É com imensa satisfação e um profundo senso de privilégio que apresento ao público esta nova edição, revista e ampliada, de Os senhores da serra: a colonização camponesa italiana do nordeste do Rio Grande do Sul (18751914), do historiador Mário Maestri. Conhecendo a trajetória do autor, a quem considero um amigo, posso assegurar que o leitor tem em mãos não apenas um livro, mas uma ferramenta para pensar o Brasil em sua complexidade mais profunda.
Mário Maestri é, sem hipérbole, um dos maiores historiadores ativos no país. Sua obra, construída ao longo de anos de docência e de pesquisa na Universidade de Passo Fundo (UPF) e em outras instituições, distingue-se por um rigor analítico ímpar e por uma coragem intelectual rara. Maestri pertence a uma linhagem de pensadores que não se contentam em descrever o passado, mas que o dissecam para compreender as estruturas de poder, as relações de exploração e os processos de resistência que moldaram a sociedade brasileira.
O título, “Os senhores da serra”, é deliberadamente instigante e carregado de ironia histórica. A quem o título se refere? Aos grandes latifundiários? Aos capitães da indústria? Não. Refere-se aos humildes camponeses italianos que, expulsos de sua terra pela miséria e pela falta de perspectivas, tornaram-se, na América, pequenos proprietários.
A expressão “senhores” ecoa, com uma ponta de provocação, a transformação radical vivida por esses imigrantes: na Itália, eram mezzadri (meeiros), assalariados rurais ou minifundiários espremidos pela pobreza; no sul do Brasil, tornaram-se donos de seu pedaço de chão, patrões de si mesmos. A obra, portanto, é a história dessa metamorfose e de suas consequências profundas, não apenas para os imigrantes, mas para a própria configuração social, econômica e política do Rio Grande do Sul.
A abordagem de Maestri é um modelo de história social e econômica. Longe das narrativas ufanistas e piegas que ainda hoje povoam o imaginário sobre a imigração, o autor escava as contradições do processo. Ele nos mostra que o “sucesso” da colonização não foi fruto de uma pretensa “vocação” ou “superioridade” étnica do imigrante italiano, um mito que a própria historiografia ajudou a criar, muitas vezes com propósitos políticos escusos.
O êxito relativo daquela empreitada deveu-se, sim, ao encontro de camponeses desesperados por terra com um projeto estatal (e depois privado) de ocupação territorial que lhes ofereceu, mediante pagamento, lotes na serra sul-rio-grandense. Maestri reconstrói cada etapa dessa odisseia: as razões da expulsão na Itália unificada, com sua modernização conservadora e a “fome de terra”; a travessia do oceano em navios superlotados, que o autor compara, em seus aspectos materiais, ao tráfico negreiro, sem cair em falsas equivalências.
A chegada ao sul do Brasil e a dura instalação na mata, enfrentando o isolamento relativo e o trabalho de sol a sol; a organização da pequena propriedade e a economia familiar, onde a exploração do trabalho de mulheres e crianças era a regra; e, por fim, a inserção subordinada no mercado, que transferia a riqueza produzida pelo colono para as mãos do capital comercial e, posteriormente, industrial.
O livro nos apresenta um universo onde a “ética do trabalho” e a “poupança” não eram virtudes abstratas de um povo, mas necessidades concretas impostas por uma economia que exigia a produção incessante de excedente para pagar a dívida, os impostos e comprar o que não se produzia. O colono trabalhava para sobreviver e para manter a terra, enquanto o comerciante da venda, muitas vezes seu conterrâneo, acumulava o capital que mais tarde financiaria a indústria regional.
É a história do trabalho que cria riqueza para outros, contada a partir da perspectiva de quem labutou. Maestri não idealiza seus personagens. Ele mostra o patriarca autoritário, a mulher submetida a uma vida de gestações e trabalhos incessantes, os filhos como “braços para trabalhar” e não “bocas para alimentar”, numa lógica que só se inverteu com a modernização da agricultura.
Maestri mostra também a tensão entre a moral católica oficial e as práticas cotidianas, a formação de uma língua nova (o “talian”) e sua posterior substituição pelo português, num processo muito mais complexo do que a simples “Lei do Silêncio” do Estado Novo. O historiador não se furta a analisar o papel da Igreja, da escola, do comércio e até mesmo da carreta e do carreteiro, personagens centrais no escoamento da produção, cuja vida de “herói” é desmontada para revelar a realidade de um trabalhador explorado pelo grande comerciante.
Em suma, Os senhores da serra é uma obra-prima sintética da historiografia da imigração camponesa italiana no sul do Brasil. Ela nos oferece uma visão totalizante de um dos mais significativos processos migratórios do país, desmontando mitos, revelando estruturas e dando voz e vez àqueles que, com seu suor, construíram as bases do que hoje é uma das regiões mais prósperas do Extremo Sul.
A leitura de Os senhores da Serra: A colonização camponesa italiana do nordeste do Rio Grande do Sul (1875-1914) é, portanto, indispensável não apenas para especialistas ou descendentes de italianos (como eu), mas para todos aqueles que desejam compreender as engrenagens profundas que movem a história, a luta pela terra e a formação da classe trabalhadora no Brasil. É um convite a olhar para o passado com olhos críticos e a reconhecer, nas alegrias e dores daqueles que nos precederam, as chaves para entender os dilemas do nosso presente.
Passo Fundo, 14 de março de 2026
Jaime Giolo
Doutor em História e Filosofia da Educação pela USP
Primeiro reitor eleito da Universidade Federal da Fronteira Sul
