CARTAZES DO EUGENISMO NAZISTA: OS INSTRUMENTOS QUE FORTALECERAM A IDEOLOGIA (1934-1944)

Arthur Guilherme Aragues Serra Almeida1

RESUMO:
Este artigo tem como objetivo estudar cartazes da propaganda da Alemanha Nazista, no Terceiro Reich, de 1934 à 1944. Pretende-se realizar uma breve discussão na busca de compreender os sujeitos nas propagandas, que buscavam dar uma elevação ao cidadão alemão e uma diminuição aos não alemães, como judeus e comunistas.
As fontes que carregam informações que sustentam a presente pesquisa são cartazes e imagens. Para realizar a análise de tais fontes nos apoiamos em CERRI (2005) que traz a propaganda, a imagem como fonte e publicações que tratam do tema, como RÜDIGER (2014).

Palavras-chave: Cartazes, Propaganda, Alemanha Nazista, Terceiro Reich, Judeus, Comunistas.

INTRODUÇÃO
Este artigo visa analisar a propaganda nazista, seus sujeitos, o plano de imagem em que cada um está inserido, para com isso compreender como o nazismo retratava “os seus” e os inimigos, e como projetava a Alemanha sob a nova ordem com a liderança de Adolf Hitler2.
No ano de 1933, Adolf Hitler torna-se chanceler da Alemanha, e após a morte do presidente no mesmo ano é aclamado para o cargo, e passa a ser o único comandante das Forças Armadas Alemãs. Tem consigo todo o poder político do país. A propagação do nazismo ficou a cargo de Joseph Gobbels, que será tratado posteriormente.
As propostas de Hitler aos alemães eram a purificação do povo alemão, e isso ocorreria com a perseguição e extermínio aos judeus que viviam no país. Sob essa ideia nasceram os campos de concentração da Alemanha Nazista. Os judeus capturados eram levados aos campos de concentração, trabalhavam e eram assassinados. A propaganda foi bem executada, pois adultos e crianças passaram a repudiar os judeus.
Com o apoio dos alemães e sob a bandeira do nacional-socialismo, Hitler descumpriu o Tratado de Versalhes, reabrindo a indústria armamentista do país. Ainda sob aspectos econômicos, erradicou o desemprego, deu fim à hiperinflação, e fez crescer a produção interna.
Por conta da sua expansão sob a Polônia, em 1939 a Alemanha entra na Segunda Guerra Mundial. Faz forte propaganda convocando os alemães a guerra, propaganda contra os aliados e os judeus, entre outras. A Alemanha e o nazismo saem fracos e derrotados da guerra, mais uma vez.
Sobre a temática do nazismo há muitas pesquisas, inclusive alguns balanços historiográficos já foram produzidos, como (MAZOWER, 2013). Há também trabalhos historiográficos sobre a propaganda nazista, como (DIEHL, 1998; LIEBEL, 2006; BERTÃO, 2010; HERF, 2014; RÜDIGER, 2014).
A documentação analisada é composta por cartazes do Terceiro Reich, presentes em diversos sites sobre o tema, um deles é o Pinerest-Brasil, um banco de dados com imagens de temas variados. As fontes analisadas demonstram uma riqueza de informações.
A propaganda, conforme CERRI (2005) é de primeira importância enquanto fonte histórica, pois traz inserido através da imagem e da linguagem sonhos, desejos, expectativas individuais ou de um grupo que as propagandas se dirigem. É também uma ferramenta para o estudo do imaginário, mas não entraremos nessa área. Uma perspectiva da propaganda enquanto fonte é buscar reflexões sobre o tempo presente. É possível realizar um diálogo sobre o sujeito da peça publicitaria a partir do que se deseja atingir.

UMA CONSTRUÇÃO: A IMAGEM NA PROPAGANDA NAZISTA
Conforme aponta a historiografia, a propaganda foi um fator fundamental para a consolidação da ideologia nazista, ideias de um governo que buscou pela propaganda a aceitação pela população como uma identidade.
Os caminhos da propaganda nazista eram o cinema, os cartazes, a pintura, livros, o rádio. Para atingir as crianças a propaganda era disseminada através do material escolar, conforme FERRO (1995). A propaganda nazista contou com o apoio e colaboração de cineastas, escultores, pintores, por exemplo. Essa articulação foi unir o entretenimento a uma formação orientada. A questão nacionalista sempre se fez presente.
Boa parte dos cartazes nazistas são de cores vibrantes, com o objetivo de chamar a atenção daqueles que observassem, com uma linguagem clara, objetiva e simples, conforme PEREIRA e STANCIK (2017).
O maior objetivo de Hitler era fazer da Alemanha uma grande nação de raça pura, um forte Estado Alemão, a qualquer custo. Para isso uma das metas era limpar o Leste Europeu. MAZOWER (2013) trata desta questão. Os alemães eram um número baixo comparados as nações que queriam dominar. Com a dominação da Polônia, por exemplo, Hitler desejava fazer com que aquelas terras voltassem a ser alemãs, conforme o título do primeiro capitulo de MAZOWER (2013), “Faça essa terra ser alemã de novo para mim”, mas isso seria difícil, muito mais do que se imaginava a princípio. Retomar terras para os nazistas era dar uma guinada, um giro, reverter todo o processo que passaram na Primeira Guerra Mundial, que para eles foi uma humilhação. A motivação era por um passado histórico medieval de sucessos, e também a questão racial, um racismo biológico.
Um exemplo da aplicação racista era, por exemplo, a escolha de pessoas que iam aos campos de concentração (chamados também de campos de trabalho) ou iam as colônias de assentamento. Isso dependia da opinião de especialistas raciais alemães. Alguns destes cientistas acreditavam em uma hierarquia racial.
MAZOWER (2013) traz as características dos judeus, por antropólogos racistas.

[…] o balanço do andar, o gosto pelo alho, as neuroses, sua fala intelectualizada e tagarela e a tendência ao crime do colarinho-branco (MAZOWER, p. 233, 2013).

Essas características foram dadas por antropólogos de cunho nazista. Havia uma política de classificação e segregação.
A SS3 fez a desapropriação de muitas terras conquistadas, com intuito de fazer daquelas terras alemãs de fato, como uma colônia, levando para esses locais cidadãos alemães comprometidos com o Reich, para cuidar das terras e fazer com que elas tivessem prosperidade. Isso compunha um Plano de Assentamento do Reich. Um dos muitos exemplos foram os tchecos, que tiveram suas terras tomadas, passadas aos cuidados dos alemães. Porém, muitos tchecos mantinham as fabricas do Reich funcionando, pois eles eram importantes, eram mão-de-obra. “Os seres humanos são o capital do império […] (MAZOWER, p. 236, 2013). E de fato foi isto, pois os nazistas tiveram uma grande dependência das pessoas, sejam alemãs ou de outras nacionalidades, para concretizar seus objetivos.
Com a dominação da Polônia, sua germanização⁴ era uma prioridade, isso era feito com a eliminação de características polonesas, como a língua, por exemplo. Os alemães no território polonês estavam em menor número em relação aos poloneses. Por conta dos poucos alemães para ocupar a nacionalidade alemã foi flexível, conforme MAZOWER (2013). Havia quatro categorias para uma pessoa ser considerada um cidadão alemão, são elas: um polonês ligado a sindicatos alemães; pessoas com ascendência alemã; alemães em casamentos com outras raças e os filhos gerados; os que eram hostis a Alemanha mesmo tendo características alemãs. Isso mostra que buscavam pessoas para ocupar as terras, e não da forma totalmente alemã, tanto que há as “brechas” citadas. A questão da necessidade era tão escancarada que houve um decreto que permitiu que cidadãos poloneses fossem transformados em alemães, por peso da lei. Houve também um regulamento que deu ares de legalidade a mudança de nomes e sobrenomes, de não alemães para alemães. Isso pode ser classificado como estética nazista. Defendiam a pureza, mas tinham consciência das dificuldades. Eram poucos alemães de etnia, e outros não buscavam se declarar como tal.
Com o domínio do Leste Europeu, realizaram uma grande deportação, com o intuito de limpar a terra, de higienismo, para fazê-la alemã. A conquista de novas terras levou a mudanças de fronteiras e mais indústrias a serviço do reich.
Na Ucrânia a propaganda nazista foi adaptada para o respectivo idioma com o dever de dar forças para que os alemães étnicos se alistassem na polícia, auxiliando assim o braço repressivo nazista.

A PROPAGANDA NOS MOLDES DO TOTALITARISMO
Os socialistas do início do século XX trabalhavam no sentido de dar uma formação ideológica, mas não formavam militantes. Esse papel foi dado aos regimes totalitários que nasceram no século XX, segundo RÜDIGER (2014).
Os partidos extremistas tinham uma pauta cívica, posteriormente abraçaram um perfil militar. Com isso a propaganda foi compreendida em questões de organização e psicológica para alcançarem objetivos estratégicos, ganhar o poder e ser uma força considerável.
Somou-se a formação ideológica o treinamento de militância. Com isso se passou de uma aglutinação racional de massas críticas para uma aglutinação de massas irracionais, mecânicas, com o amparo de cartazes, símbolos, uniformes, por exemplo.
Os grupos que são melhores exemplos para essas questões são os comunistas da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os alemães do Terceiro Reich. Para esses grupos a propaganda foi uma ferramenta que compôs parte de uma ação que se iniciou dentro dos respectivos partidos, vai à mobilização popular e chega ao poder do Estado.
Como já foi dito, havia diversos meios de comunicação, e todos eram válidos. O Partido Nazista, o nacional-socialismo mostra que a chave para se controlar a comunicação de um país é ter total controle sobre o Estado.
Com tudo o que foi apontado até aqui se faz notório que havia grupos totalitários que chegaram ao poder tanto de direita como de esquerda. O comunismo e o nazismo não tinham na propagando uma questão ideológica pura, era também organizacional, estratégico, para mostrar força a partir da base, do povo que transformam em pilares de sustentação.
Para Lenin, os jornais, a opinião pública estava a serviço da burguesia, e não dos trabalhadores, da massa, aponta RÜDIGER (2014). O Terceiro Reich buscou acabar com a opinião pública divergente ao seu modo de pensar.
A propaganda tem como objetivo explorar forças, ou seja, ao invés de desconsiderar as pessoas as consideram como um apoio, um suporte as suas ideias e governo. É transformar uma sociedade inicialmente indiferente em uma sociedade de ação, pronta para a guerra.
Goobbels, que será retratado a diante, aponta que a propaganda com uma boa linguagem tinha por objetivo mobilizar as massas, penetra-las.
O fato, porém, é que as massas não têm como serem pura e simplesmente controladas, nem se limitam a agir de acordo com a racionalidade econômica: elas são a base ou fonte de poder da liderança(cf. ARENDT, [1951] 1974, p. 399, apured RÜDIGER, p. 7, 2014).

Com o trecho acima podemos compreender que essa ideia de as massas servirem de base, de sustentação aos regimes totalitários é aplicável ao nazismo, pois foi exatamente o que aconteceu por meio do controle das mídias pelo modelo de propaganda estatal, que por essa via atingiu os cidadãos alemães a aderirem ao nazismo.
A sociedade pode ser influenciada pela mídia, pelas artes nas propagandas, mas o que causa um maior efeito neste sentido são as massas estarem juntas, unificadas, em um engajamento organizado ouvindo figuras que reconheçam como líderes. É uma influência direta, sem intermediários e no calor do momento.
A propaganda para compor um regime totalitário não pode ser de momento, passageira, deve ser constante, segundo RÜDIGER (2014). Devem atingir o que deseja o partido, o seu projeto. O principal objetivo da propaganda não está no que se refere a ideologia ou símbolos, mas sim na ação objetiva, no caso de o nazismo trazer apoiadores para o Terceiro Reich e seus planos.

A PROPAGANDA NO TERCEIRO REICH
Com a ascensão do nazismo era necessário adentrar as mentes da sociedade alemã, os cativando pelo discurso de “Alemanha acima de tudo.”5
O órgão governamental que foi encarregado pela propagando no Terceiro Reich foi o Ministério da Propagada, criado em 1933 pelo antecessor de Hitler, o presidente Paul von Hindeburg, e tendo como ministro Joseph Goebbels, um dos homens do governo mais próximos do führer.
A carreira política de Joseph Goebbels foi dentro do Partido Nazista. Em 1928 foi eleito para o parlamento, e no mesmo ano assumiu o cargo de diretor de propagando do partido, segundo PRIVIDELLI (2020). No ano de 1933, Hitler ascende ao poder na Alemanha, e torna Joseph Goebbels ministro da propaganda. Ele foi o responsável por levar a imagem de Hitler, o füher, como uma espécie de “pai dos pobres” e defensor de uma Alemanha para os alemães.
Goebbels acabou com a imprensa livre na Alemanha. Sob o guarda-chuva de seu ministério estavam a mídia e a arte, em síntese. O seu ministério comandava a informação, revistas, livros, jornais, teatros, o cinema, as rádios, a arte de uma forma geral.
Ele deveria apresentar para a sociedade alemã Hitler e o Partido Nazista como a solução para os problemas do país e ao mesmo tempo difundir a ideia de que o povo judeu era o povo a ser aniquilado, assim como outros que não eram da “raça pura”, que não eram alemães.
Podemos considerar Joseph Goebbels como o líder publicitário do regime. Ele teve um papel decisivo, disseminou as ideias defendidas por Hitler e os criadores do Partido Nazista para os meios de comunicação, para a massa, inclusive o antissemitismo usado na barbárie da qual fez parte, o holocausto, o extermínio de milhões de judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O objetivo foi dar sustentação ao nazismo e ao nacionalismo exacerbado, e espalhar suas ideias pelo mundo.
No mesmo ano de sua posse como ministro teve mais um cargo, de diretor da Câmara de Cultura do Reich, que tinha por objetivo o controle das artes, segundo PRIVIDELLI (2020). Uma das perspectivas que adotou na direção da Câmara foi a demissão de artistas judeus, sendo estes músicos, atores e escritores, por exemplo, que eram considerados subversivos. Esses tipos de atores sociais não podiam produzir sem a autorização do Governo.
Uma questão de grande relevância histórica foi o episódio em que Goebbels ordenou a queima de livros “não alemães.” Livros de muitos autores que não eram nazistas foram queimados. A tragédia ocorreu na Ópera de Berlim. Esse ato é o pico da perseguição nazista a intelectuais, tem grande simbologia. Atualmente há um memorial em Berlim, para recordar esse dia, para conscientizar a população. Em um regime autoritário não pode haver adversários, se houver são vistos como inimigos.
Com as questões explanadas neste ponto do artigo observa-se que se fazia uma nítida censura dos nazistas contra todos aqueles que não correspondiam as suas expectativas ideológicas, ou seja, que não fossem nazistas, e sim de outros espectros de pensamento. Era como abafar diversas vozes e fazer ecoar uma única voz, a voz dos arianos, da raça pura.
A propaganda nazista, independente do meio de comunicação, enaltecia Hitler como um salvador da pátria, destacava os feitos do Terceiro Reich, e sempre colocava os arianos como sendo a raça pura, superior as outras etnias, e ao mesmo tempo demonizavam os judeus, os colocando como responsáveis por tudo de mal que ocorria na Alemanha, em aspectos socioeconômicos.
Com a Segunda Guerra Mundial, Goebbels tinha mais uma missão, através dos filmes convocar cidadãos alemães para a guerra contra os inimigos. Foram produzidos diversos filmes sob a ótica nazista⁶. Foi uma forte produção.
Ao fim da guerra a Alemanha tinha baixas, estava a cada dia perdendo mais. Em 1945, já com o Exército Vermelho dentro da Alemanha, Goebbels seguiu o exemplo de seu führer, e cometeu suicídio junto a sua esposa, após matar seus seis filhos, conforme PRIVIDELLI (2020).

OS CARTAZES NAZISTAS
Na análise de fontes serão examinados quatro tipos de cartazes da propaganda nazista, com conteúdos centrais distintos. É notório que os cartazes estavam voltados para públicos específicos, estudantes, mulheres, trabalhadores rurais e urbanos, conforme PEREIRA e STANCIK (2017). Havia também cartazes desqualificando o inimigo, no caso o judeu. Cartazes que exaltavam, destacavam Hitler como a maior de todas as lideranças. Os cartazes buscavam uma comunicação fácil, simples com a população. Há símbolos, sentimentos, valores, e o principal, identidade.
Conforme o site onde está a fonte, o cartaz é de 1934, após a fusão dos cargos de presidente e chanceler, contidos na figura de Hitler como único líder da Alemanha.
A imagem mostra Hitler em primeiro plano, talvez em cima de um palanque com a feição seria, com suas vestimentas nazistas e sua condecoração da Primeira Guerra Mundial. Ao fundo seus apoiadores com o braço direito estendidos. O cartaz quer mostrar que a sociedade apoia Hitler como líder maior da Alemanha. A população atrás de Hitler, dando a impressão que seus olhares iam de encontro ao chefe do Governo, com admiração e identidade. Com Hitler, um nazista acima da sociedade dá a impressão de que os nazistas são superiores aos demais.
A Alemanha enfrentava uma crise de aspectos sociais e econômicos. Precisavam de um salvador, e Hitler incarnou esse papel. A figura de Hitler como líder foi um dos pontos centrais da propaganda nazista, pois o governo buscava passar essa ideia para a sociedade. Inclusive o povo quando o cumprimentava, saldava o líder nazista diziam “heil Hitler”, que quer dizer “salve Hitler”, era uma demonstração de respeito ao então líder da nação.
A mensagem textual da imagem faz interpretar que Hitler está reerguendo a Alemanha das crises então recentes, e o povo ajudaria o governo comprando produtos alemães. Era o mercado de consumo interno, conforme é apontado na introdução do presente artigo.
O primeiro plano da imagem traz um homem ariano, loiro, com a camisa do uniforme nazista colocando um bloco encima do outro, o que traz a ideia de uma construção. Seu corpo não aparece por completo, o que causa a impressão de que além de estar levantando um muro estava se erguendo para isso. Esse homem está com as mangas da camisa arregaçadas e com as veias a mostra, claro sinal de trabalho e esforço físico.
Podemos classificar o homem que está em primeiro plano como um nacional alemão, pois está ajudando a reconstruir a nação, tem uma submissão a mesma e pode-se dizer que tem as características de um alemão, como idioma, educação e cultura, conforme MAZOWER (2013).
Atrás do homem a bandeira do Partido Nazista está hasteada ao vento, com seu símbolo, a suástica nazista . E mais ao fundo se observa dois cavalos puxando o arado em uma terra onde se pode cultivar. Os cavalos puxando o arado sobre a terra, o ariano trabalhando para levantar uma parede, todo esse trabalho sob a bandeira nazista mostra o nacionalismo que se implantava. A impressão da imagem é, um nazista, trabalhador rural, do interior, colaborando para a construção de uma nova Alemanha sob a ótica nazista e a direção do führer, que ajudaria seu povo, nesse caso em particular os agricultores, a passar pela crise.
Esse cartaz traz a propaganda no contexto da Segunda Guerra Mundial. A legenda diz: “Atrás das forças inimigas: O Judeu.” O ponto principal da leitura da imagem é a representação do povo judeu. Mais uma vez buscam caracterizar o judeu como sendo parte do mal contra a Alemanha. O desenho do homem junto as bandeiras é compreendido como um judeu de imediato pela estrela de Davi, que está na bandeira de Israel e entre seus significados representa o nacionalismo do povo judeu. O judeu está retratado como sendo um homem de nariz grande, gordo e com uma feição não amigável. Os nazistas retratavam o judeu com o nariz grande e achatado, na maior parte dos cartazes passavam isso. Um judeu bem vestido e gordo queria passar a imagem de ser comerciante, ter boas condições financeiras. As bandeiras da Inglaterra, Estados Unidos da América (EUA) e URSS fazem pensar em uma cortina, e o judeu olhando para fora, para além dos bastidores. Todas essas características vêm amarradas as bandeiras dos países aliados, ou seja, buscavam passar a imagem do judeu mais uma vez como inimigo. Nesse caso, retratam o judeu inglês como o financiador das forças aliadas, então algozes da Alemanha Nazista, nos bastidores da Segunda Guerra Mundial.t.

Esse cartaz faz referência ao fim da Segunda Guerra. O texto do cartaz traz consigo a ideia de que para os alemães fazerem da Europa novamente livre deveriam destruir a fera, que incarna seus algozes. Primeiro se vê um cenário devastado, sombrio, um líquido preto, sujo, um tronco de árvore, e nos céus uma fumaça que forma a figura de três cobras mostrando seus dentes e línguas, bravas, como se fossem atacar o inimigo, a Alemanha, que está ao horizonte.
Em destaque está uma fera, um grande gorila com uma feição agressiva, mostrando seus dentes, com o seu corpo coberto por símbolos que representam os inimigos dos nazistas. A estrela de Davi na testa da besta que é um símbolo judeu, mostrando os judeus mais uma vez como articuladores, a grande mente, as bandeiras dos Estados Unidos e da Inglaterra nos braços, a estrela vermelha comunistas no peito, todos simbolizando a força, a funcionalidade, como engrenagens sob um eixo. E a criatura está segurando uma bomba com o escrito “mord”, que quer dizer “assassinatos”, com a ideia de que iria arremessar a bomba e causar a morte de arianos.

A PROPAGANDA DO GOVERNO FEDERAL BRASILEIRO: UM REFLEXO DO NAZISMO
Buscamos fazer uma reflexão, uma comparação entre a propaganda nazista e a propaganda governamental do tempo presente, CERRI (2005) mostra que é possível tal comparação. No que se refere a questão racial da propaganda nazista, na imagem 02 há semelhança com uma propaganda do Governo Federal.
Na data de 23 de abril de 2020, o Governo Federal do Brasil tornou publica uma propaganda publicitaria, onde crianças com características caucasianas aparecem olhando para o slogan do Governo Federal, “Pátria Amada Brasil.”
A propaganda não mostra a diversidade étnico-racial presente no Brasil, apenas crianças brancas, não há negras, mestiças, indígenas, quilombolas. A propaganda mostra uma única etnia, branca e europeia, semelhante aos atores sociais da propaganda do Terceiro Reich. É o retrato do Governo, formado em esmagadora maioria por homens brancos e de classe média alta. A imagem utilizada na propaganda originalmente é do site freepik. 11
Um detalhe que merece constatação é que essa propaganda se assemelha com as propagandas de regimes autoritários, que não demonstravam a diversidade étnica de um povo, mas sim o povo que queriam mostrar, excluindo outros.
Os homens do poder fazem o que querem, sendo fidedignos ao real ou não. Neste caso não mostraram o Brasil real, mas sim um Brasil criado, com crianças brancas e um nacionalismo não brasileiro, mas forjado na aristocracia nacional e seus preconceitos.
CONCLUSÃO
O presente artigo buscou compreender, interpretar e problematizar a propaganda nazista a partir de cartazes. Devemos compreender que a propaganda é uma forte arma política, que reflete pensamentos e também o que se quer alcançar.
O papel de Goebbels foi fundamental para o reich, pois ele tinha o controle dos meios de comunicação, da arte, e fez com que os alemães tivessem acesso apenas a ideias ligadas ao nazismo, e não, de forma nenhuma, a ideias contrárias a essa forma de totalitarismo. Fez com que as ideias e os ideais nazistas atingissem toda a Alemanha do reich, e em um país que vinha de crises e problemas as ideias trazidas nas propagandas de reconstrução, proteção, patriotismo, entre outras, eram convincentes para a massa.
O caminho e a problematização feita a partir dos cartazes mostram alguns modelos que eram usados, com fatores estéticos e psicológicos. De apoio a Hitler, mostrando o trabalhador alemão ajudando a reconstruir a Alemanha, os judeus como parte do mal e os judeus como a grande mente articuladora dos aliados, com o objetivo de devastar a Alemanha. Essas são algumas abordagens que demonstram a forma que se pensa sobre o tema de cada um dos cartazes. Na interpretação, em um segundo plano sempre está a Alemanha, ou sendo apoiada, reconstruída, ou então atacada por seus inimigos.
A propaganda queria mostrar e assim fez com que a sociedade pensasse que os judeus eram as fontes de todos os problemas. A propaganda e a comunicação tinham o mesmo discurso, pois eram do Estado. A adesão das pessoas as ideias da propaganda foi o que garantiu para o reich o poder, a sua manutenção nele e colocar em práticas as intenções políticas do nazismo. Era uma propaganda perversa.
Há uma semelhança estética, no que se deseja transmitir entre a propaganda nazista e a propaganda do Governo Federal, deixando escapar pensamentos intrínsecos nas propagandas.
Os atores das propagandas, os contextos históricos mudam, mas a sua força se mantem, seja em uma propaganda política, comercial, de qualquer aspecto, sempre buscando atingir as pessoas, seja de forma positiva ou negativa.

FONTES:
Figura 01: Líder nós seguimos você! Todos dizem que sim” (1934). Disponível em: https://www.alamy.com/1934-vintage-adolf-hitler-nazi-nsdap-political-election-poster-leader-we-follow-you!-everyone-says-yes!-nazi-propaganda-poster-on-the-union-of-the-offices-of-chancellor-and-president-published-by-reich-propaganda-directorate-of-the-nsdap-germany-1934-image208067628.html. Acesso em: 27 de abril de 2020, às 14h00.
Figura 02: Hitler está construindo, ajude comprando produtos alemães. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/497718196293955299/?nic_v1=1aeTBJMI7O0IPuZzt0NbBVnUvT0Lk2Fslc3MQtI3WiG4vKKNWdxuNBEMC6UQpeY5zK. Acesso em: 27 de abril de 2020, às 15h30.
Figura 03: Atrás das forças inimigas – o judeu (1942). Disponível em: https://www.akg-images.fr/archive/-Derriere-les-forces-ennemies—le-Juif–2UMDHUH8QU4O.html. Acesso em: 26 de abril de 2020, às 21h30.
Figura 04: Seu caminho para a libertação da Europa (1944). Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/497718196310571422/?nic_v1=1ar%2FHZKPxOOab0oQnEkTP1LboGDxXuKJNvq0CZTZcMllPqdHMMyYYDYxIQAhCaicNu. Acesso em: 27 de abril de 2020, às 16h40.
Figuras 05 e 06: Internautas questionam foto de crianças europeias em programa do governo. Disponível em: https://catracalivre.com.br/cidadania/internautas-questionam-foto-de-criancas-europeias-em-programa-do-governo/. Acesso em: 26 de abril de 2020, às 13h00.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BERTÃO, Ruth Lobão. A Propaganda Nazista: O Poder do Cartaz. Rio de Janeiro: Universidade Estácio de Sá, 2010
CERRI, Luís Fernando. A política, a propaganda e o ensino da História. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 67, p. 319-331, set./dez. 2005. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/32413/1/S0101-32622005000300005.pdf. Acesso em: 27 de abril de 2020.
COSTA, Priscila Marques Da. O poder da comunicação: Persuasão como guia das massas. FEMA, Assis, 2009. Disponível em: https://cepein.femanet.com.br/BDigital/arqTccs/0611180303.pdf. Acesso em: 27 de abril de 2020, ás 16h00.
DIEHL, Paula. Propaganda e Persuasão na Alemanha Nazista. São Paulo: Annablume, 1998. 158p.
FERRO, Marc. História da Segunda Guerra Mundial. Editora Ática: São Paulo, 1995.
HERF, Jefrey. Inimigo Judeu. Propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Tradução: Walter Solon. São Paulo: EDIPRO, 2014.
LIEBEL, Vinicius. Humor, propaganda e persuasão: as charges e seu lugar na propaganda nazista. Curitiba: UFPR, 2006. Disponível em: < https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/5779/Humor%20Propanda%20e%20Persuas%C3%A3o.pdf?sequence=1&gt;. Acesso em: 30 de abril de 2021, às 18h50.
MAZOWER, Mark. O império de Hitler: a Europa sob o domínio nazista. Tradução: Claudio Carina e Lucia Boldrini – 1ª Ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
PEREIRA, João Pedro Cioffi; STANCIK, Marco Antonio. Trabalho e Pão: A República de Weimer a partir de cartazes nazistas de 1932. Paraná: Ateliê de História, UEPG, 5(2): 23-31, 2017. Disponível em: https://revistas.apps.uepg.br/index.php/ahu/article/view/9978. Acesso em: 07 de maio de 2020, ás 13h00.
PRIVIDELLI, Fabio. Idealizador da falsa imagem do führer: conheça Joseph Goebbels. In: Aventuras na História. Disponível em: . Acesso em: 25 de abril de 2020, ás 19h20.
RÜDIGER, Francisco. Eugen Hadamovsky e a teoria da propaganda totalitária na Alemanha nazista. Galaxia (São Paulo, Online), n. 27, p. 48-60, jun. 2014. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1982-25542014117896. Acesso em: 25 de abril de 2020, às 20h30.

notas

  1. Mestrando em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduado em História pela mesma universidade.Contato: arthurguilhermeserra@gmail.com
  2. Adolf Hitler nasceu na Áustria, em 1889. Em 1914, em Munique alista-se no Exército Alemão e vai a Primeira Guerra Mundial. Com a derrota da Alemanha, com o fim da monarquia, a Republica de Weiman e insatisfação socioeconômica crescente, Hitler funda o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Em 1932 o partido ganha cadeiras no parlamento e no ano seguinte Hitler é nomeado chanceler. Em 1934 o presidente falece e Hitler centraliza todo o poder, com as funções de chanceler e presidente. Aplica a ideologia nazista pela propaganda. Alia-se a Mussolini.
  3. Em 1939 invade a Polônia, e sua aliada Inglaterra junto a França declara guerra a Alemanha, resultando na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Alemanha fez invasões a muitos países, continuou a fazer campos de concentração. A primeira derrota foi na Batalha de Stalingrado (1943). Em 1945 o Exército Vermelho chega a Alemanha, os nazistas tentam se defender, mas se findam os tempos do Terceiro Reich. Hitler se suicida com sua esposa, em Berlim ao fim de abril de 1945.
  4. SS é a sigla de Schutzstaffel, que significa “esquadrilha de proteção.” Foi um grupo paramilitar que teve sua fundação em 1925, e tinha por função proteger Hitler e membros do Partido Nazista. Essa guarda havia jurado lealdade ao Reich, e seu lema era: “Mein Ehre heißt Treue”, que quer dizer “minha honra é a lealdade”. A SS ganhou força sob a liderança de Himmler, e a partir daí deixou de ser paramilitar e tornou-se um exército, passou a chamar Waffen SS e tinha autonomia em relação as Forças Armadas tradicionais. Com o seu crescimento a SS absorveu a Gestapo (polícia secreta nazista), a Sicherheitspolizei (polícia de segurança), Ordnungspolizei (polícia civil), e o Einsatzgruppen (responsável em capturar e exterminar os grupos étnicos minoritários). E também era o órgão que comandava todos os campos de concentração nazistas.
  5. Ato de tornar alemão, dar feição alemã a alguém ou alguma coisa.
  6. Trecho de “Das Lied der Deutschen” (A canção dos alemães), composta em 1841 por August Heinrich Hoffmann.
  7. Entre as produções cinematográficas nazistas está o filme Jud Süss (1940), dirigido por Veit Harlan. O protagonista era um judeu traiçoeiro, que representava perigo aos alemães. Em contraponto há a mulher ariana, esposa do protagonista.
  8. Alamy: banco de fotos e vídeos.
  9. Pinterest é uma rede social com foco no compartilhamento de imagens.
  10. A suástica nazista é formada por uma cruz com as pontas dobradas, conforme COSTA (2009). A suástica tem diversos significados, em culturas distintas, era utilizada por civilizações. Representa coisas boas, reflexão, conhecimento. Também representa o sol, a vida. Por essas características foi escolhida como símbolo do nazismo. O famoso símbolo passou a ser assustador por passar a ser sinônimo de nazismo, tendo sido usado por oficiais nazistas e também por civis. A simbologia foi impregnada de forma forte, até a primeira vista é sinônimo do regime segregacionista.
  11. AKG é um banco de imagens.
  12. Freepik é um banco com diversos vetores (imagens) gratuitos e pagos para baixar. É voltado para designes, peças publicitárias.

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