
É difícil imaginar você não estando entre nós. Você sabe que sua existência é um evento extraordinário, daqueles da cauda do fim da cauda das distribuições de probabilidade sobre as quais você tanto se debruçou: um evento extremo do bem!
Queria dizer como sempre me espantou, especialmente nas batalhas dos últimos anos e, mais ainda, dos últimos dias, o modo como você desafiou as probabilidades, sendo delas o filho rebelde. Como o inconformismo do Sísifo de Camus, essa rebeldia parecia não ter sentido, já que render-se ao potencial gravitacional e deixar a pedra descer seria o mais óbvio. Mas dentre os muitos ensinamentos que você deixa, um deles é o de que a inteligência não rima com sujeição e derrotismo e que ao se juntar com um certo sentimento, não é uma colina, por mais íngreme que seja, que intimide alguém como você. Sim, esse sentimento é amor, meu querido “Assísifo”, amante da vida, do conhecimento, das pessoas, da natureza. Amor entregue, dia após dia, “como se não houvesse amanhã”.
Tenho por você enorme carinho, admiração e amor do tipo que eu teria pelo meu irmão mais velho que a biologia não deu, mas com que o acaso me presenteou. Devo muitas, amigo-irmão… Acho que nunca tive a oportunidade de te dizer como sempre amei nossas conversas e como eu queria que elas fossem mais frequentes. Como a água na atmosfera e a água na superfície, sempre me pareceu que nos complementamos e nos retroalimentamos. Eu, com meu silêncio intercalado com momentos tempestuosos de ideias trovejantes e você, bem mais constante, coletando e escoando o caos para um sentido em forma de leito, no chão e com direção.
Já cheguei a escrever que sua partida deixava um vazio, mas cheguei à conclusão de que isso está longe de ser verdade. Você sempre foi açude cheio, lago transbordante de brilhantismo e generosidade, então não ficamos vazios, pelo contrário. Estamos e estaremos sempre repletos do seu encanto. É difícil imaginar você não estando entre nós. Porque simplesmente é impossível você entre nós não estar, invencível que é na sua permanência em tudo que você generosamente nos doou.
Acho que falo não apenas por mim, mas por todo mundo que comigo chora esse momento, ao assumir com você o compromisso de zelar pelo gigantismo do seu legado, até que nos reencontremos… como “gota d’água, grão de areia”, poeira de estrelas.

