Sílvio Almeida – nada justifica

Por Mário Maestri

A questão não é ignorar o assédio ou a importunação sexual. Essa última, configurada quando não há relação de autoridade entre o importunado e importunador, como no caso que envolve os dois ministros, ocorre, aos milhares, através do Brasil, diariamente, nos ônibus, no metrô no trem, nas escolas. E não preciso responder à pergunta se as ditas autoridade fazem algo de concreto para reprimir tais violências inaceitáveis. 
Assédio, importunação, racismo, sexismo, homofobia, etc. devem ser reprimidos, obedecendo às praxes da Lei. Ao conhecimento de uma violência semelhante, deve-se proceder à abertura, seguida de  conclusão, de inquérito que determinará a qualidade e gravidade dos atos. Certamente  longe da mídia, essa assassina de aluguel. E, estabelecendo-se uma culpabilidade e suas consequências, deve-se aplicar a dita dosimetria penal. 
As propostas de que toda importunação é violação sexual, que todo homem é um violador, é o mesmo que propor que, mutatis mutandis, mostrar a língua, falar impropriamente, dar um empurrão, e, mesmo, um tapa na cara, e por aí vai, é o mesmo que disparar na testa de um infeliz com um 38. 
Um beijo não consentido, entre dois maiores de idade, não é, qualitativamente, o mesmo que um estupro, com pena de prisão mínima de seis anos, raramente cumprida, sobretudo se o estuprador pagar um bom advogado Uma agressão verbal racista, misógina, classista, homofóbica, por mais que doa, não é o mesmo que um corte de navalha na pele, pelos mesmos motivos. 
Até agora, o que se sabe, contado pela ministra Anielle Franco, se trataria de  “toque nas pernas e beijos inapropriados ao cumprimentá-la, além de expressões chulas de conteúdo sexual”. Tudo vago. “Beijo inapropriado” – na boca, forçado? Ou na bochecha? E os “toque nas pernas”, como foram? Foi uma vez, ou muitas? A ministra reclamou, no ato?  Quanto às expressões chulas, de conteúdo sexual, deixo para lá, já que é prática corriqueira, ainda que, no mínimo desagradável, da cultura brasileira.  Algumas já fazem parte do padrão coloquial da língua brasileira.
Sejamos claro. Nos meios acadêmicos brasileiros, nas universidades, nas salas dos professores, nos congressos, etc., ao menos até onde eu vi e vivi, nos últimos quarenta anos, rolam os “beijos inapropriados” e os “toques em joelhos”, em geral exploratórios, que raramente vão mais longe, quando não recebem bom acolhimento. E, sejamos claro, são ações habitualmente transversais. Também há, isso é certo, por partes de professores, sobretudo, assédio de pequena e média gravidade, a alunas e a alunos universitários, que raramente resultam na necessária punição. Deixam-se simplesmente passar.
As acusações, até agora, são imprecisas e, sobretudo, se não tiver ocorrido atos de maior gravidade, como pode ter ocorrido, elas não justificam, minimamente, o, digamos, estupro virtual a que foi submetido o ministro Sílvio Almeida pela grande mídia, pelo atual governo, pela cônjuge presidencial e pelo presidente Lula da Silva. 
O ex-ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, por quem não tenho a mais mínima simpatia política, ideológica e acadêmica, para não dizer mais, foi lançado à execração pública, nacional e internacional, sem a realização de uma investigação e sem que tivesse tido o direito de se defender. Foi acusado e executado. 
Apenas depois de devorado pelos leões famintos, o que restou do homem, foi recebido por um Lula da Silva carrancudo, que o enterrou ainda mais, ao reclamar que ele usara do Ministério para defender-se. Não precisava, senhor Lula da Silva. Não precisava, mesmo.  Não se chuta cachorro morto!
O certo é que,  antes de ser recebido pelo senhor presidente, a cônjuge presidencial, comumente acusada de histrionismo e de se colocar, sempre que possível, na  posição de Papagaio de Pirata, ocupou a grande mídia com a foto pousada dando um beijo matriarcal na testa de uma ministra. Deixava-se claro que a cabeça do Silvio Almeida rolaria, muito logo. E o senhor Lula da Silva não reclamou um tal comportamento indevido de sua ministra. E deveria ter ralhado com sua cônjuge, entre quatro paredes, por mais uma intervenção indevida nos assuntos públicos, servindo-se da posição de ser a sua atual esposa. 
Parece não haver dúvidas que Sílvio Almeida foi objeto de um violento ataque nas alturas, que,  nós, nos extratos inferiores da sociedade política, não temos condições de avaliar seus múltiplos desdobramentos. No máximo, receberemos algumas informações complementares, sempre imprecisas.. 
O certo é que o ministério de Sílvio Almeida era cobiçado, por personagens poderosas, de água na boca.  E ele, sem alianças partidárias, após uma gestão pífia, encontrava-se debilitado. Ao que se sabe, ele se encontrava fora da área de, digamos, influência, da cônjuge presidencial, que abrange o ministério de Igualdade Racial, de Anielle Franco, que mantém estreitos laços com a Fundação Ford e com instituições negras estadunidenses, onde estudou por longos anos. 
Lula já declarou que o próximo ministro deve ser ministra, mulher e negra, e, na mídia eletrônica, já se lançam candidaturas a serem nomeadas, desculpem, apoiadas pela cônjuge presidencial, que estenderia, assim,  a sombra de seu poder sobre mais um ministério. 
E toda essa operação teria nascido de uma ONG internacional, que sequer tem a preocupação de traduzir seu nome inglês ao português, Me Too Brasil, fina flor do feminismo identitário extremado, de sabor imperialista ianque. Foi ela  que teria prestado “apoio” a, ninguém mais, do que uma  ministra do governo brasileiro!  Segundo parece, ONG que não teria recebido os financiamentos que pretendia merecer. Agora, vai ficar deitada sobre charque gordo, como dizíamos aqui, no Sul!
Mas, será que algo ocorreu?  Acho -e apenas acho- que Sílvio Almeida  talvez tenha incorrido em alguns atos impróprios, de menor e talvez média gravidade, pouco aceitáveis em um ministro. Ou em qualquer homem ou mulher que tenha autoridade. E mesmo nos que não têm autoridade.
E se foi assim, e pode não ter sido assim, há boa possibilidade de terem ocorrido comportamentos iguais anteriores. E há já algumas declarações tardias de agredidas. O que nos coloca a pergunta, se isso for correto: – Ninguém sabia? Sílvio Almeida seria um beijoqueiro habitual emboscado nas salas e corredores ministeriais de Brasília,  há quase dois anos! — O governo não faz uma investigação, antes de designar um ministro? Esses atos, quando repetitivos, são conhecidos de praticamente todos os que se encontram próximos aos avançadinhos e às avançadinhas, estas últimas, apenas menos comuns.
O certo é que o orgulhoso ministro Sílvio Almeida foi passado sem delongas na máquina de moer carne, moral, honra, currículo, futuro, família, conhecidos. Para milhões de brasileiros e não brasileiros tornou-se um miserável estuprador. Não um “mão boba”, um fixado sexual, com os quais convivemos às dezenas, e não devem ser certamente desculpados.
Silvio Almeida foi transformado em um pedaço de carne abandonado em um canto sujo, sobre o qual qualquer um pode atirar quantas pedras quiser, exorcizando seus demônios e seus pecados.  Em artigos e livros, tenho me pronunciado sobre a operação político-ideológica identitária que pretende que, no Brasil, sem consultar os interessados,  são negros todos os que não são brancos translúcidos. Operação para qual Sílvio Almeida contribuiu.
Sempre propus que as práticas racistas se dão sobretudo contra aqueles que têm a pele fortemente negra, os chamados pela população de “negros pretos”. Há um forte desequilíbrio racial entre a denunciante e o denunciado. Dizer que ambos são igualmente negros é uma enorme sandice. Será que não houve, também, resquício racista inconsciente nessa operação de arrasamento moral e pessoal de Sílvio Almeida? Será que se ele não fosse tão preto como é, teria sido tratado de igual modo?
Espero apenas que o Sílvio Almeida, sem futuro pela frente, não encerre em forma dramática essa fase de sua vida, até agora coroada de tantos sucessos, que, tudo leva a crer, jamais voltarão a se realizar. 
Não tenha feito nada, o que é difícil, tenha feito um pouco, ou que tenha feito muito, o que parece também difícil, seu caso deveria ter sido avaliado com os cuidados que se impõem. O senhor presidente podia tê-lo chamado e pedido que se afastasse até tudo se esclarecer. Ninguém pode, ou poderia, ser linchado publicamente, pelas autoridades públicas governamentais e, ainda mais, pelo presidente da República, e, nem falar, por uma ONG ianque,  e lançado para ser devorada pela grande mídia. 
Minha total solidariedade com Sílvio Almeida, quanto ao tratamento que recebeu, para além das denúncias em questão. E confesso que me preocupa, também, em tudo isso, se fizeram isso com o Sílvio Almeida, ministro, o que o governo pode fazer comigo, ou contigo, que não somos nada.  

  • Mário Maestri, 76, historiador, sul-rio-grandense. maestri1789@gmail.com

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