Enquete operária

Karl Marx

Publicamos abaixo o preâmbulo de Marx a uma Enquete operária, elaborada a pedido dos militantes do Partido Operário francês; toda a enquete (preâmbulo e suas perguntas) foi publicada em francês na Revue socialiste [Revista socialista] em 1880. Os socialistas franceses que o solicitaram seguramente já o fizeram com base na orientação teórica do próprio Marx de que sua ação política se fundamentasse no conhecimento das condições de vida e trabalho dos operários. Sua finalidade era, de fato, constituir um conhecimento sobre a condição operária, conhecimento este protagonizado pelos próprios trabalhadores. Desse modo, seu título Enquete operária (ou pesquisa operária, Enquête ouvrière em francês) indica não apenas o que deve ser conhecido, mas também por quem e em vista de quê.

A tradução abaixo foi feita com base na edição francesa de 1880, tal qual disponível aqui, precedida em nosso blog por alguns parágrafos sobre aspectos históricos do texto, que colhemos de um estudo de Riccardo Emilio Chesta numa recente edição italiana. Publicamos ainda, em seguida ao preâmbulo, um parágrafo de uma carta de Marx a F. Sorge, a 5 de novembro de 1880, em que se refere à enquete. Essa carta for traduzida da edição em inglês, com a ajuda de Tomás Rosa Bueno, a quem agradecemos. Em seguida, publicamos a tradução do alemão dos “considerando” introdutórios que Marx escreveu para a plataforma eleitoral do Partido Operário francês (e aos quais ele se refere na carta a Sorge).

[Apresentação de Riccardo Emilio Chesta]

Questionário originariamente escrito por Karl Marx a pedido de um grupo de militantes comunistas franceses que mais tarde ingressaram no Partido Operário francês – do qual o próprio Marx escreverá no mesmo ano parte do programa – o inquérito operário só foi publicado em abril de 1880 na Revue Socialiste, dirigida por Benoît Malot, um dos protagonistas do Comuna de Paris.

Como costuma acontecer no mundo da ciência, a ideia de constituir uma pesquisa – “operária” para ser mais preciso – decorre de uma intuição ligada a um evento particularmente surpreendente. Marx está realmente impressionado com os efeitos políticos inesperados resultantes de uma investigação sobre as condições dos trabalhadores industriais encomendada pelo governo britânico. Do resultado dela surgiram reivindicações de trabalhadores que teriam levado à redução do dia de trabalho de 10 horas, bem como limitações importantes para exploração infantil e feminina.

É precisamente a partir desse caso crítico que Marx então percebe a importância da enquete, instrumento de conhecimento e luta, para propor uma semelhante, autonomamente constituída, a ser realizada na França – na época o lugar de maior fermento e enraizamento do movimento operário internacional.

A enquete operária para Marx, portanto, não é uma atividade descritiva episódica ou um apêndice, a ser realizado à margem do trabalho político, ou um mera coleta de informações sobre a realidade social. Está totalmente engajada da mesma forma que o filósofo de Trier interpreta a tarefa de pensamento, ou melhor, como a “ciência da contradição”, uma atividade única que vincula empreendimento científico e emancipação política.

[…] A hipótese e a necessidade de uma enquete operária é de fato proposta em um carta enviada aos delegados da Associação Internacional dos Trabalhadores já em 1867 – o mesmo ano da publicação do Livro I de O capital, que marca uma virada definitiva no pensamento de Marx, superando na crítica da economia política a crítica da ideologia. Endereçada a trabalhadores e militantes socialistas dos principais países capitalistas, a enquete liga um intento comparativo científico ao da conscientização política que, reconhecendo a dimensão global das condições, prepara o terreno para uma ação política internacionalista comum.

[…] Na apresentação das 100 questões do questionário, dividido em 4 categorias (locais de trabalho, horários e métodos de trabalho, condições contratuais e salariais, formas de organização e representação), Marx já descreve, em uma breve introdução, a dupla importância, científica e política, da enquete.

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“Esperamos ser apoiados em nosso ação por todos os trabalhadores da cidade e do campo, que compreendem que só eles podem descrever com pleno conhecimento dos fatos, os males que se lhes acometem; que somente eles, e não salvadores providenciais, podem aplicar vigorosamente remédios às misérias sociais de que sofrem”.

Enquete operária [Preâmbulo]

Nenhum governo (monarquista ou republicano burguês) ousou realizar uma pesquisa séria sobre a situação da classe operária francesa. Mas, em compensação, quantas investigações sobre as crises agrícolas, financeiras, industriais, comerciais, políticas!

As infâmias da exploração capitalista reveladas pela investigação oficial do governo britânico; as consequências legais que essas revelações produziram (limitação da jornada legal de trabalho a dez horas, leis sobre trabalho de mulheres e crianças etc.) tornaram a burguesia francesa ainda mais temerosa dos perigos que poderia representar uma pesquisa imparcial e sistemática.

Esperando que possamos levar o governo republicano a imitar o governo monárquico da Inglaterra, a abrir uma ampla investigação sobre os fatos e mal feitos da exploração capitalista, vamos tentar, com os frágeis meios de que dispomos, começar uma. Esperamos ser apoiados, em nossa obra, por todos os operários das cidades e dos campos, que compreendem que só eles podem descrever com pleno conhecimento de causa os males que eles aguentam, que somente eles, e não salvadores providenciais, podem aplicar energicamente os remédios às misérias sociais das quais sofrem; nós contamos também com os socialistas de todas as escolas que, querendo uma reforma social, devem querer um conhecimento exato e positivo das condições nas quais trabalha e se move a classe operária, a classe a quem pertence o futuro.

Esses Cadernos do trabalho são a obra primeira que se impõe à democracia socialista para preparar a renovação social.

As cem perguntas a seguir são as mais importantes. As respostas devem conter o número de ordem da pergunta. Não é necessário responder a todas as questões; mas recomendamos que deem respostas as mais abundantes e detalhadas possível.

O nome da operária ou do operário que responder não será publicado, a não ser com autorização especial; mas deve ser fornecido, assim como seu endereço, para que, se necessário, possamos nos comunicar com eles.

As respostas devem ser enviadas ao administrador da Revista socialista, Sr. Lécluse, rua Royale, 28, Saint-Cloud, Paris.

As resposta serão classificadas e fornecerão os elementos para monografias especiais que serão publicadas pela Revista socialista e mais tarde reunidas em livros.

Da carta a Sorge a 5 de novembro de 1880

Você deve ter notado que o Egalité, em particular, graças em primeiro lugar à vinda de Guesde para junto de nós e ao trabalho de meu genro Lafargue, nos ofereceu pela primeira vez um “jornal do trabalhador” francês no sentido mais amplo. Também Malon, na Revue Socialiste, teve que abraçar o socialisme moderne scientifique, ou seja, o socialismo alemão, embora com as incoerências inseparáveis de sua natureza eclética (fomos inimigos, pois ele era originariamente um dos fundadores da Aliança [da Democracia Socialista, sociedade secreta fundada por Bakhunin em 1866]). Escrevi o “Questionneur” [sic] para ele, que foi publicado pela primeira vez na Revue Socialiste e então distribuído por toda a França em um grande número de reimpressões. Pouco depois, Guesde veio a Londres para traçar um programa eleitoral para os trabalhadores junto conosco (eu, Engels, Lafargue) para as próximas eleições gerais. Com exceção de algumas trivialidades que Guesde achou necessário lançar aos trabalhadores franceses, apesar do meu protesto, como fixar o salário mínimo por lei etc. (eu disse a ele: “Se o proletariado francês é ainda tão infantil a ponto de precisar dessa isca, não vale a pena traçar nenhum programa”), a seção econômica do muito breve documento consiste apenas em reivindicações que surgiram espontaneamente do próprio movimento operário, exceto pelas passagens introdutórias onde o objetivo comunista é definido em algumas palavras [escritas pelo próprio Marx, a pedido de Guesde]. Foi um tremendo passo em frente para tirar os trabalhadores franceses de sua névoa de fraseologia e, portanto, foi um choque violento para todos os tontos franceses, que vivem da “fabricação de névoa”. Após uma violenta oposição dos anarquistas, o programa foi adotado pela primeira vez na Region centrale – isto é, Paris e seus arredores – e mais tarde em muitos outros centros operários. A formação simultânea de grupos opostos de trabalhadores, que aceitaram, no entanto, a maioria das demandas “práticas” do programa (sauf les anarchistes [com exceção dos anarquistas], cujos grupos não se constituem de trabalhadores reais, mas de desclassés com alguns trabalhadores enganados na condição de seus soldados rasos), e o fato de que pontos de vista muito divergentes foram expressos apenas em relação a outras questões, prova-me que este é o primeiro movimento operário real na França. Até o momento só existiam seitas lá, que naturalmente recebiam seu mot d’ordre [palavra de ordem] do fundador da seita, enquanto a massa do proletariado seguia os burgueses radicais ou pseudo-radicais e lutava por eles no dia da decisão, apenas para ser massacrada, deportada etc. no dia seguinte pela turma que tinha colocado no poder.

[Introdução ao programa do Partido Operário francês]

Escrito no início de maio de 1880. [L’Egalité nº 24 de 30 de junho de 1880]

Considerando

que a emancipação da classe dos produtores compreende todos os homens, sem distinção de sexo ou raça;

que os produtores só podem ser livres se estiverem na posse dos meios de produção;

que há apenas duas formas em que os meios de produção podem pertencer a eles:

1. a forma individual, que nunca foi um fenômeno geral e está sendo cada vez mais suprimida pelo progresso industrial;

2. a forma coletiva, cujos elementos materiais e espirituais são criados pelo desenvolvimento da própria sociedade capitalista.

Considerando

que a apropriação coletiva só pode proceder da ação revolucionária da classe produtora – o proletariado – organizada em um partido político autônomo;

que tal organização deve ser buscada por todos os meios à disposição do proletariado, incluindo o sufrágio universal, que assim se transforma de um instrumento de fraude, o que tem sido até agora, em um instrumento de emancipação;

Os operários socialistas franceses, que, no campo econômico, fizeram da devolução de todos os meios de produção à propriedade coletiva o objetivo de seus esforços como meio de organização e luta, decidiram ir às eleições com o seguinte programa mínimo: […]

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