Donald Trump deve ser compreendido menos como uma ruptura e mais como uma condensação histórica. Sua atuação política explicita, de forma pouco dissimulada, elementos estruturantes da formação ideológica e material dos Estados Unidos: o Destino Manifesto, o macarthismo e a Doutrina Monroe. Esses elementos não aparecem como referências ocasionais, mas como fundamentos reatualizados de um projeto imperial em contexto de crise.
O Destino Manifesto, formulado no século XIX como justificativa moral para a expansão territorial e política dos EUA, baseava-se na crença de uma missão histórica singular atribuída à nação norte-americana. Em Trump, essa lógica reaparece esvaziada de qualquer sofisticação retórica, mas preservada em seu núcleo: a naturalização da superioridade dos interesses estadunidenses sobre os demais povos. O slogan America First expressa essa continuidade ao afirmar, de maneira direta, a hierarquização do sistema internacional segundo as necessidades do capital e do Estado norte-americanos. Aqui, não se trata apenas de um nacionalismo defensivo, mas de uma reafirmação do direito de intervir, sancionar e impor custos a outras nações em nome de uma suposta ordem legítima.
O macarthismo, enquanto forma política, não se limita à perseguição formal ao comunismo, mas opera como um mecanismo de deslocamento do conflito social. Trump reatualiza essa lógica ao transformar antagonismos de classe em disputas morais, culturais e identitárias. A figura do inimigo interno — o imigrante, o intelectual, a imprensa, o funcionalismo público — substitui a crítica às estruturas de exploração capitalista. O anticomunismo, nesse sentido, não aparece como doutrina coerente, e sim como instrumento de neutralização da consciência de classe e de fragmentação do campo popular. Trata-se de um expediente clássico em momentos de intensificação das contradições do capitalismo.
Já a Doutrina Monroe, historicamente voltada à afirmação da hegemonia dos EUA no continente americano, é reafirmada sob Trump com menor mediação diplomática. A América Latina é tratada como zona de influência direta, na qual a soberania nacional é relativizada sempre que colide com interesses estratégicos, econômicos ou geopolíticos dos EUA. Sanções econômicas, pressões políticas e ameaças explícitas tornam-se instrumentos legítimos de política externa, apresentados sob a retórica da defesa da democracia, ainda que seus efeitos concretos recaiam sobre as populações trabalhadoras desses países.
A partir de uma perspectiva marxista, Trump não pode ser interpretado como um desvio pessoal ou uma anomalia institucional. Ele expressa uma função política específica em um contexto de crise estrutural do capitalismo. Sua atuação responde às demandas de frações do grande capital — financeiro, energético, industrial e militar — que exigem maior agressividade estatal para preservar taxas de lucro, posições geopolíticas e mercados. O discurso antissistêmico convive, sem contradição, com políticas econômicas que aprofundam a concentração de renda, a precarização do trabalho e o desmonte de mecanismos de proteção social.
Trump, portanto, personifica uma forma particular de exercício do imperialismo em sua fase de esgotamento relativo: menos capaz de produzir consenso, mais dependente da coerção. Sua figura política revela, de maneira explícita, aquilo que frequentemente permanece encoberto por discursos liberal-institucionais: a centralidade do Estado como gestor dos interesses do capital e a disposição permanente do imperialismo em recorrer à força — econômica, política ou militar — para manter sua posição dominante no sistema mundial.
Belo Horizonte, 21 de janeiro de 2026.
