Tive um pai que..

Leonardo Lima

Tive um pai que, quando contra ele me rebelava, sempre dizia: “eu devia ter deixado você ir para o exército. Lá você tomaria jeito de homem disciplinado para honrar o meu nome.”
Caso ainda estivesse vivo, repetiria: “eu devia ter deixado você ir para o exército. Lá você tomaria jeito de homem disciplinado para honrar o meu nome.”
Como é perceptível, não se tratava em seu discurso inamovível de qualquer exército, mas do exército nos moldes de uma ambiguidade entre profanação bolsonarista/helenista e poder ultrarreligioso (baixo clero) enquanto mediador do porrete divino sob a batuta do antigo testamento. O pano de fundo do fascismo com características brasileiras, somadas ao neoliberalismo punitivo mais brutal como aporte das injunções do capitalismo em crise.
Pois bem, resta com isso apenas arrematar que a fala semi-transhistórica de meu falecido pai é apenas o sintoma individual de alguns dos elementos acerca daquilo que permanece da ditadura, e como ela é ressignificada com pequenas rupturas culturais em inúmeros setores que demarcam o espírito da consciência brasileira, de espessura cínica, cujos princípios são voláteis embora rígidos na sua retroalimentação.
Fechar os olhos para o que está acima expresso será sempre um ato absolutamente cínico. O que está acima expresso permanece pulsando no bojo da sociedade brasileira, independente da figura individual acima relatada. De todo modo, persisto na ideia de que não é estritamente por meio das características acima expressas que o fascismo com características brasileiras foi hodiernamente parido.
É preciso fazer um estudo aprofundado de diversas esferas culturais e hegemonias ideológicas nacionais, que permitam a realização do inventário do espírito plural de um tempo cultural cuja espessura está encarnada em diversas expressões.
No limite, ironicamente poderemos nos deparar com modos de conduta muito inusitados, inclusive através de enunciações que são pautadas pela indústria cultural ocidental, a qual pariu diversos modos de identitarismo ultrarreacionários em paralelo com a circulação das mercadorias, e enquanto forma de cimentação de um tempo que podemos demarcar de “presentista” (como Hartog nos dizia). Um tempo presentista, pulverizado em si mesmo, a ser rebocado pelas pressões de uma crise econômico política e sanitária na qual, para além da burguesia e da aristocracia brasileira, a fascitização social foi transformada na moeda de troca dos modos de interação entre os agentes sociais.
É a dissolução interna do país que segue como horizonte, sem nenhuma transcendência possível, que possa reverter a roda da história. O que demarca o fato de que o neofascismo tupiniquim como expressão cultural é a própria expressão suicidária de uma tanatopolítica, que, mediante a catástrofe interna, abre terreno para processos externos cuja geopolítica pode ser anunciada como um jogo de pulsões internacionais que miram o domínio de um país que se tornou refém de sua própria desgraça.
O grande Vazio será imperioso, com possibilidades reais de ocupações estrangeiras para aceleração do sequestro de nossas riquezas por assentamento territorial aparentemente provisório, embora fazendo circular na superfície da comunicação de massas que os fins são estritamente humanitários.
Essa será a consequência do neofascismo tupiniquim, que surge como paroxismo da possibilidade de vermos atualmente o Brasil sendo qualificado como grande ameaça sanitária mundial, sob a perspectiva de forças militares estrangeiras destinadas à ocupação interna. No mais, segue uma nova etapa de colonização interna visando mais uma vez a balcanização tropical.
Ao fim e ao cabo, o que deve ser visto, portanto, não é a oposição entre fatores internos e externos ao país, mas as relações de alinhamento, continuidade e de desdobramentos de uns nos outros. Nesse sentido, a aceleração das mortes em massa através do caos implantado por um vírus instrumentalizado e o avanço dos militares e apaniguados serão complementados pela geopolítica das intervenções internacionais. É esse o segredo da coisa toda. Trata-se mais de continuidade do que de ruptura.

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