Tangerinas (2013): um relato cinematográfico dos separatismos étnicos que emergem com a implosão da URSS.

Por Leonardo Lima Ribeiro

Tangerinas (Mandariinid, 2013, de Zaza Urushadze) é obra-prima sobre a vida de idosos plantadores e distribuidores de tangerinas (Ivo e Margus), estonianos os quais vivem em terras em disputa, ou melhor, em meio ao conflito entre chechenos e georgianos.

Trata-se de filme exemplar não apenas porque é objeto de um tema cristalino frente às rupturas neoliberais beligerantes que dissolveram a URSS. A construção da obra é magistral em função de planos-sequência utilizados como opção de filmagem e ponto de partida para a montagem com poucos cortes, articulada bem ao modo tarkovskiano (refiro-me ao celebre diretor Andrei Tarkovski, de Nostalgia, Sacrifício, Infância de Ivan, Stalker etc.).

A produção da obra marca a captura de um tempo lento confeccionado no entremeio da relação entre as imagens em movimento. A imagética da necessidade pulsante que advém pela textura dos corpos lentos encarnando a calma dos idosos como próteses da natureza estoniana, vinculada à ideia de persistência da vida humana em natureza enquanto os outros abandonaram essa perspectiva por causa da disputa entre nações, é uma das marcas do filme e suas paisagens fotográficas do desterro.

A persistência do plantio e da colheita como aposta metafórica que configura o trabalho do viver, mesmo lá onde o conflito emerge, é o maior objeto de celebração do filme. Evidentemente, tal contexto explicita a vida como meio de cura, com um dos idosos (Ivo, pai que havia perdido um dos filhos na guerra) se voltando ao cuidado com os abatidos no meio do caminho, de um lado ou de outro, inclusive no ventre de sua própria casa.

Algo que demarca o tencionamento entre a chance que é dada às etnias nacionalistas e mercenários de sobreviverem, lá mesmo aonde só praticam o morticínio, porquanto a contenção fraterna soviética não seria mais institucionalmente possível como mediação mitigadora da beligerância — já que a URSS teria ido pelos ares no paroxismo da hecatombe implosiva que se seguiu entre 1989 e 1991.

Como a URSS não era mais o lar ao qual recorrer, a casa do estoniano Ivo se torna a guarida e refúgio para cura das feridas de um checheno e um georgiano, justamente em meio ao deserto preenchido por tangerinas.

Trata-se de uma mensagem profunda do diretor Zaza Urushadze, porquanto a idade avançada dos protagonistas que fincaram o pé na permanência articulada com a natureza como nação de todos é uma forma de dizer aos mais novos, como o caucasiano, checheno e mulçumano Ahmed e o georgiano e cristão Nika, que ainda possuem a chance de abaixarem as armas, agradecerem pelo cuidado e, desarmados, abraçarem seus inimigos passionais.

No triste desfecho do filme uma imagem para reflexão fica clara. O assassinato do estoniano idoso Margus, do jovem georgeano Nika e a partida do checheno Ahmed deixam o personagem mais virtuoso do filme (o idoso major Ivo) na companhia da mais absoluta solidão, insistindo no cuidado de uma terra sem nome a qual perdera a qualidade de casa em função das guerras separatistas.

Uma mensagem reverbera do corpo silencioso de Ivo, que odeia despedidas da terra que ambiguamente se tornou seu paraíso e seu inferno: nem sempre é idiota ou descabido “negociar tangerinas em meio a uma guerra”, mesmo lá onde apenas sobra um ator no palco do desterro. Tal é a aposta ao estilo mikhalkoviano (cf. Nikita Mikhalkov, em Ana, dos 6 aos 18) da obra-prima que poucos mencionam por aí.

Assista aqui o audiotexto completo.

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