A Determinação Econômica da Consciência: Limites da Ignorância e o Fetiche do Discurso Político no Capitalismo Periférico

Por Leonardo Lima Ribeiro

A ignorância é algo materialmente condicionado. Suas bordas são mensuradas pela pressão da economia que lhe dá contorno e determina sua persistência.

A decadência econômica conduz uma sociedade para o movimento de aceno da economia na fase em que se encontra, determinando assim seu significado e enunciados derivados. A implosão da economia, com diminuição da circulação da moeda através dos trabalhos formais, impulsiona a aposta retroespelhada na compra das consciências desesperadas e sedentas de sobrevivência, mesmo que pelas vias mais escusas. Portanto, toda decisão política tem sua intencionalidade direcionada por um canal prático e comunicativo no fluxo da economia política em capitalismo periférico. Sendo precondicionada, não flutua metafísicamente nas nuvens da linguagem clara e cristalina e nos marcos estritos de uma moral elevada.

E é por isso mesmo que toda e qualquer apologia ao tipo de discurso ideal, soletrado para os que “não sabem o que fazem” e para dar esclarecimento a quem não tem em termos de decisão política não possui capilaridade. Não importa aqui a clareza do discurso. Não importa se a fala é mais ou menos rebuscada ou mesmo se diz respeito ao apelo moral que nela está implicada.

Lembremos aqui do caso de Collor de Melo e FHC, que com suas falas herméticas e esotéricas conseguiram ganhar as eleições pelo despejo de recursos públicos e burgueses nas cidades diversas. Lembremos de que a lógica fetichizada do doutor de terno e gravata como símbolo de dinheiro e poder sempre foi uma espécie de teologia a qual a esmagadora maioria historicamente sempre aderiu. Não foi a clareza do discurso ou a falta deles, mas a força do capital personificado, margeando a espessura de compra do discurso político em circulação para um público-alvo despossuído de tudo, menos de seu próprio corpo, que se autoconsome para produzir riqueza para a lumpemburguesia na dinâmica da estrutura capitalista e neocolonial em que vivemos.

Ora, hoje em dia, mais do que nunca essa é a realidade. Não adianta apenas implorarmos para não votarem em fascistas, pois a força de determinação da economia com compra das consciências esfoladas e embrutecidas conduzirá a decisão popular dos trabalhadores e párias desorganizados.

Com isso, atesto que é um equívoco pensar que há uma retórica Celeste, um “abc” para educar mais ou menos o povo tutelado. Isso seria não só subestimar kantianamente sua capacidade de compreensão das coisas. Além de infantiliza-lo (como os escravos eram tratados), trata-se de ocultar o que a força do dinheiro faz com a consciência das massas, que operam com a lógica das necessidades imediatas e do suborno generalizado.

Com isso, provo que toda e qualquer crítica às formas de avaliação histórica e enunciação materialista dialética produzida pelos estamentos do marketing político contra intelectuais que tentam tratar com mais complexidade de determinadas práticas políticas deixa de ter sentido, além de ser algo perigoso em função do cerceamento da livre circulação de ideias.

Existem muitas pessoas com pós-graduação que votam de boa em candidatos nazistas, mesmo compreendendo que poderiam decidir pelo contrário, já que têm mais poder de mudar a direção de sua própria vida. Não existe “abc” que possa dar de conta das transformações da realidade com base em cartilhas previamente expressas. Não se pode medir por baixo a educação popular. É a economia política que comanda o processo decisório e suas enunciações. O controle da linguagem para educação não passa de um neorwelianismo populista disfarçado de conscientização política.

Ou seja, o esclarecimento não tem a ver com um problema de comunicação ou de depuração da linguagem, como é moda por aqui. Falta de esclarecimento e de mudança de perspectivas têm a ver com carência de recursos econômicos e de meios materiais outros para organização e construção de uma revolução, alterando assim o quadro das forças envolvidas.

Sou extremamente cético e acho contraproducentes as críticas feitas aos intelectuais de esquerda mediante o quadro posto. Está na hora de pararmos de subestimar o povo e largar esse habermazianismo para o qual sabemos para onde se direciona políticamente.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.