A Implosão da Inteligência de Estado e a Ascensão do Policialismo Diplomático no Brasil (Por Fabio Sobral)

Fábio Maia Sobral [1]

Fortaleza, 06 de janeiro de 2026.

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, o equilíbrio geopolítico da América do Sul foi violentamente reconfigurado. Enquanto a maioria dos brasileiros dormia, uma força-tarefa militar de elite dos Estados Unidos executou uma operação de extração de alta complexidade em solo venezuelano, resultando no sequetro do chefe de Estado vizinho, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, retirados de um bunker em Forte Tiuna. A operação, marcada por explosões que sacudiram Caracas e pela violação flagrante do espaço aéreo de uma nação soberana, não foi apenas um ato de projeção de poder imperial norte-americano; foi o marco zero da exposição da cegueira estratégica do Estado brasileiro.


No Palácio do Planalto, a notícia teria chegado não através de canais seguros de um serviço secreto operante e infiltrado, mas pelo toque de telefones que retransmitiam o óbvio já circulante em redes abertas ou informações táticas de segunda mão. O Brasil, que compartilha mais de 2.000 quilômetros de fronteira com a Venezuela e possui interesses vitais na estabilidade regional, estava desprovido de ativos estratégicos primordiais. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), órgão desenhado legislativamente para ser a primeira linha de defesa informacional da soberania nacional, não possuía um único Oficial de Inteligência na embaixada em Caracas no momento crítico da invasão.


O vácuo deixado pela ABIN, fruto de um desmonte orçamentário deliberado e de uma crise de identidade institucional que se arrasta há anos, foi preenchido de forma imprópria, improvisada e amadora pela Polícia Federal (PF). O governo brasileiro, em um momento de crise internacional aguda, viu-se dependente de relatórios produzidos por adidos policiais — profissionais de excelência em segurança pública, mas cuja formação, doutrina e rede de contatos são estruturalmente incapazes de fornecer a profundidade de análise geopolítica exigida por um Chefe de Estado.


Esse caso explicita não apenas o fracasso operacional em Caracas, mas diagnostica uma patologia muito mais grave que infecta a arquitetura de poder em Brasília: a usurpação das competências da Inteligência de Estado por uma lógica policialesca, a confusão perigosa entre investigação criminal e assessoramento estratégico, e o risco existencial de um país continental que, ao decidir “criminalizar” a inteligência, optou por caminhar cego em um cenário internacional cada vez mais complexo e hostil. A tese aqui defendida é clara: a substituição da ABIN pela Polícia Federal não é uma mera reforma administrativa; é um erro histórico que compromete a segurança nacional, isola o Brasil de seus pares globais e submete a política externa brasileira a uma visão de mundo restrita às páginas de um inquérito policial.

O Apagão da Inteligência Brasileira


A ausência de adidos civis de Inteligência da ABIN na Venezuela em janeiro de 2026 não foi um acidente de percurso, mas o resultado de uma negligência sistêmica. O posto da agência em Caracas, fundamental para a coleta de dados de inteligência humana (HUMINT) e para o estabelecimento de redes de informantes com atores locais (governamentais e opositores), encontrava-se vago desde março de 2020. Naquele ano, sob a gestão Bolsonaro, a embaixada brasileira foi fechada por razões ideológicas. Contudo, o retorno das relações diplomáticas plenas em 2023, sob o governo Lula, não foi acompanhado pela recomposição da estrutura de inteligência.


A justificativa oficial da agência, alegando que “ainda não foi possível reabrir a adidância”, três anos após o reestabelecimento do posto diplomático e havendo Oficiais de Inteligência capacitados para assumir o posto de adido, mascara uma realidade de sucateamento. Sem agentes em campo (“boots on the ground”), a agência limita-se a produzir relatórios baseados em fontes abertas (OSINT), relatos de imigrantes na fronteira de Pacaraima e entrevistas com líderes sociais acessíveis, mas distantes do centro de decisão em Caracas. A gravidade desse “apagão” reside na natureza da informação perdida. A inteligência clássica não busca apenas saber o que aconteceu (o que a imprensa faz), mas antecipar o que vai acontecer e por quê. Para isso, é necessário cultivar fontes sensíveis dentro das instituições venezuelanas, nos círculos íntimos do chavismo e nas redes de oposição. É preciso captar os sinais fracos de uma movimentação militar estrangeira ou a degradação da lealdade na guarda pretoriana de Maduro. Sem essa rede, o Brasil foi surpreendido. E em geopolítica, surpresa é sinônimo de fracasso.


A Improvisação Policial como Muleta Estatal


No vácuo da inteligência de Estado, emergiu a figura do Adido Policial Federal. Desde a madrugada da operação americana, segundo a imprensa, foi o adido da PF em Caracas quem alimentou o Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e consequentemente o Presidente Lula, com informações táticas. O Diretor-Geral da PF, Andrei Rodrigues, capitalizou sobre a crise, afirmando que seus adidos atuam para “antever movimentos”, apropriando-se retoricamente da função primordial da Inteligência.

Contudo, a atuação da PF, por mais diligente que tenha sido, possui limitações estruturais intransponíveis para esse tipo de missão. A rede de contatos de um adido policial, quando muito, é formada por seus homólogos: forças de segurança pública e autoridades de controle de fronteiras. Em um Estado em conflito como a Venezuela, essas fontes são frequentemente periféricas ao núcleo de poder real, que reside na inteligência e na alta cúpula política.

Além disso, a informação policial é filtrada pela ótica da persecução criminal. O adido policial observa o cenário buscando ilícitos, rotas de tráfico, foragidos e provas judiciais. Ele não é treinado para analisar a intention política de uma potência estrangeira (EUA) ou as manobras de sobrevivência do país sob cerco a partir da ótica da Grande Estratégia. Ao depender da PF, o governo brasileiro recebeu um “boletim de ocorrência” geopolítico, quando necessitava de uma Avaliação de Inteligência Estratégica.

Tomemos como exemplo da falha dessa abordagem a reação inicial à narrativa americana. O governo dos EUA justificou a captura de Maduro alegando sua liderança no “Cartel de los Soles”, uma acusação que fundamentou a ação militar sob o pretexto de combate ao narcoterrorismo. No entanto, dias após a captura, o Departamento de Justiça americano “recuou”, reescrevendo a acusação para descrever o cartel não como uma organização hierárquica, mas como um “termo guarda-chuva” para a corrupção estatal difusa, e removendo a acusação direta de chefia de cartel contra Maduro.

Uma agência de inteligência forte teria alertado o Planalto, muito antes da crise, sobre a natureza instrumental dessa acusação. Analistas de inteligência sabem que potências utilizam o lawfare e a rotulagem de “narcoterrorismo” como ferramentas de mudança de regime. Uma visão puramente policial, acostumada à cooperação internacional baseada na confiança mútua entre agências law enforcement, tende a aceitar a acusação formal de um parceiro como o DEA ou FBI como verdade factual. O Brasil, sem Inteligência independente para questionar as premissas americanas, fica vulnerável à manipulação narrativa, reagindo aos fatos consumados em vez de compreender o jogo de xadrez que se desenrola.


Porque Polícia Não é Inteligência


A raiz do problema brasileiro reside em uma confusão conceitual que, embora possa parecer acadêmica, tem consequências práticas perversas e devastadoras. A atividade de Inteligência e a atividade Policial são ontologicamente distintas. Como elucida a doutrina especializada, a inteligência é um instrumento de assessoramento, enquanto a investigação é um instrumento de apuração e sanção.

Ao tentar usar a PF para fazer inteligência externa na Venezuela, o Brasil ignora diferenças irreconciliáveis entre as duas atividades. A “Inteligência Policial” é uma subdisciplina valiosa, mas seu foco é o suporte à operação policial. Ela não instrumentaliza o Estado para lidar com a movimentação de frotas navais americanas no Caribe ou com a estabilidade política de um vizinho.

A indicação de um Delegado Polícia Federal para gerir um serviço de Inteligência de Estado é de uma grave incompreensão do papel estratégico desempenhado pela ABIN. Oficiais de Inteligência são incompetentes para conduzirem inquéritos policiais. Não faz parte da sua capacitação nem das suas rotinas e competências. Da mesma forma, Delegados de Polícia não possuem competências formais para minimamente conduzirem a gestão do órgão central  do Sistema Brasileiro de Inteligência. Seria o mesmo que colocar como Diretor-Geral da agência um operador de inteligência econômica, ou um profissional da saúde que atue com inteligência epidemiológica. A aplicação da inteligência a diversos campos, como a inteligência policial ou econômica, não credencia os operadores de campos teleológicos diversos a conduzirem análises e operações de interesse do Estado.

Pior e mais grave, a expansão da Polícia Federal para além de suas fronteiras constitucionais reflete o que teóricos chamam de “aspirações imperiais” de corporações burocráticas. Não se trata apenas de ocupar espaço, mas de impor uma visão de mundo. A PF, fortalecida por anos de protagonismo na Operação Lava Jato e agora no governo Lula, busca se consolidar como o único órgão fiável de segurança do Estado.

Essa ambição é visível, por exemplo, nos decretos recentes que multiplicam os postos de Adido Policial Federal em embaixadas estratégicas (EUA, Reino Unido, China etc.).
Diferentemente dos adidos de inteligência ou militares, cuja função é de assessoramento estratégico e defesa, respectivamente, o adido policial deveria cinge-se à cooperação técnica contra o crime. Contudo, ao assumir a interlocução política e a análise de cenário, a PF transforma a diplomacia brasileira em uma extensão da delegacia.

O Estigma da “Abin Paralela” e o Desmonte da ABIN

Não é possível compreender a debilidade atual da ABIN sem abordar o trauma recente da “Abin Paralela”. Durante o governo Bolsonaro, parte da direção da agência foi
instrumentalizada para fins político-partidários, monitorando ilegalmente adversários, jornalistas e até aliados, utilizando ferramentas de ciberespionagem como o FirstMile. As investigações da Polícia Federal sobre esses abusos, embora necessárias e republicanas, tiveram um efeito colateral devastador: a criminalização da instituição perante a opinião pública e o atual governo.

O governo Lula, em vez de optar por uma reforma sanitizadora que fortalecesse a agência como instituição de Estado, optou pelo seu estrangulamento. A ABIN, agora na Casa Civil, carece de protagonismo institucional e de autonomia operacional. O clima de descrédito e desconfiança deteriora o clima organizacional e aumenta a evasão de quadros profissionais, capacitados com recursos públicos. A entidade que representa dos servidores da ABIN, Intelis, denuncia uma defasagem de 80% no quadro de pessoal e uma falta crônica de orçamento. Enquanto a PF recebe recursos para abrir novas adidâncias e comprar equipamentos de ponta, a ABIN não tem verba ou autorização política para realizar operações de contraespionagem ou para enviar um único oficial a Caracas.

No centro desse desmonte está uma disputa de poder fratricida entre o Diretor-Geral da PF, Andrei Rodrigues, e o Diretor-Geral da ABIN, Luiz Fernando Corrêa. A PF utiliza o inquérito da “Abin Paralela” não apenas para punir culpados, mas como alavanca política para deslegitimar a agência rival, em sua ótica, e usurpar suas competências. O resultado é uma agência paralisada, acéfala e temerosa: ninguém na ABIN ousa tomar iniciativas sensíveis de Inteligência externa por receio de que, a qualquer pretexto, a PF aponte erros que possam ser utilizados para pedir a extinção ou reformulação radical do órgão.

A decisão brasileira de priorizar a PF nas relações internacionais gera um problema grave de cooperação com serviços de Inteligência estrangeiros. No mundo da inteligência, a regra de ouro é a Third Party Rule: a informação dada não pode ser repassada sem autorização, e jamais deve ser usada em processos judiciais públicos.

Serviços secretos como a CIA (EUA), MI6 (Reino Unido) ou DGSE (França) são civis e operam separados de suas polícias federais (FBI, Scotland Yard, Polícia Nacional). Eles sabem que, se passarem uma informação sensível para um delegado de polícia brasileiro, a chance dessa informação acabar nos autos de um processo, devido ao dever funcional do policial de agir diante do crime, é altíssima.

Sem canais próprios de inteligência confiáveis, por falta de representação de Inteligência na crise venezuelana, o Brasil ficou dependente de fluxos viciados. A PF brasileira tem laços históricos e profundos com agências americanas (DEA, FBI). Essas agências repassam a visão de Washington e a tendência institucional da PF é absorver essa premissa, contaminando a análise soberana do Estado brasileiro.

O modelo brasileiro atual caminha para uma “Super-PF” onipotente, assemelhando-se perigosamente aos modelos de estados autoritários ou de democracias imaturas, onde o aparato coercitivo monopoliza a verdade do Estado. A literatura sobre cooperação internacional é unânime: a confusão entre police intelligence e security intelligence gera atrito, desconfiança e ineficiência.

A substituição da Inteligência de Estado pela Atividade Policial reduz a complexidade do mundo a um inquérito criminal. Ela nos priva da capacidade de antecipação, nos isola de parceiros estratégicos que não confiam em polícias para guardar segredos de Estado, e nos deixa vulneráveis a manipulações narrativas de potências estrangeiras. Um país que aspira à soberania não pode terceirizar seus olhos e ouvidos, nem confiá-los a quem tem, por dever de ofício, a missão de olhar apenas para o crime e não para a história.

A reconstrução da ABIN, blindada de partidarismos e dotada de recursos e autonomia, é urgente. Não se trata de defender uma corporação, mas de defender a capacidade da
Presidência da República de tomar decisões informadas, independentes e soberanas. Exige vontade política, investimento e a clara delimitação de que a Inteligência de Estado é uma função soberana, distinta e insubstituível. Enquanto o Brasil insistir em tratar geopolítica como caso de polícia, continuará sendo surpreendido em seu próprio quintal, reagindo aos fatos consumados por outros, eterno coadjuvante de um destino que deveria protagonizar.

1 Fabio Maia Sobral
Economista e filósofo, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutorado em Filosofia pela
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), analista econômico e geopolítico.

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