O Grande Inquisidor da Arte (Por Wallace Armani)

No glorioso Estado da Pureza Cultural, onde a tinta secava sem degenerescência ideológica e as notas musicais eram meticulosamente verificadas para evitar qualquer resquício de wokismo, as ruas eram adornadas com cartazes vibrantes e hologramas brilhantes que ecoavam o mantra nacional: “Nenhuma Arte Sobrevive à Pureza!”

Todas as noites, na grande Praça da Purga Estética, milhares se reuniam para assistir ao Tribunal da Verdade Artística, onde especialistas, fardados de terno preto e olhar severo, julgavam obras suspeitas. Poetas, roteiristas e pintores eram levados ao palco para explicar por que suas criações continham indícios de inclusividade, diversidade ou qualquer outro traço que pudesse macular a Arte Verdadeira.

Foi numa dessas noites que Rufus Cartwright, um restaurador de pinturas antigas, caiu em desgraça.

O Pecado da Dúvida

Rufus levava uma vida segura e previsível, escaneando telas para detectar manchas de wokismo acidental. Um uso suspeito de cores? Um olhar demasiadamente esperançoso em uma escultura? Era trabalho dele apontar, condenar e purificar.

Mas tudo mudou quando ele encontrou uma página perdida de um manuscrito proibido. Seu nome? “O Mito do Wokismo”. Aquele texto ousava afirmar o impensável: o wokismo nunca existiu.

A princípio, Rufus riu. Obviamente era uma armadilha para atrair traidores da cultura pura. Mas conforme lia, a dúvida começou a se infiltrar como um vírus subversivo em sua mente. Se tudo o que era produzido inevitavelmente parecia woke… e se não houvesse nenhum agente secreto do wokismo por trás disso, então talvez…

Talvez fosse apenas a arte.

A Fuga do Herege

Nos dias seguintes, Rufus começou a ver as coisas de forma diferente. A escultura de um operário empunhando uma marreta lhe pareceu suspeitamente progressista. As canções de glória patriótica tinham acordes inquietantemente emotivos. Até mesmo os discursos do Grande Inquisidor da Arte continham algo estranhamente teatral.

Percebeu que estava perdido. Ele tinha enxergado o conceito. O pensamento era perigoso. Bastava uma fagulha de dúvida para transformar alguém de um soldado da pureza cultural em um fugitivo da sanidade autorizada.

Ele tentou escapar. Mas o olfato dos cães ideológicos era infalível. Ele foi capturado ao tentar cruzar a Fronteira da Neutralidade Estética com uma citação de Oscar Wilde escondida em sua bota.

O Julgamento

O tribunal estava lotado. O Grande Inquisidor da Arte fitava Rufus do alto de sua tribuna dourada.

— Diga, traidor da Verdadeira Cultura: por que quis espalhar a Palavra Woke?

— Eu… eu apenas li.

A multidão arfou em horror. O juiz bateu o martelo.

— “Apenas leu”? Apenas leu?! Quem lê questiona! Quem questiona cria! Quem cria se contamina! Você é culpado, Rufus Cartwright, e será condenado ao destino apropriado.

A sentença foi anunciada:

Ser trancado em uma sala branca. Sem palavras. Sem cores. Sem arte.

Lá, Rufus passaria o resto da vida, para garantir que nunca mais pudesse ser influenciado pelo que nunca existiu.

Lá, finalmente, estaria puro.

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