
O ataque dos EUA ao Brasil começa a vigorar
Apesar de inúmeras tentativas de negociação do governo e dos capitalistas brasileiros, o “tarifaço” de Donald Trump contra o Brasil entrou em vigor na quarta-feira, 6 de agosto. No final de julho, o fascista presidente dos EUA já tinha confirmado a implementação dessa sanção imperialista contra o Brasil, a partir de alegações cínicas, hipócritas e mentirosas sobre “políticas, práticas e ações recentes do governo brasileiro que constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”. Além dessa defesa implícita dos interesses das big techs e do dólar, pesou também sua aliança com o fascista Jair Bolsonaro, agora em prisão domiciliar e com julgamento próximo pela sua tentativa de golpe.
Apesar de o tarifaço concretizado ser menor do que o anunciado inicialmente, tendo em vista a retirada de aproximadamente metade da pauta exportadora brasileira, sobretudo de produtos que mais interessam aos capitais dos EUA, o fato é que o Brasil continua com a maior elevação tarifária entre os países atingidos pela guerra comercial trumpista, chegando à taxação de 50%. Essa enorme sobretaxa já está atingindo importantes mercadorias exportadas para os EUA, como é o caso do café, da carne e de alguns produtos da metalurgia. O tarifaço deve também impactar de forma mais intensa determinados estados brasileiros que possuem maior dependência do mercado norte-americano, como é o caso do Ceará e do Espírito Santo.
Como afirmado na publicação anterior, o tarifaço e as demais ameaças e retaliações ao Brasil são um verdadeiro ataque imperialista ianque. Esse ataque ocorre em um contexto de ofensiva política externa dos EUA, radicalizada pelo governo Trump, na qual essa principal potência imperialista do mundo visa manter sua hegemonia e reverter sua tendência de declínio relativo, conter a ascensão da China, defender seus monopólios e capitais e ampliar seus mercados e lucros. Os EUA expressam e reforçam o agravamento das contradições interimperialistas que marcam a atual conjuntura internacional.

Além disso, com esse ataque, Trump busca defender e impulsionar movimentos externos de extrema-direita, fascistas, como o bolsonarismo, reforçando o processo interno de fascistização dos EUA, com a construção de um estado de exceção aliado a um movimento de massa xenófobo e racista. No Brasil, a ala mais coesa da extrema-direita, que tem sofrido algumas derrotas oriundas do aparelho repressivo de estado após a tentativa fracassada de golpe, recebeu o ataque de Trump como um apoio político direto, o que reforçou sua subserviência ao império ianque, visível nas manifestações do dia 3 de agosto em várias capitais do país.
A posição da burguesia e seu governo Lula-Alckmin: entreguismo e ataque aos trabalhadores
O governo burguês de Lula-Alckmin tentou liderar os esforços de negociação pela revogação do tarifaço, até então fracassados. Apesar de uma retórica nacionalista inicial mais inflamada, com óbvios interesses eleitoreiros, o objetivo central da ação do governo foi representar e defender os capitais nacionais e sua lucratividade, sem alterar a posição subordinada ocupada pelo Brasil. Por detrás da suposta defesa da “soberania nacional” e do “povo brasileiro” (sic!), havia um chamado à união nacional burguesa em prol da manutenção da relação dominada do Brasil com os EUA, de acordo com os marcos e acordos anteriores ao tarifaço.
Essa postura da burguesia e de seu governo, uma postura submissa de fato, não ousou tentar até o momento qualquer medida concreta de retaliação em resposta ao ataque. Pelo contrário, o que se tem visto é uma minimização desse ataque sem precedentes históricos, tentativas humilhantes de retomar contato direto com a Casa Branca e sinalizações de recuos nas negociações, pautadas no mais puro entreguismo. É o caso das mais recentes declarações do ministro da fazenda. Após afirmações explícitas dos EUA em relação ao seu interesse nas chamadas terras raras brasileiras (regiões com presença de minerais hoje estratégicos), Haddad declarou disposição do governo em realizar acordos com o imperialismo ianque envolvendo essas terras. Afinal, historicamente, ambos os países sempre tiveram boas relações – de submissão brasileira, é óbvio!
Como afirmamos em nosso Documento Base, em relação às contradições atuais entre países dominantes (imperialistas) e dominados:
“em geral, a tendência predominante é de compromissos entre a burguesia dos países dominados e a burguesia dos países dominantes, com o predomínio dessas últimas. Essa subordinação ocorre através do alinhamento político entre seus países … e pela busca dos capitais dos países dominados por atuar de maneira complementar, nos espaços deixados pelo capital imperialista – na impossibilidade da concorrência. Mesmo essa tendência não exclui a concorrência e a disputa entre esses capitais. Além disso, as burguesias dos países imperialistas e dominados estão inteiramente unidas na exploração e dominação das respectivas classes operárias. Ou seja, tanto a burguesia dos países imperialistas quanto a burguesia doméstica dos países dominados são inimigas de classe do proletariado e das massas trabalhadoras”.
Junto ao entreguismo disfarçado de soberania, a suposta defesa do “povo brasileiro” por parte desse governo burguês será feita por um conjunto de medidas de salvação dos capitalistas mais atingidos pelo tarifaço. E quando se fala em defesa de capitalistas, fala-se em ataque às classes trabalhadoras! Apesar de, em suas declarações, os patrões e o governo chorarem lágrimas de crocodilo ao tratarem dos trabalhadores dos setores mais atingidos, o fato é que será por meio do suor, do aumento da exploração, do desemprego e da miséria desses e dos demais trabalhadores que os capitais nacionais tentarão se salvar.
Essas medidas, que estão sendo finalizadas entre a burguesia e o governo, compõem um verdadeiro programa burguês emergencial semelhante àquele implementado na pandemia pelo governo Bolsonaro. Conforme a fala de um burguês da indústria, “parte dessas propostas veio desse pacote [da pandemia] anterior simplesmente porque foi testado e funcionou”. Funcionou para a classe dele: com dinheiro a rodo para os patrões e redução ou perda de salários para os trabalhadores! Conforme antecipam os anúncios já realizados pelo governo, além de dinheiro barato para as empresas, com linhas de crédito específicas em bancos públicos e compra de mercadorias atingidas via estado, haverá também medidas que atingem diretamente os trabalhadores, que podem envolver redução de jornada e salário, lay-off (suspensão de contrato), férias coletivas, banco de horas, contrato intermitente, retrabalho e antecipação de feriados.
Tais ataques aos trabalhadores, disfarçados de “garantia do emprego”, também estão sendo negociados com os pelegos das centrais sindicais, cuja função principal é servir de correia de transmissão desse governo burguês e seus interesses nos locais de trabalho. De forma desavergonhada, ainda na semana passada, o presidente da CUT saiu em defesa da antecipação de feriados e do banco de horas nas empresas, como medidas prévias à redução salarial – que, segundo ele, “funciona bem” na Europa! Antes mesmo do tarifaço começar, os pelegos já estavam quebrando a cabeça para ver as formas mais ajustadas de ajudar os patrões brasileiros. Eis a “soberania nacional” e a “democracia” que essa pelegada foi defender no Largo de São Francisco dia 25 de julho: soberania e democracia só para os nossos inimigos!
A verdadeira luta anti-imperialista é concomitante ao reforço da posição e luta proletária contra esse governo burguês e seus aliados
A luta contra o ataque imperialista ao Brasil só pode ser vitoriosa para as massas trabalhadoras articulando a luta anti-imperialista à crítica e ao combate a esse governo burguês, que neste momento desenha mais um ataque aos trabalhadores para salvar os patrões atingidos pelo tarifaço. A luta contra nossos inimigos externos e internos não pode ser travada sob uma bandeira alheia, como criticava Lênin, mas só efetivamente sob a bandeira do Socialismo como a única saída para as classes trabalhadoras de todos os países e para todos os povos do mundo nesse cenário de acirramento das contradições imperialistas e avanço da barbárie capitalista.
Nesse sentido, devemos também combater aqueles inimigos que semeiam ilusões em nossas fileiras em relação a esse governo e à burguesia brasileira no atual ataque imperialista. A “esquerda” governista e sua ala governista autointitulada “crítica” escancararam ainda mais o seu oportunismo nas últimas semanas ao se reduzirem a um mero apêndice da união nacional em prol dos capitais brasileiros, em meio a delírios nacionalistas e pró-imperialismo chinês, em afrontosa oposição aos interesses fundamentais do proletariado. O papel dos comunistas, separando-se dessa canalha, é aferrar-se ainda mais às organizações e às lutas concretas das massas exploradas, inclusive no combate ao pacote de salvação do capital, atualmente em construção pela burguesia e apoiada por esses fajutos defensores da nação e do nosso povo.
As alianças que interessam ao proletariado nessa conjuntura são com as demais classes exploradas e com os povos oprimidos, contra as sucessivas ofensivas burguesas e imperialistas, pois só por meio dessa ampla resistência acumularemos forças para sair desse quadro de recuo na luta de classes.
