O governo burguês de Lula 3 entregou para os patrões a maior taxa de lucro do século 21 (Por Cem Flores)

O ministro da fazenda de Dilma 2 trocando experiências com o ministro da fazenda de Lula 3, em evento de banqueiros, sobre como melhor garantir o lucro dos patrões. Haddad está sendo muito bem-sucedido nessa tarefa!

Cem Flores

 18.02.2026

A taxa da mais-valia é, pois, a expressão exata do grau de exploração

da força de trabalho pelo capital ou do operário pelo capitalista

Karl Marx. O Capital. Vol. 1. Capítulo 7 (A Taxa de Mais-Valia)

  1. O lucro da burguesia é a exploração do proletariado e das demais classes exploradas

O “segredo” da exploração especificamente capitalista da classe operária e das massas trabalhadoras, analisado em profundidade por Marx, é que em uma parte da jornada de trabalho os operários trabalham de graça para o patrão. Isso porque o proletariado produz uma quantidade maior de valor do que a que recebe do burguês como salário. Por isso, como nos demonstra Marx, com o passar do tempo todo o estoque de capital e toda a riqueza capitalista tornam-se, integralmente, produto do trabalho operário não pago, apropriado sem pagamento (ou seja, roubado!) pelo capitalista.

Esse trabalho operário não pago apropriado pelo patrão é a mais-valia. Quando comparamos as duas parcelas em que se divide a jornada de trabalho – a que corresponde à mais-valia (trabalho não pago) com a correspondente ao salário (trabalho pago, ou capital variável) – temos a taxa de mais-valia. Por isso, Marx nos ensina que a taxa de mais-valia é “a expressão exata do grau de exploração” capitalista.

A luta de classes econômica e sindical das classes trabalhadoras contra a burguesia por aumentos salariais e outros benefícios, por redução da jornada de trabalho e de sua intensidade, busca, sempre, aumentar o tempo de trabalho pago e reduzir o tempo de trabalho não pago. Ou seja, reduzir a taxa de mais-valia, a taxa de exploração.

Do ponto de vista do burguês, é preciso comparar essa mais-valia não apenas com o que foi gasto com capital variável (salários), mas com todo o seu gasto de capital, incluindo o capital constante (máquinas e outros fatores usados na produção). Essa comparação da mais-valia com a soma do capital constante e do capital variável é a taxa de lucro.

Quanto maior a taxa de lucro, maior a possibilidade de o patrão aumentar a sua produção e, assim, concentrar mais capital. Quanto maior a sua taxa de lucro, tanto maiores também serão as condições para esse capitalista superar a concorrência dos demais e centralizar o capital. Essa centralização de capital faz com que esses vários burgueses acabem se tornando cada vez menos, e mais ricos!, monopolizando de maneira crescente o capitalTodos os capitalistas, portanto, atuam, sempre, com o mesmo objetivo: aumentar a taxa de lucro.

Um dos aspectos do caráter contraditório do capitalismo é que as mesmas tendências que forçam cada capitalista a buscar taxas de lucro crescentes são as que causam a tendência de queda da taxa de lucro do ponto de vista do conjunto dos capitais. Uma das maneiras mais importantes da burguesia buscar conter, ou contrarrestar, essa tendência de queda da taxa de lucro é o aumento da exploração da classe operária, seja via aumento da jornada de trabalho, seja via maior intensidade do processo de trabalho, ou ainda pela redução dos salários (ou os três juntos!). Como ensina Marx: “a taxa de mais-valia depende em primeira instância do grau de exploração da força de trabalho”.

Em suma, a taxa de lucro e sua tendência são fruto, fundamentalmente, da luta de classes entre proletariado e burguesia. E, como se trata de uma luta entre opostos inconciliáveis, ou se está do lado do proletariado, ou se está do lado da burguesia.

O estado burguês também participa dessa luta de classes pela definição da taxa de lucro, atuando como “um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”. Em primeiro lugar, o estado burguês defende a taxa de lucro dos patrões com uma infinidade de leis, regulamentos e políticas. A “reforma” trabalhista – implementada por Temer, aprofundada por Bolsonaro e consolidada por Lula – amplia jornada e intensidade do trabalho, “formaliza” o trabalho informal e intermitente, retira conquistas históricas, fragiliza os sindicatos. No mesmo sentido vão as demais “reformas” do programa hegemônico da burguesia (previdenciária, elaborada por Temer, aprovada por Bolsonaro e mantida por Lula; tributária de Lula e Haddad; administrativa). As privatizações, recordes sob Lula, ampliam o espaço de acumulação de capital. Os financiamentos subsidiados para os patrões (Plano Safra, BNDES e outros) reduzem os custos do capital, em prol dos lucros. A política econômica burguesa engloba o conjunto dessas medidas em defesa dos lucros, além de regular as taxas de juros (atualmente no valor recorde em duas décadas) e de câmbio e os gastos públicos (submetidos ao teto de gastos de Lula), entre outros. Nossa análise detalhada da política econômica do governo burguês de Lula 3 em defesa dos interesses do capital está publicada em três partes: aquiaqui e aqui.

Em segundo lugar, o estado capitalista também utiliza amplamente seu aparelho repressivo para conter a luta de classes operária, tanto na ditadura capitalista aberta quanto, com forma e intensidade diferentes, na democracia burguesa. Essa é uma experiência diária dos trabalhadores: o poder judiciário criminalizando greves, impondo multas elevadas aos sindicatos ou determinando que quase todos trabalhem durante a greve; as polícias espancando e detendo manifestantes, impedindo protestos etc. O estado burguês também atua na reprodução do sistema capitalista e na busca da maximização da taxa de lucro enquanto aparelho ideológico, com um amplo conjunto de práticas, instituições e ideologias para legitimar a exploração dos trabalhadores pelos patrões.

  1. O PT é um Partido da Ordem capitalista, seus governos são governos burgueses, buscam a maior taxa de lucro dos patrões e, consequentemente, a maior taxa de exploração dos trabalhadores

Documento Base do Cem Flores, aprovado em nosso 2º Encontro de Organização, em 2023, definiu o caráter de classe do PT e de seus governos, e seu papel na gestão do estado capitalista brasileiro:

… PT [como o] ‘partido da ordem’, aliado e executor das políticas do capital financeiro, do capital internacional, da burguesia industrial e comercial, e do agronegócio. Seus papeis fundamentais são a implementação de políticas burguesas para atender às necessidades da acumulação de capital e de elevação das taxas de lucro, e o controle, cooptação e institucionalização dos movimentos das massas dominadas, por meio de centrais e sindicatos pelegos, dos movimentos populares governistas, e de recursos e cargos no aparelho de estado” (pg. 106).

Essa nossa análise tem se comprovado cabalmente pelo desempenho concreto dos governos petistas neste século.

Em setembro de 2022, publicamos o livro “Quem são os nossos inimigos? Quem são os nossos amigos? Essas são questões fundamentais! A conjuntura econômica e política brasileira e a posição comunista”, que reunia e atualizava artigos divulgados anteriormente em nosso site. O capítulo 4 do livro analisa a chapa presidencial Lula-Alckmin à luz da propaganda eleitoral e dos governos anteriores de Lula (e Alckmin). Sobre a evolução da taxa de lucro do capital no Brasil afirmamos:

a taxa de lucro estava em declínio no final do segundo mandato de FHC. Nos governos Lula houve uma reversão dessa tendência, com uma forte retomada das taxas de lucro a partir de 2003 até 2007. Em seguida, uma queda em função da crise internacional (2008 e 2009) e a maior lucratividade recente foi atingida em 2010” (pg. 76).

A conclusão comunista, marxista-leninista, que se impõe a partir da análise concreta dessa nossa realidade concreta, assumindo inteiramente o ponto de vista proletário revolucionário, é que:

Já podemos, então, concluir duas coisas sobre os governos Lula. Em primeiro lugar, não é verdade que todos “ganharam dinheiro” (lucraram) nos seus governos, como se o bolo tivesse sido igualmente repartido. Foram as classes dominantes que encheram os seus bolsos de lucros, atingindo taxas de lucratividade que constituíram recordes na história recente do capitalismo brasileiro. As massas trabalhadoras conseguiram os restos que sobraram da festa do capital. Em segundo lugar, os governos Lula foram governos pró-capital, beneficiando o conjunto dos capitalistas brasileiros, em suas diversas frações, e também o capital internacional, ativamente convidado a investir e lucrar no país” (pg. 77).

Em abril de 2024, fazendo um balanço do primeiro ano da política econômica do governo burguês de Lula 3, a partir dos seus discursos e práticas (programa, medidas apresentadas e aprovadas e seus resultados), afirmamos que sua tarefa principal era:

A tarefa principal da política econômica é auxiliar a burguesia a maximizar as taxas de lucro (exploração). No caso brasileiro atual, concretamente, a tarefa principal da política econômica do governo burguês de Lula-Alckmin é buscar manter a trajetória de recuperação das taxas de lucro após a crise de 2014-16, a pandemia e a ofensiva de classe da burguesia que marcou esse período. Especificamente, buscar manter as elevadas taxas de lucro de 2021, que praticamente se comparam às do auge dos governos petistas de 2004-11”.

Naquela ocasião, tínhamos disponíveis apenas as estimativas da taxa de lucro até 2021 para o conjunto da economia brasileira, calculada buscando aplicar os conceitos da teoria marxista. A recuperação da taxa de lucro após a crise de 2014-16 foi tão acelerada que as informações parciais da época pareciam indicar que ela não se sustentaria. Mesmo naquele cenário, reafirmamos nossa posição sobre a tarefa fundamental de mais esse governo burguês de Lula em relação à taxa de lucro:

Esses resultados – preliminares, parciais e incompletos – parecem indicar taxas de lucro menores em 2022 e 2023 na comparação com 2021 (última informação disponível). O governo burguês de Lula-Alckmin tem muito mais informações do que as que conseguimos recolher, inclusive indo direto às fontes, os patrões. Eles estão bem cientes de sua tarefa de contribuir para a elevação das taxas de lucro/exploração e recebendo as cobranças da burguesia por resultados. Todas as ações de política econômica em 2023 e neste começo de 2024, consolidando a ofensiva burguesa e realizando novos avanços contra a massa trabalhadora, podem ser bem explicadas a partir desta perspectiva”.

Em setembro daquele ano, a Resolução Política do 3º Encontro de Organização do Cem Flores – “Fortalecer nossa Organização Comunista no seio do proletariado e das massas trabalhadoras!” – analisou o papel de consolidação e aprofundamento do programa hegemônico da burguesia nesse terceiro mandato de Lula. Em relação às taxas de lucro do capital investido no país, foi mantida a mesma análise e posição política:

8.3. No entanto, em relação às taxas de lucro, a recuperação pós-recessão (2014-16) foi forte, principalmente nos setores de produção de produtos primários, levando a lucratividade do capital investido no país a taxas próximas aos valores recordes desse século, nos governos anteriores do PT. A explicação para esse aparente paradoxo de economia e produtividade estagnadas com taxas de lucro crescentes é o aumento da exploração da força de trabalho pelo capital. Daí que a tarefa fundamental do governo burguês de Lula-Alckmin seja manter ou elevar esses níveis de taxas de lucro, mediante o aumento da exploração das classes trabalhadoras e a consolidação/avanço no programa hegemônico da ofensiva de classe da burguesia.

9.1. O governo Lula-Alckmin é um governo burguês, a serviço dos patrões, com as tarefas de consolidar as ofensivas anteriores do programa hegemônico da burguesia, realizar novos avanços nesse programa e manter os níveis das taxas de lucro (e de exploração) alcançados nos últimos anos e, se possível, aumentar ainda mais os lucros.

Em dezembro do ano passado divulgamos a Declaração Política do nosso 4º Encontro de Organização – “Os Comunistas não devem escolher qual inimigo de classe apoiar. Devem se organizar no seio do Proletariado e das Massas Trabalhadoras para combater o imperialismo, a burguesia e seus aliados oportunistas!” – que também aborda a taxa de lucro do país em sua análise de conjuntura. A diferença principal é que já havia sido divulgada a estimativa marxista da taxa de lucro para o primeiro ano do governo burguês de Lula 3 – e o comportamento da taxa de lucro não apenas confirmou nossas análises, como até mesmo superou as nossas perspectivas. A taxa de lucro do capital no Brasil em 2023 foi a maior do século!

20. … O resultado dessa contínua implementação do programa hegemônico da burguesia não poderia ser outro: sob o atual governo, o país registrou, em 2023, a maior taxa de lucro do século 21. Eis o objetivo, plenamente atingido, desse governo burguês!”.

29. O cenário para 2026 aponta para a candidatura de Lula à reeleição, com favoritismo diante das candidaturas da extrema-direita e da direita. … Com isso, e como já indicaram membros da equipe econômica, um governo Lula 4 aponta ainda mais para a direita, com mais “reformas” e arrocho para cumprir as exigências de lucro da burguesia. …”.

  1. A taxa de lucro da burguesia (e de exploração dos trabalhadores) no Brasil em 2023 foi a maior do século 21!

O sistema financeiro nunca ganhou tanto dinheiro

como ganha no nosso governo

último escárnio de Lula, em 09.02.2026, repetindo suas famosas frases subservientes de setembro de 2006 e fevereiro de 2022

Como amplamente exposto acima em relação à taxa de lucro, o Cem Flores nunca se iludiu com o caráter de classe burguês nem de Lula e do PT nem de seus governos. Consequente com essa avaliação teórica, ideológica e política marxista-leninista, comunista, sempre afirmamos que os governos burgueses de Lula e do PT se pretendiam os melhores gestores do capital no Brasil. Concretamente, isso significa:

i. Reforçar a dominação da classe capitalista do país, em seus aspectos político, econômico, ideológico e repressivo;

ii. Frear, conter, institucionalizar/cooptar e instrumentalizar as lutas das classes trabalhadoras para o estreito legalismo burguês e os interesses eleitoreiros do PT e de seus governos, através da hegemonia petista das direções pelegas e oportunistas no sindicalismo e nos movimentos sociais;

iii. Reforçar o caráter dominado da formação econômico-social brasileira na divisão internacional do trabalho do sistema imperialista mundial, aprofundando a reprimarização e a desindustrialização, constitutivos da regressão a uma situação colonial de novo tipo;

iv. Consolidar e aprofundar o programa hegemônico da burguesia, com a elevada taxa de juros e o arrocho fiscal, as “reformas”, as privatizações etc.; e

v. Utilizar a política econômica e todos os demais instrumentos de intervenção do estado capitalista para buscar não apenas contrarrestar a tendência de queda da taxa de lucro, mas fazê-la crescer ao máximo.

*          *          *

Os dados empíricos disponíveis, transformados para se aproximar ao máximo dos conceitos da teoria marxista, mostram que o governo burguês de Lula 3 foi extremamente bem-sucedido nessa tarefa que lhe foi delegada pelo capital. Já no seu primeiro ano, deu sequência à recuperação da taxa de lucro do país, trajetória em curso desde o final da crise de 2014-16 e superou até mesmo os recordes dos governos petistas anteriores. Em 2023, a taxa de lucros foi a maior já registrada neste século!

No artigo disponível aqui, do qual foram extraídos os gráficos deste texto, Adalmir Marquetti e coautores atualizaram o cálculo da taxa de lucro da economia brasileira até 2023 (última informação disponível, até onde sabemos).

É possível acompanhar, de forma geral, a trajetória da economia brasileira a partir da evolução da taxa geral de lucro do conjunto dos capitais investidos no país. Seu primeiro momento foram os dois primeiros governos burgueses de Lula (2003-10). A taxa de lucro dos patrões (e de exploração dos trabalhadores) estava em crescimento, atingindo o recorde pré-pandemia em 2007. Esse período foi momentaneamente interrompido em 2008-09, dois anos de queda da taxa de lucro em função da crise internacional do capital e seus efeitos no pais. Na sequência, houve retomada da taxa de lucro em 2010-11. Ou seja, os dois primeiros governos burgueses de Lula conseguiram não apenas um recorde (2007) como, além disso, manter a taxa de lucro ao redor desse nível recorde nos demais anos de 2008, 2010 e 2011.

segundo momento ocorreu nos governos burgueses de Dilma (2011-16). Conforme estabelece a teoria marxista, a queda da taxa de lucro precede as crises do capital – e foi exatamente o que aconteceu no Brasil. A taxa de lucro sofreu uma queda significativa em 2012 e continuou a recuar, mais moderadamente, em 2013-14. Com a crise aberta, a taxa de lucro despencou em 2015, para o pior resultado do século (até agora).

terceiro momento foi a retomada da taxa de lucro, que passou pelos governos burgueses de Temer e Bolsonaro, e se manteve no primeiro ano do governo burguês de Lula (2016-23). Já em 2016, possivelmente sob efeito da política econômica burguesa de Dilma-Bradesco do ano anterior, e que se radicalizou nos anos seguintes, a taxa de lucro iniciou trajetória ascendente que permaneceu até 2023 – apenas com uma breve interrupção em 2020, ano inicial da pandemia de Covid-19. Esse período foi caracterizado por uma forte ofensiva de classe burguesa contra o proletariado e as demais classes exploradas, que no campo econômico se caracterizou pela radicalização da implementação do seu programa hegemônicoOs efeitos cumulativos dessa aplicação, consolidada e aprofundada no governo burguês de Lula 3, estão dentre os fatores explicativos do recorde histórico da taxa de lucro de 2023.

No seu artigo, Marquetti e seus coautores caracterizam o período de elevação da taxa de lucro (2016-23) como determinado, principalmente, pelo aumento da participação dos lucros (“profit share”) na economia, em detrimento dos salários. Essa trajetória de crescimento de 2016 em diante, atingindo o máximo histórico deste século em 2022 e consolidando o nível recorde de 2021-23 pode ser vista no gráfico abaixo.

Em 2023, com uma variação de -0,5%, a participação de lucros se manteve nesse novo nível recorde atingido em 2021-22, consolidando a trajetória que vem do pós-crise de 2014-16 e é determinada pela ofensiva de classe burguesa, além do aprofundamento da regressão e da posição dominada do país na divisão internacional do trabalho do sistema imperialista mundial.

Também em relação à utilização de capacidade instalada (-0,6% em 2023) houve trajetória similar, consolidando patamar elevado para a série histórica (2021-23), com o máximo do período atingido em 2022. Em 2023 se destacou o crescimento da produtividade potencial do capital (8%), estimulada pela melhora dos termos de troca, ou seja, do valor dos produtos exportados pelo país em comparação com os importados, fruto da alta dos preços de commodities no mercado internacional.

*          *          *

Os beneficiados dessa taxa de lucro recorde são: o agronegócio, com recorde na produção de grãos e na pecuária, não por acaso os principais setores do desmatamento e da emissão de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento no Brasil; a indústria extrativa mineral, também batendo recordes na produção de petróleo e de minério de ferro, e causando desastres ambientais seguidos, como os de Brumadinho e Mariana, e o recente vazamento na perfuração de petróleo na foz do Amazonas; e os setores exportadores, liderados exatamente pelo agronegócio e pela extrativa mineral, alternando entre petróleo e soja na liderança das exportações do país, que têm batido recordes seguidos nos últimos anos.

Também compartilham o butim dessa taxa de lucro recorde o capital financeiro, com seu R$ 1 trilhão de juros sobre a dívida pública recebidos no ano passado do tesouro nacional e os lucros recordes dos grandes bancos; os capitais estrangeiros, com seu estoque de investimentos diretos de quase a metade do PIB, sua ampla participação nas privatizações, no agronegócio, na indústria e no comércio, seus mais de R$ 400 bilhões de lucros apenas no ano passado e sua forte participação na bolsa de valores; o capital mercantil cada vez mais monopolizado e internacionalizado; e mesmo o capital industrial, não obstante sua estagnação.

Por outro lado, essa taxa de lucro recorde foi apropriada/roubada do trabalho assalariado explorado, no campo e na cidade. Do proletário rural dos grandes latifúndios da monocultura de exportação; do operariado da Petrobras, grevando em luta contra a empresa, e da Vale; dos portuários enchendo navios estrangeiros com as commodities de exportação; dos bancários que veem suas conquistas e suas condições de trabalho se deteriorarem; dos trabalhadores super explorados na jornada 6×1 do comércio – que encheram as ruas no final de 2024 e começo de 2025 contra suas jornadas absurdas; das metalúrgicas, dos operários da construção civil, do transporte urbano, e diversas outras categorias que se levantaram contra seus patrõesEssa sua coragem e disposição de luta, sua organização coletiva e seus instrumentos próprios e independentes serão ainda mais necessários diante do cenário de aprofundamento da ofensiva burguesa que se anuncia para o futuro próximo.

*          *          *

Se a ofensiva burguesa no Brasil se mostrou bem-sucedida até aqui, sua sustentabilidade – capacidade de manter/elevar a taxa de lucro – ainda é uma questão em aberto. Considerando os elementos da taxa de lucro expostos no artigo de Marquetti e coautores, a parcela dos lucros deve ter se reduzido a partir de 2024, enquanto a utilização da capacidade instalada aumentou, o que indica efeitos opostos sobre a lucratividade, sem que tenhamos elementos para avaliar qual prevaleceu. Não dispomos de informação sobre a trajetória da produtividade potencial do capital.

Utilizando metodologia inteiramente distinta, o recém-lançado Anuário Estatístico do Ilaese de 2025/26 aponta crescimento da taxa de lucro no Brasil em 2024. O Ilaese calcula a taxa de lucro operacional a partir de balanços contábeis de uma amostra de mais de 500 empresas, dividindo o lucro operacional pela receita líquida. Por essa metodologia, a taxa de lucro do país cresceu significativamente em 2024 (+20,6%). No entanto, esse cálculo não apenas não é metodologicamente comparável como apresenta série histórica distinta, quando comparado à da taxa de lucro estimada por Marquetti e coautores. Portanto, essa indicação de aumento da taxa de lucro em 2024 deve ser considerada como um dado preliminar, a ser posteriormente confirmado.

Por um lado, essa limitação de evidências empíricas torna difícil avaliar a trajetória de curto prazo da taxa de lucro da economia brasileira (2024-26). Por outro, essa própria “incerteza” já se traduz em medidas de política econômica. O governo burguês de Lula já agiu para conter o ritmo de elevação dos salários, modificando a regra de reajuste do salário-mínimo sob o argumento de priorizar o cumprimento do Teto de Gastos de Lula, além disso, ao manter a maior taxa de juros real do mundo, desacelera a economia e a geração de empregos, também visando conter os aumentos salariais.

Outros fatores também influenciam essa tendência, inclusive externos. As contradições interimperialistas se agravam, com os ataques do imperialismo dos EUA podendo afetar significativamente o comércio e os investimentos mundiais, tanto pelo aumento e pela maior volatilidade das tarifas, pelos seus impactos potenciais na inflação e nas taxas de juros dos EUA e, assim, no restante do mundo, como pela perspectiva crescente do estouro de uma bolha especulativa nos mercados financeiros dos EUA e uma consequente nova crise financeira mundial.

Internamente, a continuidade da ofensiva burguesa passa pelo reforço da inserção dominada do país na divisão internacional do trabalho do sistema imperialista mundial, que tende a ser agravada pelo acordo com a União Europeia. Esse é igualmente o resultado do reforço das relações econômicas e financeiras do Brasil com a China, ao longo deste século, e da possível negociação do governo burguês de Lula com o imperialismo dos EUA sobre exportações de terras raras, benefícios à instalação de data centers e o reforço do domínio das Big Techs no país.

O programa do novo governo, a partir de 2027, qualquer que seja o vencedor das eleições deste ano, também já está sendo elaborado a partir das demandas de manter/elevar a taxa de lucro. Novas medidas do programa hegemônico da burguesia se anunciam, como mais uma rodada de “reforma” da previdência, uma “reforma” administrativa, um arrocho fiscal ainda mais duro do que o atual Teto de Gastos, mais privatizações e apertos nos gastos sociais, desaceleração dos aumentos salariais etc.

Diante dessa realidade concreta do capitalismo brasileiro, a única verdadeira opção disponível para a classe operária, as massas exploradas e os comunistas, é a de redobrar as apostas na organização dos trabalhadores por si mesmos, independentes dos patrões e dos pelegos. A partir dessa organização, do espírito de luta, e da defesa dos nossos interesses de classe, resistir à ofensiva dos patrões e dos seus governos. E nessa luta diária, nas periferias e nas fábricas, nas fazendas e nos campos, ir construindo a alternativa de uma república de trabalhadores sem patrões e levantando cada vez mais alto a bandeira vermelha da Revolução Socialista!

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.