Certo dia, vendo-me muito triste, Catarina correu para me abraçar. Em seguida, foi à cozinha para repetir um gesto de carinho que costumo fazer. Lavou as louças cuidadosamente. Quando cheguei no ambiente, ela disse: “papai, não acabei ainda. Quero te ver bem. Tenho uma surpresa para você”. Eu compartilhei que não precisava. Então ela arrematou: “papai, não se surpreenda quando eu terminar”. Esse singelo gesto de amor para me deixar feliz partiu de uma criança de seis anos de idade. As crianças são capazes disso, mais do que os mais velhos.
Depois, me perguntei: aonde foi parar o senso de bondade e de alteridade da maior parte das pessoas quando vêem alguém triste? Um singelo gesto, independente de qual seja, é prova de humanidade, enquanto o contrário é sintoma de barbárie.
Não é natural que à medida que envelhecem, muitos percam tão facilmente a humanidade como potencialidade interna. Lição da história: com o sadismo tomando lugar da bondade, o Brasil está corroendo por dentro. Em breve não restará mais nada, uma vez que uma das bases da barbárie é o fascismo endêmico que grassa por aqui.
Escrevi aqui refletindo sobre como nossos alunos perderam esse lado infantil tão bonito. Olho para as minhas filhas e depois os observo. Percebo mais maturidade e humanidade nelas do que na maior parte deles. O que me faz pensar que é bastante equivocada a ideia de que o motivo principal é o de que ainda precisam evoluir porque são muito novos.
Discordo dessa demagogia escolar que muitos pedagogos defendem. Porque, em realidade, a fase presente em que os discentes se encontram é o tempo da perda daquilo que continham, e não daquilo que conquistarão. A tolice que está largamente presente na percepção pedagógica assentada como senso comum nas escolas é inteiramente artificial. Trata-se de demagogia dos que não querem perder orçamento público em função da evasão escolar.
Nas escolas, os alunos são acolhidos não porque os professores e gestores devem ser desinteressadamente bondosos. Com a bondade nesse caso sendo falsificada, o que importa é manter e agradar a todo custo a clientela que pode, sem o menor pudor, adoecer e acamar os educadores (Ironicamente, era essa a ferida que minha filha Catarina estava tentando fazer sarar com seu delicado e generoso gesto no início relatado).
Em regra, não se trata de fazer discentes recuperarem seu lado afetivo e humano mais significativo. Trata-se de o docente servir de barreira de contensão da evasão e impulsionamento dos resultados maquiados, que devem servir como meio de justificação orçamentário. A maior parte dos alunos não sabe dessa manobra pela qual não deixam de ser instrumentalizados. Mas nós sabemos.
Em síntese, é justamente nesse ponto nevrálgico que encontramos uma das principais razões de o porque a educação pública no Brasil colapsou. Os modelos de educação pautados na barbárie em que os alunos são educados com base nos valores que eles representam para as escolas não permitem nenhum aluno recuperar seu melhor lado, porque se trata de produzir relações baseadas em cálculo monetário. Portanto, quem fala em desenvolvimento de alunos mediante a educação que temos é no mínimo cínico, ardiloso e cruel. Um sádico potencialmente fascista.
Por seu lado, os professores não deixam de estar sendo formados e inúmeras vezes obrigados a todo custo a não adoecer em tal contexto, através de que são induzidos a cumprir os objetivos da missão supramencionada. É proibido sofrer demais, mesmo que estejam doentes. É proibido experimentar uma suprema alegria, porque educação não serve para isso.
Ou seja, nem triste nem sumamente feliz. O preço do isolamento e da demissão é alto demais. O que desejam é a formatação de indivíduos, e mais especificamente docentes, reiniciados com mente embotada por sentimentos artificiais, quase robotizados e alinhados com as demandas do mercado e do mundo do trabalho que atravessam as escolas. Não optar por isso é sinônimo de ostracismo.
Ou seja, roubaram das pessoas até os melhores afetos. São proibidos de olhar com profundidade para si mesmos e para os outros. Observar o que há de comum nas vísceras da existência não é considerado pertinente como ato educativo. Não por acaso, emerge a epidemia de remédios como reforço embrutecedor das almas que ensinam.
Sentir demais é um defeito, uma vez que a velocidade dos afetos deve estar apenas à altura da velocímetro fabricado pela geografia das mercadorias humanas em formação no bojo das escolas. No limite, nos esvaziamos de nós mesmos, e mergulhamos na tolice como patética forma de vida capital que hoje chamamos de educação pública.
