O Luto e a Luta

Por Leonardo Lima Ribeiro

Uma bomba explode. Uma chuva cai do outro lado do planeta. Com as nuvens viajando, desperta-se no solo distante pluricontinental o choro que floresce em declínio do céu. O mormaço segue como tempestade, abraça os rostos incomodados pela onda de calor molhado que contorna os ainda vivos.

Com isso, lembra-se de passagem que o choro da chuva que arde sobre a face é a vertigem fabricada pelo odor da bomba antes explodida. Em solo original, sobre as cabeças dos que poderiam ser nossa prole, estilhaços circulam pelo mundo. Sentimos na pele a chuva ácida, que produz o afeto que não pôde sequer ser experimentado em tempo pelos desfalecidos na fonte do problema, com pedaços de metal em suas carnes queimadas e banhadas de fósforo, cimento e areia.

Neste dia de hoje, o luto e a luta não devem se seguir estritamente pela memória dos mortos de nosso bairrismo orgânico, mas inclusive pelas crianças de Gaza e tantas outras que, aparentemente passíveis de esquecimento pelo mainstream, estão infinitamente distantes, mas pelo coração pulsante do humanismo estão inexoravelmente próximas.

Sem sermos interpelados por essa antevisão perspectivista qualquer enunciação de esquerda ou socialista não passa de uma gestão política dos lobotomizados, reféns das cercas dos interesses próprios e particularidades narcísicas das tribos burguesas.

02/11/2023

Leonardo Lima Ribeiro é professor, editor e membro do comitê editorial da Revista A Comuna

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