Jorge Bodanzky e a Amazônia. Nota

Por Romero Venâncio (UFS)

O tema da Amazônia brasileira no cinema não é fácil. Pela inflação de imagens que já temos e pelos filmes ditos “educativos” sobre a região. No fundo, nunca se levou muito a sério a Amazônia no cinema. A coisa muda para valer com a figura de Jorge Bodanzky e seus trabalhos na região.

Antes, uma nota sobre o distinto cineasta brasileiro (hoje, um pouco esquecido das novas gerações). Trata-se de um fotógrafo, diretor e figura destacada no documentário brasileiro nos anos 70 e 80. Em 1965, ingressa na faculdade de arquitetura da Universidade de Brasília, onde se aproxima do curso de cinema implementado por Paulo Emílio Salles Gomes, Jean Claude Bernardet, Nelson Pereira dos Santos, entre outros.

Com o fechamento do curso pela ditadura militar, passa a atuar como repórter fotográfico. Em 1966, obtém uma bolsa para estudar fotografia na Escola Superior da Forma em Ulm, Alemanha. O departamento de cinema, para onde se transfere, é coordenado pelo diretor alemão Alexander Kluge. Lá, especializa-se em fotografia de cinema. Também conhece seu futuro parceiro de documentários e longas, Wolf Gauer.

Retornando ao Brasil em 1968, trabalha como repórter fotográfico na revista Realidade e faz seus primeiros trabalhos como fotógrafo de cinema em curtas documentais e longas de ficção, como Hitler 3º Mundo (1968), Gamal, O Delírio do Sexo (1969) e O Profeta da Fome (1969).

No início dos anos 70 e financiado pela TV alemã, vai a Amazônia para rodar “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974), filme em 16 mm, som direto, com codireção de Orlando Senna e uma pequena equipe de filmagem. Um dos melhores e mais contundentes filmes sobre a “tragédia amazônica” perpetrada pela ditadura de plantão. Premiado internacionalmente após o lançamento, o filme é vetado pela censura até o início da década de 1980.

Depois filma o documentário de média-metragem Jari (1979), sobre o Projeto Jari na Amazônia. Em 1981, filma a campanha para a reeleição do senador amazonense Evandro Carreira, em o “Terceiro Milênio”. Três filmes singulares sobre/na região amazônica.

Nesta semana e por conta de todo esse ataque aos povos indígenas brasileiros, voltei a ver os três filmes do Bodanzky: “Iracema, uma transa amazônica”, “Jari” e “Terceiro milênio”. A região amazônica sempre foi vista como “estranha”, “exótica”, “incivilizada” ou lugar de “missão” (em todos os sentidos).

O (des)governo Bolsonaro e sua equipe é um retrato disto em pleno século XXI. Os filmes de Bodanzky nos ajudam a ver e entender um pouco esta região, e sem romantismos ou pieguismos; sem exotismos ou misticismos… Na “forma-documental”.

Um imenso aprendizado e que nos faz pensar sobre o nosso próprio país e de como perdemos no meio do caminho um “projeto de Nação”. A Amazônia será nosso enigma e má-consciência. E o tal do criminoso “marco temporal” será a prova de que o sangue indígena continua nas mãos nossas.

Ouça aqui o audiotexto da matéria.

Assista aqui uma ótima entrevista com Jorge Bodanzky



Assista aqui o filme “Terceiro Milênio”


Assista aqui o filme “Jari”.


Assista aqui o filme “Iracema, uma Transa Amazônica”.

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