A China é, Sim, Capitalista e Imperialista (Por Mário Maestri)

A China é, sim, capitalista, e pra lá de imperialista. Sua realidade nacional e ação internacional não deixam lugar a dúvidas. Para aqueles, é claro, que não se negam a olhar a realidade gritante. Apesar disto, comunicadores, intelectuais e assemelhados, que se dizem de esquerda e mesmo marxistas, defendem apaixonadamente que a República Popular da China seria socialista, em um novo sabor chinês, e que jamais foi  imperialista.  

Segundo eles, o desenvolvimento extraordinário do “socialismo de mercado chinês” provaria que, nos países de capitalismo atrasado, após a conquista do poder, para se construir o socialismo, se deve conviver, por um longuíssimo tempo, talvez um século, com bilionários saindo pelo ladrão e trabalhadores explorados até a medula dos ossos, do nascer até a morte.

Delfim Netto, o economista da ditadura militar brasileira, dizia o mesmo. Propunha aumentar o bolo servido aos ricos, para dividi-lo, apenas mais tarde, com os famintos, o que jamais foi feito. Esse seria o único caminho possível para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, o principal objetivo do socialismo, segundo os defensores da via chinesa para a felicidade, como propôs, em live recente Breno Altman.  [ALTMAN, 11/2024.]

Em livro de 2021, escrito em parceria, Elias Jabbour, o principal propagandista das maravilhas da China socialista de mercado, reconhece a contrarrevolução naquele país, em 1978, mas festeja o avanço das forças produtivas materiais: “As reformas orientadas para o mercado levaram a retrocessos no que diz respeito à natureza socialista do sistema social da República Popular da China, mas resultaram num extraordinário desenvolvimento de suas forças produtivas”, transformando sua natureza em uma “nova classe de formação econômico-social”. [JABBOUR & GABRIEKE, 2021.]

Nome é Tudo

Para os apologistas do  “socialismo de mercado”, um partido que se diga pró-socialista, socialista e, ainda melhor, comunista, no governo, como o chinês, garantiria a construção do socialismo, no fim dos tempos, após décadas e décadas convivendo com a produção capitalista. Ele impediria a dominação da nação por uma burguesia em fortalecimento econômico constante, cada vez mais gulosa também de poder político. 

No mesmo sentido, os defensores da “economia socialista de mercado” juram que a China não foi e não é capitalista e, muito menos,  imperialista. Afirmam que, ao contrário, ela dirigiria um “campo anti-imperialista”, de “países de diversos sistemas”, em prol de um mundo multipolar, livre do tacão ianque. A China seria o futuro, seria a verdadeira “salvação da lavoura”, juram de pés juntos. [ALTAMAN, 11/2024.]

Há os que afirmam que a China é capitalista, mas não imperialista.  Enunciam, assim, um contradicto in terminis, ao articularem uma afirmação paradoxal. Uma economia capitalista de tal dimensão, nas exportações e importações, é, necessariamente, imperialista, como veremos. Jones Manoel, jurando que falou após estudar o tema, reconheceu que a economia nacional chinesa é capitalista, e que ela segue o padrão imperialista internacional de exploração das nações atrasadas. Aceita, portanto, seu caráter imperialista nas relações econômicas internacionais. 

Entretanto, Jones Manoel propõe que, nas relações políticas internacionais, a China  não é imperialista, mas, digamos, boazinha: não se serve da força; não tem bases militares no exterior; possui exército apenas defensivo; não promove operação mundial de convencimento, isto é, de soft power. Apoiado nessas afirmações, que não se sustentam, Jones Manoel deduz que a China não é imperialista! Salva, assim, raspando, o camarada Xi Jinping!  

O capital monopólico chinês explora as nações atrasadas e tira o couro dos trabalhadores de todo o mundo, entre eles, do Brasil, mas é absolvido por Jones Manoel por seu proposto bom comportamento diplomático. Portanto, propõe que o imperialismo é uma categoria política e não econômica e manda Lênin para a lata do lixo. [MANOEL, 13/06/2021.]

Apologias minúsculas

Para defender suas propostas estapafúrdias, os embeiçados pela China de Deng Xiaoping e Xi Jinping, retorcem e ajustam à dimensão minúscula de suas apologias, sem pudor, a história, os fatos, o marxismo. Oferecem limões-amargos jurando serem laranjas doces. Mas qual seria a razão da proliferação desses sermões de pastores evangélicos sobre a  China Milagreira e a sagrada teologia do “socialismo de mercado chinês”? Esses ideólogos são bem-intencionados que apenas erram por falta de informação e método de análise? Ou apenas falam sobre o que não sabem, despreocupados? São erros e enganos sem consequências políticas e ideológicas?

Nos últimos dez anos, a direção da China investe forte em um soft power de olhos de amêndoas, o tal poder brando, que procura convencer a opinião pública mundial da excelência de sua ordem nacional e de seus objetivos mundiais bem-intencionados. O que o imperialista estadunidense faz, há muito mais tempo, com recursos astronômicos. Ao soft power, a cenoura, o imperialismo associa, quando necessário, o hard power, o bastão, o convencimento pela força, em todos os sentidos, mais custoso e arriscado. Tema que abordamos em artigo recente, publicado nas revistas virtuais AComuna e Contracorrente – “China: um soft-power de olhos de amêndoas”. [MAESTRI, 8/12/2024, 19/12/2024.]

Comunicadores e apologistas das bondades e dos milagres da China Maravilha do “socialismo de mercado” raramente se afastam do jargão de Pequim. São meros repetidores, em geral, remunerados, de diversos modos, direta e indiretamente, quando persuasivos, é claro. Como acontece com os apologistas do bloco imperialista estadunidense, certamente estipendiados, em diversas formas e ainda mais amplamente. [CHAVES, 2019; SAUNDERS, 2008.] Há sempre, é claro, os apenas de razão obliterada pela ideologia ou confusão. São os bem intencionados que pavimentam o caminho do inferno, segundo Marx. 

O movimento de defesa da ordem capitalista, em suas diversas versões, por intelectuais, comunicadores, etc., que se reivindicam da esquerda e do marxismo, é impulsionado fortemente pelo recuo histórico sofrido pelo mundo do trabalho diante do capital, nas últimas décadas, ao qual contribuem em forma substancial, no plano político, ideológico, cultural.

Iluminado

Para a narrativa apologética rasteira, proposta pelo PCC, “o socialismo de mercado chinês” teria nascido devido à iluminação do “pensamento” de Deng Xiaoping, em fins de dezembro de 1978, que teria aberto o país para o “socialismo de mercado”, nos fatos, para o capital mercantil nacional e internacional.  [Perspective Monde, 18/01/1992.] Mas, para não falsearmos a discussão — afinal de contas, existe esse estranho ser bifronte, o “dito socialismo de mercado”? Ele é referido na leitura do materialismo histórico da sociedade, proposta por Karl Marx e Frederico Engels? Ele aparece na narrativa marxista revolucionária que se inspirou, desenvolveu e se apoiou no proposto por queles pensadores germinais?

Marx e Engels definiram de socialismo o modo de produção que sucederia ao capitalismo e antecederia ao comunismo. No primeiro, no capitalismo, o produtor direto é expropriado de enorme parte de sua produção, por meio da captação de mais-valia, em favor do consumo e da acumulação de capitais dos proprietários dos meios de produção, em uma sociedade de mercado. Eles previam uma vitória inicial do socialismo em nações desenvolvidas, como a Inglaterra, a Alemanha, a França, os Estados Unidos, de onde a revolução e o socialismo se espraiariam através do mundo. [MARX & ENGELS, 1948.]

A conquista do poder e a expropriação dos grandes meios de produção iniciariam uma era de melhoria incessante das condições de vida material e espiritual dos trabalhadores e de toda a população, ainda no reino da necessidade relativa. Com o avanço da produção social, sob a direção dos órgãos de poder das classes trabalhadoras, se marcharia para a sociedade sem classes e de abundância relativa, em um futuro indeterminado — o comunismo. V. Lênin sintetizou o socialismo como a união da eletricidade, ou seja, o avanço das forças produtivas materiais, sob a direção dos sovietes, órgãos de poder dos trabalhadores. Destaque-se que ele citou os sovietes e não se referiu a um partido revolucionário qualquer,  eventual expressão política dos trabalhadores.

O socialismo é uma talvez longa etapa histórica, e não um mero tempo de transição entre o capitalismo e o comunismo. Durante a vigência do socialismo, viverão e morrerão gerações de seres humanos. Ainda mais que, nas sociedades pré-capitalistas e capitalistas não desenvolvidas, o socialismo deve fazer avançar as forças produtivas materiais escassas, sob a direção dos órgãos de poder dos trabalhadores, como proposto. Nesse contexto, a elevação das condições gerais de vida do mundo do trabalho e da população, mesmo se dando em forma mais lenta, deve alcançar a todos os  trabalhadores, no aqui e no agora.  Não no amanhã ou depois do amanhã. Nada de aumentar um bolo que apenas os bisnetos vão provar!

Luta à Morte

Em geral, nas formações sociais coabitam modos de produção dominantes e dominados. O caráter de uma formação social é determinado pelo avanço do modo de produção hegemônico ou ascendente, em relação aos subordinados. [GORENDER, 2016.] No escravismo romano, através do colonato, o feudalismo tornou-se a forma de produção dominante, superada, mais tarde pela dominância política e econômica capitalista. No capitalismo, após a conquistas política do poder, os trabalhadores recuam as relações capitalistas e outras de produção, em favor das socialistas. 

Entretanto, as relações não-socialistas não desaparecem, de um dia para outro. “Aprendemos da mais elementar escola marxista que é impossível passar de um golpe do capitalismo a uma sociedade socialista” – lembrava León Trotsky em 1924. [TROTSKY et al, 1974, p. 27.] Mesmo nas sociedades desenvolvidas, após a conquista do poder, as formas mercantis de produção, se mantém, e, apoiadas pela organização capitalista mundial dominante, permanecem em luta e em contradição tendenciais com a produção socialista em construção. A vitória da contradição e luta entre as formas de produção capitalista e socialista, entre as antagônicas “lei do valor” [mercado] e a “lei da acumulação socialista” [planejamento],  depende de qual delas avança ou recua mais rapidamente, na perspectiva de reduzir a que lhe é oposta a uma situação residual. [PREOBRAZHENSKY, 1971.]

Pode haver recuo ou avanço de uma ou de outra, mas não há a possibilidade de convivência ou equilíbrio pacífico entre duas formas de produção antagônicas e em disputa, como a história comprovou. Não há jamais equilíbrio homeostático entre as formas de produção capitalista e socialista, como propuseram, no passado, os defensores da coexistência pacífica e, hoje, os apologistas do “socialismo de mercado” no sabor chinês, apoiadores da restauração capitalista não apenas na China. [JABBOUR & GABRIEKE, 2021.] 

É uma comprovação dessa impossibilidade, entre outras, a própria guerra da Secessão, nos Estados Unidos, de 1861-65, que confrontou, em forma incontornável,  a produção capitalista, dominante no  Norte, à escravista, hegemônica no Sul, incapazes de conviver em uma mesma formação social.  Não há possibilidade de construir e estabilizar a ordem socialista em um país isolado, como propuseram os defensores da possibilidade da construção do socialismo na URSS isolada — “socialismo em um só país”. Tese contra a qual se levantou a Oposição de Esquerda, sob a direção de León Trotsky, e que foi impugnada em suas raízes quando da explosão da URSS, em 1991. [MAESTRI, 07/04/2023] Muito menos quando ela convive com uma produção capitalista interna em desenvolvimento contínuo.

Restauração capitalista

A restauração capitalista chinesa, transformada em política oficial do PCC, em dezembro de 1978, se caracterizou pela interrupção do movimento de ampliação da produção e acumulação socialista, iniciada em 1949, através da construção das empresas estatais, sobretudo industriais. Estagnação e retrocesso em favor da ampliação da acumulação pequeno-mercantil, já existente no campo, e implantação da produção capitalista industrial, extinta pela vitória da revolução, em 1949. O que produziu uma poderosa burguesia, até hoje em consolidação e expansão, através, primeiro, da exploração do mundo do trabalho na China e, a seguir, com a exploração das nações e dos trabalhadores através do mundo, com a gênese e desenvolvimento do capital chinês monopólico e imperialista. [MAESTRI, 2021, p. 97 et seq.] 

Desenvolvimento econômico  acelerado chinês que jamais foi um milagre. A  Coreia, Taiwan, Singapura e o próprio Brasil, este último durante a ditadura militar, viveram o mesmo crescimento capitalista intenso, permitido pelo aporte de capitais internacionais, pelo acesso ao mercado capitalista mundial, e por muita exploração dos trabalhadores, como ocorreu e ocorre  na China. [MAESTRI, 2020, p. 220 et seq.] Entretanto, o recuo do socialismo em construção da China, desde a vitória da revolução, em 1949, em favor da acumulação e restauração mercantil-capitalista, não iniciou em 1978. Ele não chegou dos céus, materializando-se no  “pensamento” inovador de Deng Xiaoping, que teria iluminado a direção suprema do PCC. Como propõem a atual direção desse partido e repetem no Brasil e através do mundo os divulgadores dos mantras do poder doce chinês. [ZEMIN, 2000.]

A restauração capitalista chinesa conheceu um salto de qualidade, em dezembro de 1978, ao se transformar em orientação oficial do PCC e do governo, quando do Terceiro Pleno do 11° Comitê Central do Partido Comunista da China, sob a direção da equipe de Deng Xiaoping. Ela foi produto, como veremos, de décadas de oposição violenta entre as leis do mercado e da planificação. Os advogados do “socialismo de mercado” em salsa chinesa são obrigados a apoiar suas  narrativas na obliteração da história da China pré-1978. Podem, assim, ignorar que a restauração capitalista acumulava forças havia anos, sobretudo no mundo rural, após o desastre do dito Grande Salto Adiante, de 1958-1960. [GUILLERMAZ, 1973.]  

O Grande Salto Adiante foi projeto maoista de coletivização forçada do campo, no estilo do avançado pelo estalinismo na URSS, em 1929, visando uma super-aceleração industrial do país, por meio de uma brutal transferência forçada da renda do campo e do camponês em favor da industrialização. Mao Tsé-Tung prometia que, com o Grande Salto, a China alcançaria o nível da economia da Inglaterra de então em poucos anos. Ao contrário da coletivização do mundo rural na URSS, com o Grande Salto chinês, a direção maoista pôs fim ao planejamento centralizado, enfraquecendo a ordem socialista. [ZEDONG, 1980;  MAESTRI, 2021, p. 11 et seq.]

Revolução Cultural Proletária sem Proletários

A desgraceira desse projeto utópico, voluntarista e milenarista agrário motivou um recuo dramática da economia chinesa, desorganizando a produção rural e urbana, impondo a necessidade do país de gastar parte de suas poucas reservas monetárias com a importação de alimentos. O chamado Grande Salto destruiu enorme parte das conquistas que a revolução garantira aos camponeses, desde 1949, e motivou a “Grande Fome”, com a morte de dez a doze milhões de camponeses.  Após o desastre, foram feitas importantes concessões à economia pequeno-mercantil camponesa, em uma espécie de pequenina NEP. [GUILLERMAZ, 1973; MENDE, 1968.]

A catástrofe do Grande Salto diminuiu a força do maoismo no governo e no PCC, obrigando  Mao Tsé-Tung a ceder a presidência do país, em 27 de abril de 1959, para Liu Shao-chi,  mantendo, porém, a direção do Partido, de longe a mais importante. [MAESTRI, 2021, p. 28.] Lutando para recuperar as porções perdidas de poder, em 1965,  o núcleo maoista do Comitê Central do Partido Comunista Chinês, sob a direção do “Grande Timoneiro”, lançou a Grande Revolução Cultural Proletária. Apesar do nome, o núcleo maoista se  esforçou para deixar o proletariado à margem do movimento e o reprimiu quando ele tentou se mobilizar. Sem poder se apoiar no campo e nos camponeses, escaldados pelo Grande Salto, a Revolução Cultura se amparou nos estudantes e no exército, sem raízes no mundo do trabalho. [BENNET & MONTAPERTO, 1971; BETTELHEIM, 1976. p. 103 et set.; MAITAN, 1969; MASSARI, 1999.]

Concluída em 1968, a Revolução Cultural obteve sobretudo o defenestramento, da alta cúpula do PCC, da imensa maioria da velha direção comunista que participara da Grande Marcha e da conquista do poder, em 1949. Entre os “inimigos do povo” apeados do poder e do governo estava o prestigiado Xi Zhongxun, o pai do atual Xi Jinping, destacado dirigente quando da Grande Marcha. Para substituir os deslocados, ascenderam ao poder quadros novos e, em geral, jovens, em tudo obedientes a  Mao Tsé-Tung, sem raízes na luta revolucionária do passado, sem objetivos programáticos e, não raro, carreiristas sem princípios. “Quando o movimento concluiu-se, em 1968, dois terços dos membros do comitê central haviam sido substituídos” por fiéis ao maoismo. As direções regionais, em geral, opostas ao Grande Salto, haviam sido igualmente decapitadas. [JOYAUX, Mai 1969, p. 3; MAESTRI, 2021, p.33.] 

A Revolução Cultural aprofundou a desordem econômica e fortaleceu a acumulação pequeno-mercantil e mercantil em avanço, desde o fim do Grande Salto. E havia igualmente na China importantes capitais privados tendencialmente inaproveitados. Não é verdade que, em 1949, a burguesia fora totalmente expropriada pelo PCC. Quando das nacionalizações empreendidas após a conquista do poder, “dois milhões e meio de proprietários teriam sido indenizados, entre eles, cem mil grandes capitalistas. Alguns deles recebiam dezenas de milhares de dólares anuais, em valores da época.”  [MAESTRI, 2021, p. 21.] 

As indenizações polpudas foram feitas para obedecer ao catecismo estalinista da “revolução por etapas”, em aliança com a “burguesia progressista”, que jamais teve qualquer papel no movimento revolucionário chinês. Comumente, esses possuidores de capitais administravam empresas estatais de grande porte e tinham participação política na gestão do país. Eles aproveitaram a crise no processo de acumulação socialista para investirem seus capitais.  

Abraço contra-revolucionário

Em 1971-2, três anos após o encerramento da dita Revolução Cultural, ocorreu o abraço antinatural de Mao-Nixon e a aliança do PCC com o imperialismo estadunidense, em um viés anti-soviético. Essa aproximação era imprescindível para a abertura do mercado internacional para a China, cerrado até então pelo bloqueio do bloco imperialista ianque, por um lado, e pela disputa entre Pequim e Moscou, pelo outro. As primeiras raízes da restauração capitalista germinaram sob o mando de Mao Tsé-Tung, que faleceu em 1976, acredita-se que já senil. O “dezembro de 1978” de Deng Xiaoping foi salto de qualidade e consagração da orientação pró-capitalista da economia e da sociedade chinesa, em gestação acelerada.

A reorientação capitalista na China foi produto de um longo e duríssimo processo de luta de classes, jamais explícito, que assentou raízes na pugna entre a acumulação capitalista e socialista. Ele foi vencido pelos setores pró-capitalistas, apoiados na economia pequeno-mercantil do imenso campesinato; nos capitais disponíveis no interior, apenas assinalados, e chegados do exterior; na ordem capitalista mundial hegemônica e na facção da burocracia do PCC favorável ao mercado. Durante esse conflito, o mundo do trabalho, o principal interessado na pugna, foi mantido politicamente na submissão pela direita, pelo centro e pela esquerda do PCC, sem conseguir construir  uma direção alternativa.[DINUCCI, 1975; MAESTRI, 2021.]

É, portanto,  uma enorme mistificação apresentar as decisões da direção chinesa, de dezembro de 1978, como uma mera reorientação de política, para acelerar a economia. Também é manipulação rústica da história propor o movimento de restauração chinês como  retomada da Nova Política Econômica russa, para lhe conferir raízes bolcheviques e, pior ainda, leninista. Uma reorientação da economia soviética comumente apresentada, pelos propagandistas do “socialismo de mercado” no sabor chinês, como nascida da mente iluminada de Lênin, muito de acordo com a retórica mao-estalinista. A NEP foi, ao contrário, produto de uma intensa deliberação e discussão na direção coletiva bolchevique, realidade fartamente documentada. [TROTSKY et al, 1974.]

Lênin, que teve importante papel na elaboração da NEP, a via como um recuo transitório, para a retomada plena da acumulação socialista e, jamais, como uma liberação da acumulação capitalista plena e de longo fôlego.Na Rússia soviética, a NEP foi motivada pela situação da produção industrial que, após o fim da Guerra Civil (1919-1922), praticamente inexistia. Naquele então, através dos imensos territórios russos, abundavam ruínas, famintos nos campos e nas cidades e os ossos dos revolucionários mortos em combate. O excedente camponês para alimentar as cidades era obtido na ponta das baionetas. A NEP não foi uma opção, foi sobretudo uma necessidade imperiosa. Trotsky, em 1924, lembrava que os bolcheviques convinham em que a NEP fora uma “retirada” e, sobretudo diante dos camponeses, que retraíam a produção ao nível da auto-consumo, pois não havia razão para plantar para vender. [TROTSKY, et al.1974, p. 35; CARR, 1964.] Situação qualitativamente diversa à da China, em fins de 1978.

Sequelas da NEP

Na União Soviética, a NEP recuou o pouco de planejamento da economia de então, em favor de uma maior anarquia do mercado. O Primeiro Plano Quinquenal se daria apenas após a repressão da NEP. [CARR & DAVUES, 1968.] Muito logo, com a consolidação da NEP, já quase como política permanente, a Oposição de Esquerda, sob a direção de León Trotsky, apontava para o crescente perigo da restauração capitalista, nascido da estagnação da economia socialista, do avanço da capitalista, do fortalecimento da burocracia, com as classes mercantis se esbaldando e os trabalhadores vivendo pior que antes da guerra. [TROTSKY, 2023.]

Não foi Lênin, falecido em janeiro de 1924, mas N. Bukharin, em aliança com  J. Stalin, que defendeu a extensão sem fim da NEP e a industrialização a “passos de tartaruga”. Em 17 de março de 1925, atacando a Oposição de Esquerda, Bukharin propunha enriquecer os camponeses como estratégia de industrialização. Se “facilitamos […] a acumulação na agricultura” asseguraremos “para amanhã uma maior demanda de produtos de nossa indústria”.[TROTSKY, et al.1974, p. 239.] Uma indústria, naquele ano, incapaz de abastecer minimamente  o campo e as cidades com os manufaturados necessário.

A manutenção da NEP proposta pela maioria do CC do Partido Comunista da União Soviética, sob a direção J. Stalin e N. Bukharin, levaria inevitavelmente à restauração capitalista, como comprovou o caso chinês. Em fins de 1928, com já sete anos de acumulação capitalista e frágil industrialização socialista, os camponeses começaram a negar-se a enviar seus produtos aos mercados, pois não existiam mercadorias industriais a serem compradas. Passaram a exigir amplas concessões econômicas e políticas. Era a comprovação da “crise das tesouras”, proposta já em 1923, por León Trotsky, devido ao descompasso entre a produção rural pequeno-mercantil e a fragilidade da produção industrial soviética. [TROTSKY, 2026; CARR,  1968.]

Em fins de 1928, a burocracia do Partido, sob comando de J. Stalin, rompeu com N. Bukharin, pôs  um fim violento à NEP, retomou o programa da Oposição de Esquerda, para o campo e para a cidade, servindo-se de métodos autoritários, vanguardistas, sem planejamento. Tudo ao contrário do programa proposto pela Oposição de Esquerda de transferência de renda dos camponeses, em forma gradual e planificada, servindo-se dos preços, de tributos, do oferecimento crescente de produtos industriais, etc., por meio graduais e pacíficos. [COHEN, 1990.] O terrorismo estalinista imposto ao mundo rural desorganizou a economia, com sequelas que se mantiveram até o fim da URSS. [CILIGA, 1938; MARIE, 2011; IOFFE, 1978.]

A burocracia temia, com razão, perder os privilégios e a cabeça nas mãos da contra-revolução em marcha. Defendeu, com métodos burocráticos e brutais, comprometendo-a no longo prazo, a natureza socialista da URSS e a manutenção de seus privilégios, contra N. Bukharin, o Deng Xiaoping russo, que abria o caminho à contra-revolução. [TROTSKY, 1963.] Ao contrário, a restauração capitalista na China foi oficializada,  em dezembro 1978, quando já se consolidara, inicialmente com o apoio da URSS, um sólido e dinâmico núcleo industrial estatal chinês, em construção desde a tomada do poder, em 1949. 

Destruindo o socialismo

Em 1975, o setor industrial estatal representava 86% de toda a produção industrial chinesa, trabalhando com uma mão de obra infinitamente menor do que a do campo, o que registrava sua maior produtividade em relação à agricultura pequeno-mercantil. E assegurava, com sua produção, a transferência de valor do mundo rural e mercantil para o mundo urbano industrial socialista. Em 1978, a indústria era responsável por 36% do PIB  e a agricultura por 37%. [ROSALES, 2008, p.17.] Portanto, muito logo ela superaria a produção rural.

Após 1978, a produção industrial estatal chinesa foi amplamente privatizada, causando queda de salários, forte inflação, perda de direitos dos trabalhadores. Entre 1998 e 2002, 26 milhões de trabalhadores foram demitidos de empresas estatais. “[…] em 2005, mais de 85% de todas as pequenas e médias empresas estatais foram reestruturadas e privatizadas.” [PROBSTING, 2014.]  Na União Soviética, durante a NEP, não houve privatizações. Em dezembro de 1922, em discurso diante da Internacional Comunista,  León Trotsky explicava: “Sob a NEP, todas as empresas, sem exceções, são propriedade do Estado. […] algumas empresas foram arrendadas.” E se tratavam de empresas de “segunda e terceira linha”. [ [TROTSKY et al, 1974, p. 44 et seq. Destacamos.]

Na China, os direitos dos trabalhadores dependiam do emprego que tinham em suas respectivas empresas públicas. Eles eram, portanto, perdidos, quando perdiam os empregos ou as empresas eram privatizadas. E não os retomavam, quando empregados em empresas privatizadas ou fundadas por privados. Dezenas de milhões de camponeses chegaram do mundo rural para serem proletarizados sob condições de trabalho muito duras, ao igual e mesmo piores a dos nordestinos imigrados mais explorados quando da industrialização do Centro-Sul brasileiro.

A restauração capitalista não surgiu de uma necessidade imperiosa, como na Rússia soviética destruída pela Guerra Civil. A direção chinesa se negou a seguir um caminho, o socialista, e optou por outro, o capitalista, no qual se locupletou em todos os sentidos. Podemos hipotisar que, se não tivessem ocorrido as insanidades do Grande Salto, de 1959-60, e da Revolução Cultural, de 1965-1968; se tivessem sido mantidos o planejamento centralizado e a industrialização socialista; se a convergência entre a República Popular da China e a URSS se tivessem mantido, teria sido diversa a sorte da China, da URSS e da própria Humanidade. A restauração capitalista da China impulsionou fortemente a contra-revolução mundial, que conheceu salto de qualidade, em 1991, com a explosão e restauração capitalista na URSS esfacelada. O que nos levou à patética situação atual.

Nome não é documento

É uma canção para ninar bebê a defesa do caráter socialista da China devido à denominação como comunista do partido dirigente da restauração capitalista. Nos anos 1920, na Rússia, a luta entre a via socialista e a capitalista deu-se sobretudo no interior do Partido Comunista. Em 1991, a restauração capitalista na URSS foi comandada por dirigente do Partido Comunista, ex-Partido Bolchevique, assim como na da China.  A metamorfose da natureza do Partido Comunista da União Soviética, de revolucionário a burocrático e, mais tarde, pró-capitalista, ocorreu inexistindo uma classe burguesa no interior da URSS, antes de 1991. Sob o nome de Partido Comunista, procedeu-se à revolução em 1917 e sua liquidação em 1991. 

A natureza de um partido não é definida pelo seu nome e a sua qualidade ao ser fundado.  São exemplos gritantes o PT, o PCdoB, o PCB-PPS. As naturezas do PCC eram diversas em 1949 e 1978. E ele jamais praticara a democracia proletária, como inicialmente os bolcheviques, tendo sido educado sob o dogmatismo e autoritarismo estalinista. Ao conquistar o poder, o Partido Comunista Chinês não tinha contatos com o proletariado, mas raízes profundas no campesinato. Ao contrário, o Partido Bolchevique nascera como um partido essencialmente proletário. O que nos ajuda a compreender a mais doce restauração capitalista plena na China, em relação à ocorrida na URSS.

Em 1965-1968, parte significativa dos membros da direção do PCC que lutara na guerra de libertação foi defenestrada quando da Revolução Cultural, sem ter sido dizimada fisicamente, como ocorreu na URSS, após 1929, com a antiga direção revolucionária bolchevique. Os defensores da orientação pró-capitalista puderam retornar ao governo e ao poder, ao serem reabilitados, como ocorreu com Deng Xiaoping, o pai de Xi Jinping e milhares de outros quadros em descrédito. Em 1978, o Partido Comunista Chinês,  de natureza já diversa do que tivera, em 1949, abriu o país à produção capitalista e as suas filas aos novos burgueses. 

O PCC promoveu a reconstrução de uma burguesia industrial, então inexistente, que se esbaldou na exploração do mundo do trabalho. O peso real dos trabalhadores no Partido Comunista Chinês atual  é desprezível. A fragilidade político-social do proletariado chinês, sem sindicatos classistas, sem liberdade política e sem representação autônoma no PCC, permitiu movimento de restauração capitalista que assegurou à burocracia remunerações e privilégios crescentes e, mesmo, tornar-se proprietária de meios de produção, em forma direta ou associada. Ao igual do que ocorreu na ex-URSS.

Monopólio do Poder

A direção do PCC não deu, porém, passo em direção à entrega do poder diretamente às classes proprietárias, ao igual do que ocorreu, após 1991, na ex-União Soviética. O movimento de abril-junho de 1989, na praça de Tiananmen, em Pequim, propunha o fim do monopólio do poder do PCC, o que chegou a ser discutido por ele. A cúpula partidária se dividiu entre Zhao Ziyang (1919-2005), primeiro-secretário do PCC, que propunha multipartidarismo e instituições liberais-burguesas, e Deng Xiaoping, que propunha manter o monopólio e o centralismo partidário e a abertura ao capitalismo.  Zhao Ziyang e seus milhares de apoiadores foram derrotados e apeados do poder, do governo e de seus  empregos. 

A decisão em favor do monopólico do poder e do capitalismo se deveu fortemente à desordem que vivia então a URSS. Caos político que conheceu, a seguir, salto de qualidade com a explosão territorial da União Soviética e a transformação da Federação Russa em “um negócio da China”, para o imperialismo, durante a Era Yeltsin [1991-1999]. [MOTOSI, 2020, p. 15; BERGÈRE, 2000, 212-221; ZIYANG, 2009.] O PCC é, hoje, um partido nacionalista, que representa os interesses do capitalismo chinês, em geral, e do seu capital monopólico, em particular. O centralismo do PCC defende a ordem capitalista e a unidade nacional do país, sob o ataque do bloco imperialista estadunidense. Nesse processo, mantém as classes trabalhadoras na submissão e na opressão.

Para melhor divulgar as maravilhas da via capitalista chinesa, dita socialista, comumente, se desconhecem a história e a realidade objetiva chinesa antes de 1978, como assinalado. Trapaceiam-se, igualmente, os dados do avanço da propriedade privada sobre a estatal, que  cresce aceleradamente desde a restauração capitalista. Mantém-se,  porém, o domínio do capital monopólico estatal em atividade no exterior, até porque faltava, inicialmente, capital privado de tamanho porte para tais iniciativas. Entretanto, empresas chinesas monopólicas privadas avançam também no mercado internacional, como é o caso da Huawei. Esconde-se que propriedades estatais têm forte participação de capitais privados, incentivada a partir de 2012. [Embaixada da RPC, 25/05/2012.]

O direito de veto governamental em decisões de grandes empresas chinesas, tão elogiado pelos apaixonados do “socialismo de mercado chinês”, não  difere ao praticado nos USA e na União Europeia, sobretudo quando o capital privado negocia com a China e com  a Federação Russa. Falsifica-se a realidade ao se propor como “planejamento da produção” as orientações muito gerais para a economia, não diversas das propostas em outros países capitalistas. Hoje há milhões de empresas capitalistas na China, regulando-se anarquicamente pelo mercado.  Na China, dominam as tendências anárquicas da economia de mercado, como comprova em forma incontornável o pesadelo da mega-explosão da bolha especulativa imobiliária, que não se reduz ao desastre da Evergrande. A China tem, hoje, dezenas de milhões de unidades habitacionais sem compradores. Bota planificação, nisso!

Área Privada e Pública

Não é a convivência entre uma área pública e outra estatal que define o caráter de uma economia, mas o crescimento de um setor sobre o outro, como proposto. No passado, no Brasil,  Itália,  França,  Inglaterra, houve enormes conglomerados industriais estatais sob o governo de Estados capitalistas e burgueses. Com o avanço do neoliberalismo, eles foram total ou parcialmente privatizados, como a Petrobras e tantas outras grandes empresas estatais brasileiras.

A hegemonia dos interesses privados sobre o Estado e a sociedade chinesa se expressa nos salários médios miseráveis pagos aos trabalhadores, não muito superiores aos praticados no Brasil e no México, onde dominam e avançam formas de escravatura assalariada. Muitos direitos dos trabalhadores chineses são inferiores aos da população do Brasil, inexistindo, na China, nos fatos, o direito à greve, retirado da Constituição, em 1982, no início da Era Deng Xiaoping. As greves, ilegais, são toleradas, em alguns casos, ou reprimidas, não raro duramente, em geral. 

Na China, não há nada semelhante ao SUS, devendo a população sustentar seus gastos de saúde. O ensino básico e médio é gratuito, mas os pais devem pagar cursos privados caros de reforço para que seus filhos cursem boas universidades. O ensino universitário é totalmente pago, dificultando a mobilidade social no interior da própria sociedade capitalista chinesa. Multidões de filhos de ricaços e altos burocratas estatais estudam no exterior, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas também  na  Austrália, Japão, Alemanha e Nova Zelândia. “Durante o ano lectivo de 2022-23, havia 289.000 estudantes chineses estudando nos EUA.” [DIÁRIO DO POVO ON LINE, 29/02/2024.] Sob falso nome, a  filha de Xi Jinping matriculou-se, em 2010, na Universidade de Harvard, que cobra anuidades astronômicas. [O Globo Mundo, 21/09/2012.]

Capital Financeiro Enjaulado 

A  inexistência de ciclos recessivos não é, também,  prova da natureza da economia “socialista de mercado” chinesa, ou seja, de seu caráter não capitalista. Na China capitalista, as crises recessivas foram enviadas para debaixo do tapete lançando-se mão de  uma  incessante política anticíclica, apoiada fortemente no endividamento público dos governos central, provinciais, municipais. Hoje, a dívida chinesa global é monstruosa. [CEBC, 11/09/2020] Durante o dito Milagre Brasileiro, a economia nacional não conheceu igualmente recessão.

A  existência de quatro grandes bancos públicos dominantes, os maiores do mundo — ICBC, China Construction Bank, Agricultural Bank of China, Bank of China—, que praticam juros comprimidos, permitindo financiamentos acessíveis do setor produtivo, público e privado, favorece igualmente a intervenção do governo na impulsão da economia. A expectativa familiar com os  gastos médicos e educacionais freia o consumo chinês e alimenta os depósitos bancários, escassamente remunerados. As famílias chinesas chegam a poupar em torno de 40% dos ganhos mensais [CARVALHO, 13/09/2016.]

O mega-capitalista chinês Jack Ma foi duramente reprimido por criar um sistema de empréstimos paralelo e ilegal, de grande proporção, apoiado no sistema de pagamento do Alibaba Group, de sua propriedade. Com ele, fizeram-se 500 milhões de empréstimos, em geral, pequenos e médios, sem maiores garantias, a altos juros. Era o capital financeiro avançando como um trator, em forma totalmente ilegal. A ação temerária de Jack Ma, que se acreditava intocável, expressou a enorme pressão do grande capital privado chinês para conquistar espaço que lhe permita  transformar-se em capital financeiro. [INFORMONEY, 28/12/2020.]

Trabalhar até morrer

Em 2018, Jack Ma foi recebido com banda de música como membro do PCC. O Diário do Povo, porta-voz do citado partido, o definiu como um dos “principais arquitetos do socialismo com características chinesas” na província-sede do seu grupo empresarial. [G1, 27/11/2018.] Já como militante comunista, o milionário defendeu que o trabalhador deve labutar das 9 horas da manhã, às 21 da noite, seis dias por semana, sem feriados e férias pagas, realidade a que são obrigados não poucos trabalhadores na China socialista de mercado. [BBC NEWS BRASIL, 27/11/2018; FSP, 12/04/2019.] Em 23/12/2024, parte da obra de construção da montadora de carros BYD chinesa, na Bahia, foi interditada por obrigar trabalhadores a “situações análogas à escravidão”. Eles teriam sido trazidos da China. [DW,24/12/2024.]

A enorme pressão pela autonomia exercida pelo grande capital chinês, industrial, comercial e bancário, perseguindo seus interesses capitalistas setoriais, ameaça  estruturalmente a arquitetura do financiamento da economia capitalista chinesa. Desde 2023, o governo tenta frear essa voracidade, já que a constituição de um capital financeiro monopólico privado, aumentando o custo dos empréstimos do setor produtivo, lançará certamente o país na estagnação e mesmo na recessão, debilitando e pondo em risco a hegemonia do PCC sobre o país. A China não dispõe do recurso político democrático-burguês de mudar incessantemente os governos para que tudo fique no mesmo, no fundamental.

Em 2023, o governo lançou uma ampla campanha contra a corrupção, os altíssimos salários, o “hedonismo”, o “culto ao dinheiro”, etc. dos dirigentes financeiros e bancários, públicos  e privados. Alguns dirigentes dos maiores bancos públicos foram condenados à morte, pena reversível em prisão perpétua, por corrupção. Os diplomados em finanças bem pagos recebem, como salário de entrada, uns trinta mil euros mensais.  [LE MONDE, 144/12/2024, p.15.] O salário mínimo na China está em torno de 350 euros. Porém, o governo não empreendeu nenhuma modificação estrutural no sistema bancário-financeiro chinês.

A China é Pra Lá de Imperialista

A China é, sim, pra lá de imperialista, no sentido leninista do termo. Em 1916, Lênin escreveu um breve clássico da teoria marxista:  Imperialismo: a fase superior do capitalismo. Nele, definiu como “imperialismo” o “capitalismo que chegou a um estágio de desenvolvimento no qual se afirmou a dominação dos monopólios e do capital financeiro; onde a exportação de capitais adquiriu uma importância de primeiro plano; onde […] se cumpriu a divisão de todo o território do globo entre os maiores países capitalistas”. [Lênin, 1984.]

Lênin registrava, assim, a superação da fase “mercantilista” do capitalismo, que, desde o século 16, unificou nações e construiu outras. Elas empreendiam incessantemente guerras pelo domínio territorial para escoar as mercadorias nacionais e dominar o mercado de matérias-primas. O investimento direto do capital bancário na produção industrial, para rentabilização incessante, ajudou a alavancou empresas monopólicas de maior porte, mais avançadas tecnologicamente e, portanto, mais rentáveis. 

As empresas monopólicas ultrapassaram necessariamente seus mercados nacionais, para valorizar seus vultuosos investimentos. Trata-se de salto de qualidade na esfera da produção e acumulação do capital e não de um movimento superestrutural. Um processo que manteve, sempre, a dependência da esfera da circulação à esfera da produção.

Imperialismo malvado e bonzinho

Além da exportação de mercadorias e serviços, em sua fase imperialista, o capital monopólico tem como característica central a exportação de capitais, sob as mais diversas formas: empréstimos, compra de empresa, investimentos diretos, exploração de matérias-primas, etc. O imperialismo pode se apoiar na violência física, militar, e comumente o faz. Mas sua determinação essencial e suficiente é a violência econômica. O imperialismo de conquista territorial é um fenômeno qualitativamente diverso, que alcançou forte desenvolvimento na Antiguidade.

A existência de capital monopólico não é condição suficiente para que uma nação seja imperialista. Ela se torna imperialista quando o capital monopólico, industrial, bancário,  tecnológico, etc., se constitui como a forma de capital dominante. A Federação Russa não é, ainda, uma nação imperialista, na acepção leninista do termo, pois exporta, sobretudo, matérias-primas e, até há pouco, importava capitais em grande parte, europeus. Quando o capital monopólico domina uma formação social, o Estado se organiza para expressar suas necessidades nacionais e internacionais, apresentadas como próprias a toda a nação.

Lênin destacou como característica do imperialismo a formação de alianças entre nações de capital monopólico hegemônico, para a repartição do mundo e de seus mercados – em sua época, sobretudo, Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Itália. No contexto da interpenetração de capitais nacionais da globalização e de nações hegemônicas, surgem blocos imperialistas, sob a direção de uma nação, que domina as nações imperialistas subordinadas. Essas últimas  aceitam ou são obrigadas a uma submissão consentida, em diversos níveis. A Coréia do Sul não deixa de ser uma nação imperialista, apesar de plenamente submetida aos Estados Unidos. A Inglaterra, a Alemanha, a França, a Itália, nações imperialistas desenvolvidas, se submetem à direção e às imposições estadunidenses.

Nações Boazinhas, Nações Malvadas

É uma pataquada propor que a China não é imperialista por não ser violenta nas suas relações externas. Nações imperialistas, como a Suíça, nunca invadiram ou agrediram militarmente outra nação, ou não o fazem, há décadas, como o Japão. Estados imperialistas  agressivos, como os Estados Unidos, estenderam a mão e apoiaram a reconstrução de nações aliadas e vencidas, ampliando sua hegemonia política e econômica nesse processo. Foram os casos do Plano Marshall europeu, de 1948-52; dos  investimentos na Coreia, em Taiwan, no Japão. A China jamais fez algo de tamanho porte, em relação a uma nação não desenvolvida.

O atual dinamismo econômico da China imperialista permite que ela se sirva dominantemente de instrumentos econômicos na sua expansão internacional. Sua materialização recente no cenário mundial, onde surgiu em clara inferioridade militar e diplomática em relação ao bloco imperialista ianque, impediu igualmente que ela apoiasse na força a sua luta pela conquista de posições no espaço internacional.  Entretanto, a China reconstrói suas forças armadas também em um sentido imperialista.

Em 1949, a China não tinha navios de guerra. Até os anos 1980, construiu armada sobretudo litorânea e defensiva, dita de águas verdes. A seguir, expandiu seus navios de guerra de porte oceânicos, de águas azuis, transformando-se, nos últimos vinte anos, na primeira marinha militar do mundo, à frente da dos Estados Unidos. A exteriorização mundial de sua economia em estágio imperialista exigia uma igual extroversão de seu poderio militar, em um sentido defensivo-agressivo. Voltaremos a essa questão.

 Tibete, colônia chinesa

Não é certo que a República Popular da China tenha sido, sempre, defensiva e pacífica. Desde 1951, a China ocupa o Tibete, região de povo, etnia, língua,  cultura e história singulares e não chinesas. O Tibete surgiu como nação independente e, no século 13 tornou-se protetorado do império mongol e, mais tarde, do império chinês. Em 1911, quando da frágil república chinesa, o Tibete proclamou a independência, sendo invadido pela China popular em 1951. Grande parte do país foi incorporada às províncias chinesas vizinhas, em um projeto de absorção. A China fere, portanto, os direitos de autodeterminação e nacionais do povo tibetano.

De 17 de fevereiro a 16 de março de 1979, no início do movimento de restauração capitalista,  o exército chinês invadiu o Vietnã, para apoiar o macabro regime milenarista rural do  Khner Vermelho, sob o comando de Pol Pot,  deposto por tropas vietnamitas. A expedição militar chinesa foi derrotada, com a perda de  20 mil soldados. No combate ao imperialismo estadunidense, o Vietnã fora apoiado pela URSS, com a qual a China se alienara em 1972, com o pacto Mao-Nixon.

Atualmente, a China se serve de sua poderosa marinha e de seu poder econômico na disputa pelo controle de regiões do Mar da China Meridional, reivindicadas também pelo Brunei, Malásia, Filipinas, Vietnã. Desde 2012, controla totalmente as ilhas Paracel, próximas de seus territórios continentais, e oito ilhas do arquipélago Spratly, mais distantes, onde construiu ilhas artificiais com portos e instalações militares. O bloco imperialista ianque se serve dessas contradições regionais para erodir as relações da República Popular da China na região.

À Procura de Bases Militares

Os apóstolos do capitalismo-socialista chinês, espécie de vaca com cabeça de porco, propõem o caráter não imperialista da China por não possuir bases militares através do mundo, ao igual que os USA, a França, a Inglaterra. Os EUA possuem 750 bases! O imperialismo estadunidense começou a colecioná-las em 1898, há quase um século e meio, com a ocupação da base de Guantânamo, em Cuba. A Suécia, a Suíça, o Japão, a Itália etc. imperialistas também não têm bases no exterior. Há menos de 20 anos, a China emergiu como uma nação imperialista global, em contradição ainda não fortemente demarcada com os Estados Unidos.

A China necessita de bases navais militares no exterior, de que não dispõe, imprescindíveis para permitir que sua marinha de guerra defenda seus interesses e linhas comerciais através do mundo. As linhas marítimas de abastecimento da China serão cortadas, em caso de conflito com o bloco imperialista ianque. Os Estados Unidos fizeram o mesmo, com o Japão, durante a II Guerra Mundial. Sem essas bases, sua poderosa marinha de guerra se torna um corredor com grande capacidade pulmonar, mas perneta. 

A  China possui uma base naval em Ream, na Camboja, e outra em Djibouti,  na África, na entrada do mar Vermelho, no caminho para o canal de Suez. Procura estabelecer outras, através do mundo, sob a permanente oposição do bloco imperialista estadunidense. A China dispõe de facilidades para sua frota militar em Cuba, na Venezuela, na Federação Russa e mantém relações comerciais ativas com uma infinidade de países marítimos. São, entretanto, apoios inseguros para sua armada. A frota pesqueira chinesa, ativa em todos os mares, é a maior do mundo. Ela fornece, em forma permanente, informações de uso militar para Pequim. [URBINA, 30.10. 2020.]

Plataformas imperialistas

Devido ao poder dos mísseis e das armas atômicas, os porta-aviões perderam a passada função militar determinante nos conflitos entre as grandes nações, quando se digladiavam entre si, como ocorreu na II Guerra Mundial. Hoje, em caso de conflito, os porta-aviões e suas escoltas serão retirados das zonas de combate devido à atual vulnerabilidade. Nos dias atuais, os porta-aviões funcionam sobretudo como meios de “projeção de poder” de um Estado, longe de suas fronteiras, protegendo suas linhas comerciais, atacando as do oponente, impondo seus interesses sobre nações de menor força.

Os Estados Unidos mantém sempre um porta-aviões ativo no Mediterrâneo na defesa da agressão sionista em curso. Os porta-aviões foram e são registros do caráter imperialista de uma nação. Os Estados Unidos têm 21. No início da II Guerra Mundial, o Japão tinha oito,  a Inglaterra, três, e a  URSS, voltada para a defesa de suas fronteiras, nenhum. A China construiu, a toque de caixa, três porta-aviões e espera lançar ao mar três outros, até 2035. A China já supera a Inglaterra e a França nesse domínio. O  Fujian, o mais moderno porta-avião chinês, pode pôr no ar em torno de setenta diversas aeronaves.

África-Brasil

As relações da China com a África circunscrevem a ação imperialista na sua  versão doce. As empresas públicas e privadas chinesas financiam e executam inumeráveis obras de diversos parte e naturezas no Continente Negro. Tratam-se de trocas desiguais. Capitais, mercadorias, serviços, etc. chineses são pagos, direta ou indiretamente, por quantidades monumentais de matérias-primas. Os críticos das relações internacionais da China propõem que ela realize uma penetração imperialista profunda na África apoiada comumente no que definem como a “diplomacia da dívida”. 

A China levaria nações africanas a contrair financiamentos sobre suas possibilidades, garantindo-se por contrato a propriedade ou o uso dos empreendimentos, em caso de falta de pagamento. O bloco imperialista estadunidense usa essa denúncia para impugnar a afirmação que as relações da China com a África promovem  harmonicamente os interesses mútuos. O caso do porto comercial de  Hambantota, no Sri Lanka, é apresentado como um exemplo clássico da diplomacia da dívida. 

Na impossibilidade de pagar a construção das instalações portuárias, o governo do Sri Lanka entregou as instalações portuárias, em 2017, para a administração da financiadora chinesa, por 99 anos. O significado econômico do porto é escasso. Propõe-se que a China planeje assinar acordo para a utilização do porto por sua marinha militar. A China tem repactuado os débitos de nações africanas inadimplentes.

China metrópole do Brasil

Mais do que a África, talvez o Brasil industrializado seja o melhor exemplo da intervenção e dominação imperialista chinesa. A República Popular da China é o primeiro destino das exportações brasileiras. Em 2020, 48% das exportações do Brasil partiram para China, sendo que elas  se constituíam, em 82%,  de matérias-primas, com destaque para a soja, o minério de ferro e o petróleo, que representavam 75% das exportações com destino àquele país. Em 2024, as exportações mantiveram o mesmo perfil geral, superando os 182 bilhões de dólares. 

No presente ano, as importações desde a China alcançaram 118 bilhões de dólares, com destaque para produtos industrializados — equipamentos de telecomunicações e elétricos, máquinas de diversos tipos, chips, peças automobilísticas, medicamentos, etc.  Apesar do superavit comercial, o Brasil segue funcionando como uma espécie de colônia da China, na era da globalização.

No que diz respeito às trocas comerciais, radicaliza-se o deslizamento histórico do Brasil, da órbita do imperialismo ocidental, ainda fortemente ativo no país, para a órbita imperialista chinesa. O que determina, em forma inevitável,  uma forte influência dos interesses da China na política interna do Brasil, independente da proposta da diplomacia daquele país de não se imiscuir nos assuntos de sala e cozinha das nações com as quais mantém relações comerciais.  

A China não brinca em serviço

A pressão econômica chinesa mostrou sua força quando do governo sinofóbico de Jair Bolsonaro, lembrando a dependência comercial do Brasil à China. E fez mais,  agora, no relativo ao governo argentino de  Javier Milei. Durante a campanha eleitoral, o candidato ultra-liberal e pró-estadunidense prometeu que daria as costas à China comunista. Entretanto, ao assumir o governo,  reconsiderou o que dissera quando o governo chinês começou a desviar parte de suas compras na Argentina para o Brasil. Há pouco, Milei se reuniu com Xi Jining, durante o G8, propondo retornar aos tempos de bom relacionamento. Xi e Milei trocaram afagos e convites de visitas aos respectivos países. [CNN Brasil, 19/11/2024.]

A relação imperialista surge em forma límpida no que diz respeito aos investimentos diretos de capitais chineses no Brasil. Nos anos 2002-2004, a China começou a se interessar pelo Brasil, quando da primeira administração petista.  De 2006 a 2020, o grande capital chinês investiu no Brasil pouco mais  de 66 bilhões de dólares, 47% das aplicações totais chinesas na América do Sul no período. Ou seja, naquele então, o Brasil foi o alvo! O que transformou a China no segundo investidor, abocanhando 30,9% dos investimentos estrangeiros no país, apenas 0,3% atrás dos USA. [CARIELLO, 2021, p. 10, 17 et pas.] 

A China realiza, hoje, o mesmo desembarque nas praias brasileiras realizado, no passado, pelos capitais ingleses, estadunidenses, alemães, holandeses, japoneses, etc., que continuam chegando. Mesmo em relação aos investimentos estadunidenses e europeus igualmente imperialistas, a ação  deletéria dos aplicações chineses no Brasil é talvez superior, devido ao seu perfil,  volume, natureza, concentração, etc.  

A China está comprando o Brasil

Dos 66,1 bilhões de dólares chineses investidos no Brasil, de 2006 a 2020,  46,3 bilhões — 70% — foram por meio de fusões ou aquisições. As empresas fundadas pelo capital chinês, representaram 24% dos investimentos, e as  joints ventures, criação de empresas ou associação,  entre capitais chineses e brasileiros, em que ambas partes mantêm a autonomia—, 6%.  Portanto,  tratou-se de literal transferência de empresas públicas ou privadas do Brasil, de controle nacional ou não, para o domínio do capital monopólico chinês, prosseguindo a desnacionalização e internacionalização da economia brasileira, que se processo, em forma inexorável, praticamente desde a dita redemocratização do país.

Agrava a transferência que 82% dos investimentos foram feitos por apenas dezesseis das chamadas “estatais centrais” chinesas, de caráter monopólico,  controladas pelo Conselho de Estado. Portanto, de direção centralizada. Essas empresas têm, comumente, acionistas privados chineses. Não se trata do desembarque no Brasil de centenas ou milhares de empresas, de grande, médio ou pequeno porte, de direções e orientações singulares ditadas por diversos e  múltiplos interesses. De 2007 a 2020, 48% dos mega-investimentos chineses se concentraram no “setor de energia elétrica –(…)–, seguido por extração de petróleo e gás (28%), extração de minerais metálicos (7%), indústria manufatureira (6%), obras de infraestrutura (5%), agricultura, pecuária e serviços relacionados (3%) e atividades de serviços financeiros (2%).” 

A Luz Brasileira Ilumina a China

As grandes empresas públicas chinesas, com destaque para a suas grandes estatais, controlam, desde Pequim,  o “equivalente a 10% do total nacional” da distribuição de energia. A SGBH, propriedade de estatal chinesa, foi responsável por 56% do capital da China investido na compra de empresas de energia brasileiras. Em 2023, ela abiscoitou o maior leilão brasileiro de transmissão de energia.  Em consequência, somas avultadas arrancadas aos consumidores brasileiros, tomam hoje o rumo da China, cada ano, sem nada aportarem ao país. Os investimentos chineses cobriam, em 2022, 23 dos 27 estados da federação — SP, 31%, Minas Gerais, 8%, Bahia, 7,1%, RJ, 6,7%, Goiás, 5,4%, Pará, 4,6%. Consequentemente, o capital chinês aplicado no Brasil, decisões centralizadas na China, possui uma capacidade de interferência econômica e política espraiada através de praticamente todo o país. 

A importância do Brasil para o capital monopólico chinês é tamanha que justifica o crescente investimento que faz no desenvolvimento de movimento de simpatia para a intervenção de seus capitais imperialistas no país. No Brasil e no mundo, por detrás dos comunicadores e outros assemelhados  que vendem a  China Maravilha, cada vez mais amplamente impulsionados e financiados, direta ou indiretamente, encontra-se o grande capital capitalista e imperialista chinês sorrindo nada enigmaticamente.

  • Agradecemos a leitura da linguista Florence Carboni, da UFRGS.
  • Mário Maestri, 76, historiador, escreveu sobre o tema: O despertar do Dragão. Nascimento e Consolidação do Imperialismo Chinês (1949-2021).O conflito China-URSS no Mundo e no Brasil. Porto Alegre: FCM Editora, 2021. https://clubedeautores.com.br/livro/o-despertar-do-dragao-2

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