Diante da ameaça dos Estados Unidos de impor tarifas de 50% ao Brasil e da aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, o senso comum tende a interpretar esses eventos como conflitos diplomáticos, disputas comerciais ou choques ideológicos. Mas sob uma análise marxista, a cortina se abre para revelar algo muito mais profundo: a luta de classes em escala internacional. O que está em jogo não são apenas impostos ou princípios jurídicos, mas o funcionamento brutal da engrenagem imperialista que rege o capitalismo contemporâneo.
A tarifa de 50% não é uma medida puramente econômica. É uma ferramenta de coerção política. O Brasil, como nação periférica, é integrado ao sistema capitalista global como fornecedor de commodities e mão de obra barata. Qualquer sinal de soberania, seja ambiental, jurídica ou tecnológica, aciona os alarmes do centro imperialista. O protecionismo trumpista não visa proteger trabalhadores estadunidenses, como alegam seus slogans vazios. Ele busca disciplinar economias dependentes que se desviem dos interesses do capital monopolista global. Sob a lente marxista, a tarifação é apenas a expressão atualizada da violência econômica imperialista, descrita por Lenin e evidenciada por décadas de dependência estrutural. É o capital internacional reforçando sua hegemonia sobre a periferia, como quem diz: “Saiba o seu lugar.”
A aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes, sob a justificativa de violação dos “direitos humanos”, soa como ironia de gosto duvidoso. Os EUA, país com um histórico notório de apoio a ditaduras, tortura sistemática e políticas racistas, se arvoram como paladinos da liberdade. Mas o que realmente está em jogo? A resposta é simples: a liberdade de circulação de capital e de manipulação digital, garantida pelas big techs. Moraes se tornou persona non grata não por oprimir ninguém, mas por tentar regular e conter milícias digitais de extrema-direita, cujo funcionamento beneficia diretamente os interesses da burguesia internacional, sobretudo do setor de tecnologia e finanças. Quando o Estado nacional tenta limitar o poder de plataformas privadas que monetizam a desinformação, ele é imediatamente classificado como autoritário.
É ilusório ver essa conjuntura como um embate entre nações soberanas. Trata-se, na verdade, de uma disputa entre frações da classe dominante. De um lado, temos a burguesia transnacional financeira e digital, que busca consolidar seu poder absoluto sobre economias, subjetividades e democracias. Do outro, frações do Estado brasileiro, como o Judiciário ou setores do Executivo, que, por razões variadas, tentam manter algum grau de autonomia frente a essa avalanche. O que ocorre é a reação do capital globalizado contra qualquer obstáculo local à sua livre expansão. Não é coincidência que a extrema-direita brasileira, alinhada a esses interesses, se beneficie diretamente de tal ingerência internacional. Quando o Supremo Tribunal Federal investiga a atuação criminosa dessas redes, não é apenas um conflito interno. É um choque direto com a infraestrutura da dominação burguesa internacional.
A classe trabalhadora, como sempre, é a grande prejudicada. Sofre com a precarização digital, com os impactos econômicos da submissão comercial e com o bombardeio contínuo de uma guerra ideológica feita sob medida para impedir qualquer consciência de classe. Enquanto os blocos burgueses disputam espaço e controle, o proletariado segue explorado na fábrica, manipulado pela fake news e esmagado pelo custo da vida.
O imperialismo não desapareceu. Apenas vestiu um terno do Vale do Silício, carrega um iPhone no bolso e escreve suas ameaças por meio de sanções, tarifas e “direitos humanos” seletivos. A luta de classes segue firme, só que agora ela é travada tanto nos porões da fábrica quanto nas nuvens dos servidores da Amazon Web Services.
