Por Leonardo Lima Ribeiro
Apesar do manifesto do Coletivo Espiritas à Esquerda, impressiona que existam setores espíritas da extrema-direita brasileira que são capazes de assombrosamente afirmarem que se crianças são assassinadas durante um assalto a culpa é delas. Para muitos deles o homicídio em potencial ocorre em função de suas vidas passadas, cheias de defeitos durante as reencarnações.
E mais, se durante um assalto apontam uma arma contra as crianças e seus pais a culpa também é dos inocentes. E não apenas pelo passado das suas reencarnações, mas também porque já carregavam apriori energias negativas nos pensamentos presentes.
Pasmem, é essa fraseologia das excrescências que levaria as pistolas e as metralhadoras a chegarem às cabeças dos inocentes e assassiná-los (atraíram as armas porque teriam espírito subdesenvolvido). Ou seja, quem mata inocentes é perdoável, quem morre é punível com o ônus da responsabilidade das suas vidas passadas pouco evoluídas.
Assim, os setores que proliferam essa excrescência escabrosa (principalmente as alas pequeno burguesas e de classe média burocratizada e concursada) podem justificar seu nojo dos inocentes que não têm recursos nas periferias, tanto quanto indiretamente sujarem as mãos de sangue, tanto através do apoio à militarização da sociedade quanto do reforço das infâmias teológicas as quais reforçam o nazismo tropical que assassina os párias sociais.
No limite, justificam assim que todos aqueles que morreram foi por merecimento involutivo refém do passado ancestral, um dos motivos de o porque não souberam nem pensar mais positivamente sobre a vida nem ganhar seu próprio dinheiro (consequente punição divina por não terem encontrado o caminho da evolução espiritual). Para eles dinheiro e espiritualidade convergem no presente. Se não acontecer é por falta de purificação interna, sendo a morte ou o assassinato de si e de sua prole a moeda de troca, ou melhor, o preço a ser pago.
Não custa lembrar que se trata de um darwinismo socioespiritual turbinado, o qual já estaria contido nas primeiras formulações kardecistas, e que não poucas vezes levaram seus adeptos ao apoio da ditadura militar brasileira. Em articulação com certo liberalismo de moral flexível, transformam a geografia das almas penadas pretéritas e presentes em uma espécie de Auschwitz ancestral. Justificativa determinista e punitivista a qual transformaria a contingência externa do mundo vivido em pretexto para provar a hipótese arbitrária que divide almas em mais ou menos evoluídas, respectivamente conforme as graças recebidas ou acidentes sofridos durante os percalços da vida. Consequentemente, todo acidente e morticínio está apriori justificado, a depender da condição social e da subjetividade dos indivíduos envolvidos.
Enquanto simultaneamente os reacionários depositários desses argumentos gozam de suas seguranças privadas, podem ao mesmo tempo justificar o assassinato público ou privado de milhões de inocentes, que são todos vistos como ladrões potencialmente impuros, sejam ou não parte de suas famílias inclusive. Sim, tal nível de inacreditável expressão é uma realidade no Brasil. E, por isso, há uma ala tão ou mais perigosa do que o neopentecostalismo das periferias. Trata-se da institucionalização do espiritismo de extrema-direita com grana no bolso.
Confira abaixo uma excelente live com mais especificações históricas sobre o que aqui está em questão.
