Venezuela Não é Exceção: É Regra do Imperialismo (Por Wallace Armani)


Os Estados Unidos não lidam com a Venezuela como lidariam com um Estado soberano qualquer. Lidam como um problema a ser administrado, contido ou eliminado. A retórica muda — democracia, direitos humanos, combate ao autoritarismo —, mas o gesto estrutural permanece o mesmo: intervenção. Aberta ou disfarçada. Econômica, política, jurídica ou, no limite, militar.

As sanções impostas à Venezuela não são um detalhe técnico da política externa. São uma arma. Bloqueiam acesso a mercados, sufocam importações essenciais, estrangulam o sistema financeiro e produzem colapsos sociais previsíveis. Não é erro de cálculo. É método. Quando a população sofre, Washington aponta o dedo para Caracas; quando o Estado reage, acusa-se autoritarismo. Um ciclo fechado, funcional, cínico.

A possibilidade — nem tão implícita — de sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa extrapola o campo diplomático e entra no território da soberania violada. Não se trata apenas de discordância política ou condenação moral, mas da afirmação prática de que os EUA se arrogam o direito de julgar, punir e sequestrar lideranças de outros países. Isso não é exceção histórica. É padrão.

Lênin chamou esse padrão pelo nome: imperialismo. Em Imperialismo, fase superior do capitalismo, ele descreve um sistema no qual Estados centrais, articulados aos interesses do capital financeiro e monopolista, passam a disputar não apenas mercados, mas o controle direto ou indireto de territórios, governos e recursos estratégicos. A Venezuela, com suas maiores reservas de petróleo do planeta, não é um acidente geopolítico. É alvo lógico.

O imperialismo, para Lênin, não depende necessariamente de anexação formal. Ele opera por meio da coerção econômica, da pressão diplomática, da desestabilização política e da substituição de governos hostis por administrações dóceis. Quando isso falha, a ameaça de força aparece como último argumento. A Venezuela vive todas essas etapas há anos. Negar isso é negar o óbvio.

A narrativa de Washington tenta inverter causa e efeito. Afirma-se que as sanções existem porque há autoritarismo, quando o histórico mostra que a pressão externa precede e aprofunda a radicalização interna. Defende-se a “democracia” enquanto se apoia golpes, reconhece-se presidentes autoproclamados e financia-se oposição alinhada aos interesses estadunidenses. Democracia, aqui, é senha. Não princípio.

Qualquer tentativa de defender a posição dos EUA esbarra em contradições insolúveis. Se o problema fosse realmente a democracia, por que alianças sólidas com monarquias absolutistas, ditaduras militares e regimes teocráticos seguem intactas? Se a preocupação fosse direitos humanos, por que bloqueios econômicos que ampliam fome, migração e mortalidade seguem sendo tratados como política legítima?

O argumento da “ameaça regional” também não se sustenta. A Venezuela não invadiu países vizinhos, não instalou bases militares no exterior, não controla rotas globais de comércio. Quem faz isso são os Estados Unidos. O medo, nesse caso, não é de agressão, mas de exemplo: um país que insiste em manter controle sobre seus recursos estratégicos fora da órbita direta de Washington.

Defender a posição dos EUA exige aceitar que algumas soberanias valem menos que outras. Exige normalizar sequestros, sanções coletivas e intervenções seletivas em nome de valores aplicados apenas quando convêm. Exige, no fundo, aceitar a lógica imperial como natural. Lênin alertou: quando o capitalismo atinge seu estágio imperialista, a violência deixa de ser exceção e passa a ser regra.

A Venezuela não é perfeita. Nenhum Estado é. Mas a questão central nunca foi moral. É estrutural. Trata-se de quem manda, quem obedece e quem paga o preço. E, nesse tabuleiro, a política dos EUA não é defesa da democracia. É a reafirmação nua e crua de um imperialismo que já não se dá ao trabalho de fingir discrição.

Dizer isso não é propaganda. É leitura material da realidade. O resto é ruído — alto, bem financiado e ideologicamente conveniente.

Belo Horizonte, 3 de janeiro de 2026.

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