vestimenta, e comem a merda dos outros sobre os pedaços de cimento recusados como leito. Certo dia, ao me ver, um homem com três imensos sacos pretos cheios de lixo procurou utilizá-los como vestimenta. Os sacos cobriram o corpo brilhoso da cintura para cima, enquanto as pernas desnudas caminhavam em minha direção.
Tratava-se de uma camuflagem, para ele era mais digno confundir-se com os dejetos da sociedade. Um paradoxo, era emocionalmente mais viável colocar-se nesta posição do que ser observado por alguém que emergiu de “outro planeta” em sua frente, objetivando causar transtorno ou embaraço.
Alguém que surgiu em sua frente como figura excêntrica, direto dos tempos que remetiam ao fato que lhe fizera encontrar-se naquele estado; tempos advindos de outro planeta, que também era o seu, com o qual o mudo e veloz homem seria obrigado a conviver à distância. Eu não merecia o seu respeito e nem deveria ser a ele fraterno, e era justo que, para ele, assim fosse. O peso de tantas humilhações sofridas demarca a espessura subjetiva da repulsa ao estranho (no caso, eu). Não queria ser humanamente percebido. Seu desejo era o de ser um objeto em movimento pelas pressões do intestino vazio, cuja fome mobilizava as pernas.
Descobrimos muitas coisas ao caminharmos de madrugada, na ocasião em que muitos outros estão dormindo porque têm que trabalhar, ou mesmo se entreterem no dia seguinte, à distância do odor dos putrefatos esquecidos. São eles adultos ou crianças normalmente de pele negra, os quais muitas vezes se escondem nos sacos de lixos que carregam.
Também são casais ou pessoas sob a guarda dos cachorros de rua que adotam como parentes da desgraça, e que, nessa irmandade do sofrimento, dormem sobre o palco das passarelas que atravessam as grandes avenidas. Seus casamentos não têm público, seu pacto de vida, tanto quanto o nascimento da prole, advém do esquecimento da barbárie e da persistência da morte como celebração.
Sem água para se lavarem e, aos farrapos, desnudados pela sociedade civil burguesa foram despossuídos das núpcias sem dor e, antes de dormirem, são banhados pela luz alaranjada dos postes, que sobre eles se assenta como lampejo que sinaliza: “paridos, erguidos e ocultados por vocês, ainda estamos por aqui. Dissimulada ou abertamente, mesmo que esqueçam ou nos odeiem com a tirania punitiva que imputa a responsabilidade do que somos a nós mesmos, continuamos aqui para lembrar que sua sociedade é a arquiteta do palco dos esquecidos. Sobre ele estamos deitados e amiúde convalescentes, enquanto gargalham e se divertem às custas dos infinitos véus anônimos do sangue coletivo”.
