A Guerra Interna do Império: Fascismo e Resistência nos EUA (Por Leonardo Lima Ribeiro)
“Em uma mensagem de congratulações ao Sr. Lincoln por sua reeleição como presidente, expressamos nossa convicção de que a Guerra Civil Americana se mostraria tão importante para o avanço da classe trabalhadora quanto a Guerra de Independência Americana se mostrara para o avanço da classe média. E, de fato, a conclusão vitoriosa da guerra antiescravista abriu uma nova época nos anais da classe trabalhadora…”
Referência: Karl Marx (redator). Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Mensagem à União Operária Nacional dos Estados Unidos. Londres, 12 maio 1869. Destinatário: National Labor Union (EUA).
Talvez a tese de Marx de que os EUA podem se tornar o epicentro da luta de classes venha à tona agora com a ascensão do fascismo. Por isso, é adequado o resgate da passagem supramencionada de Marx (Mensagem à União Operária Nacional dos Estados Unidos).
De antemão, cabe ressaltar que o conflito entre Guarda Nacional e ICE demonstra que inicialmente pode haver a instauração de uma guerra civil que já demonstra seus primeiros sinais. Tal tensionamento pode até mesmo fazer com que o ICE (SA) seja substituído por uma nova SS, caso assumam de vez o controle da ordem do caos por ele implantado.
Inicialmente, o que já temos por certo é uma espécie de tensão interna dentro das forças militares estadunidenses. Ressaltemos que o ICE (embora órgão federal que, contudo, contrata empresas privadas para realizar parte de suas funções) é muito semelhante aos grupos ativos de sicários que operam em outros países, como no México. Não espanta também o fato de que, sendo sustentado com o orçamento da população norte-americana, são impulsionadores de sicários terceirizados.
Além do mais, não custa aqui denunciar que os campos de detenção de imigrantes são sustentados por iniciativa privada. Tem gente ligada ao Vale do Silício (como o famigerado neonazi Peter Thiel, com sua Palantir Technologies) criando tal poder paralelo que, de modo psicopata, sequestra até mesmo crianças. Eis a lista, que envolve: GEO Group, CoreCivic, Management & Training Corporation (MTC), LaSalle Corrections, Palantir Technologies, Capgemini Government Solutions, MVM, Inc., Akal Security, GlobalX (Global Crossing Airlines), CSI Aviation, Southwest Key Programs, The Nakamoto Group.
Os serviços são os mais variados. Dentre eles estão: Operação/gestão de centros de detenção (prisões privadas), segurança privada e vigilância armada (guardas, escoltas, staffing), tecnologia e inteligência de dados (rastreamento, bases de dados, analytics), monitoramento eletrônico e “alternativas à detenção” (tornozeleiras, supervisão remota), transporte e logística de detidos (terrestre e aéreo/deportações), serviços médicos e de saúde dentro das instalações, alimentação, lavanderia e serviços gerais (terceirização operacional), telecomunicações e comunicação de detentos (telefonia, vídeo-chamada, tablets), serviços jurídicos e administrativos terceirizados (gestão de processos, contratos), inspeção/auditoria terceirizada de centros (compliance e “fiscalização” privada) e abrigos e “custódia” de menores migrantes (rede de acolhimento contratada).
Cabe enfatizar também que já sabíamos que os sistemas prisionais estadunidenses são sustentados por corporações diversas. Muitas empresas lucram imensamente com tal tipo de controle (IBM por exemplo). Têm seus produtos fabricados por presidiários (trabalho semi-gratuito em cárcere = mais-valia intensificada – centavos por hora, ou poucos dólares por dia). As empresas que dão sustentação a isso são: CoreCivic, Inc., The GEO Group, Inc., Management & Training Corporation (MTC), Corizon Health / YesCare / Tehum Care Services, Wellpath. Alguns desses dados estão na obra de Loïc Wacquant (Prisões da Miséria). Tanto nas prisões quanto nos campos de detenção existe um financiamento corporativista que se bifurca. Não é um mero detalhe.
Os financiadores são os mesmos que impulsionam a ação do ICE, de modo a criar o sequestro de imigrantes, e até mesmo de cidadãos norte-americanos para garantir seus lucros particulares mediante trabalho gratuito (isso ocorreu também nos campos de concentração fabricados pelos nazistas alemães – Conferir a obra de Primo Levi: “É isso o homem?”. Cabe enfatizar que a indústria da deportação dos inadequados converge em gênero, número e grau com os objetivos do sistema prisional estadunidense. Portanto, nem todos trabalham gratuitamente nas fábricas prisionais, conquanto seja vantajoso expulsar (ou manter engaiolados) inocentes do país para transmitir aos apoiadores do fascismo que “a américa está novamente se tornando grande (para os americanos)”.
É sob esse pano de fundo que o ICE é parte de uma experiência miliciana terrorista que, caso amadureça, produzirá formas mais sofisticada de controle populacional em movimento de suporte ao sistema prisional.
Além dessas forças em conflito (Guarda Nacional vs ICE), civis armados de oposição iniciam por fora uma resistência, e cria de antemão uma intensificação do caos. Observa-se a formação do início desse processo, o qual pode ou não criar condições de uma luta de classes em favor dos oprimidos e contra os nazistas contemporâneos. Embora a beligerância das forças de opressão possam sufocar a resistência popular armada, é com ela que podemos contar.
Uma mensagem de esperança de que a batalha não está vencida é a de que, por exemplo, talvez a diferença do passado nazista para os tempos atuais é que a população perseguida está não apenas lutando com suas próprias armas, mas divulgando intensamente as ações fascistas do ICE. O silêncio não é a regra para os dias de hoje.
É plausível o que os analistas estão dizendo, ao afirmarem que Trump intenta insuflar a guerra civil para utilizá-la como justificativa para fechar o regime de modo a não cair. Contudo, tendo em vista as imensas fraturas e disputas internas, não necessariamente a conjuntura acarretará na realização dos objetivos de Trump. Ele está pagando para ver, e aposta nisso. Mas nem toda aposta lançada termina em benefício do jogador que primeiro lança dados (o contra-ataque é certo).
Além disso, é perceptível que estão os EUA estão cada vez mais isolados no cenário internacional. Algo que deve entrar no cálculo. A imprevisibilidade como elemento interno pode apontar em favor dos perseguidos e explorados.
Quanto aos panteras negras atuais, que seja dado um voto de confiança, mas ainda estamos observando como irão se fortalecer e até que ponto são realmente autonômos. Uma dose de ceticismo se faz necessária, apesar da empolgação de momento.
De todo modo, à época do sequestro e assassinato de judeus e comunistas na Alemanha nazista o silêncio era bem maior, e a conivência também (embora muita resistência tenha ocorrido). A comunicação de resistência era muito mais asfixiada no passado do que no presente momento. Evidenciarmos isto é importante: os que não colaboram com o ICE hoje permitem a antevisão de que o silenciamento não é tolerado (assim como as denúncias sobre massacre de Gaza não são escamotedas).
É então por isso que podemos talvez antever uma resistência bem maior no cenário atual. Para concluir, a antevisão de Marx, a qual dizia que os EUA poderiam ser um dos epicentros da luta de classes mundial, é ainda verdadeira para os tempos atuais. Segue abaixo o arremate:
“De vós depende, então, a tarefa gloriosa de provar ao mundo que agora, por fim, as classes operárias estão a pisar a cena da história, não mais como seguidores servis mas como actores independentes, conscientes da sua própria responsabilidade e capazes de impor a paz onde os seus pretensos amos gritam guerra.”
Referência: Karl Marx (redator). Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Mensagem à União Operária Nacional dos Estados Unidos. Londres, 12 maio 1869. Destinatário: National Labor Union (EUA).