HUMANIDADE

POR

Urbano Nojosa

A pandemia delimitou a urgência de um novo projeto de humanidade, pois o vírus nos ensinou que a nossa forma comunitária e social de reproduzir a vida encontra-se na fronteira de uma tragédia e do genocídio da espécie humana.
Os ideais renascentistas de humanidade surgiram após trinta anos de pandemia no continente europeu. Essa pandemia impulsionou a necessidade de criação coletiva de um projeto de humanidade. Enfim, a vida precisava ser reelaborada, pois a cosmogonia teológica cristã não mais se sustentava nesse momento de crise.
A estética do renascimento impôs um repensar de paradigmas antropológicos, deixando o legado pantocrato da onisciência, onipresença e onipotência do divino para imergir num resgate histórico e filosófico de uma sociedade construída pelas mãos humanas. Leonardo da Vinci esboça em seu desenho o homem de vitruvio (1490) um novo ideal estético, resgatando o ideal clássico grego-romano de beleza, equilíbrio e harmonia das formas a partir da perfeição e das proporções humanas. O homem vitruviano surge de estudos do arquiteto romano Marcos Vitruvios Pollio e sua obra “ARCHITECTURA”, conforme trecho registrado nos estudos em diário de Leonardo da Vinci a respeito do seu desenho:

Um palmo é o comprimento de quatro dedos
Um pé é o comprimento de quatro palmos
Um côvado é o comprimento de seis palmos
Um passo são quatro côvados
A altura de um homem é quatro côvados
O comprimento dos braços abertos de um homem (envergadura dos braços) é igual à sua altura
A distância entre a linha de cabelo na testa e o fundo do queixo é um décimo da altura de um homem
A distância entre o topo da cabeça e o fundo do queixo é um oitavo da altura de um homem
A distância entre o fundo do pescoço e a linha de cabelo na testa é um sexto da altura de um homem
O comprimento máximo nos ombros é um quarto da altura de um homem
A distância entre a o meio do peito e o topo da cabeça é um quarto da altura de um homem
A distância entre o cotovelo e a ponta da mão é um quarto da altura de um homem
A distância entre o cotovelo e a axila é um oitavo da altura de um homem
O comprimento da mão é um décimo da altura de um homem
A distância entre o fundo do queixo e o nariz é um terço do comprimento do rosto
A distância entre a linha de cabelo na testa e as sobrancelhas é um terço do comprimento do rosto
O comprimento da orelha é um terço do da face
O comprimento do pé é um sexto da altura

Pensar o mundo a partir dessas medidas e proporções do corpo humano estabeleceu uma regra racional para medir a potência do saber nesse projeto de humanidade regulada por princípios antropológicos, antropocêntricos e antropomórficos. Enfim, uma humanidade construída por um saber, por uma centralidade e uma forma humana.
Esse resgate antropológico criou os pressupostos para uma provocação filosófica e estética em que a humanidade deve expressar o espelhar da vida humana; como também, num processo de imersão nas relações de poder entre Estado, sociedade civil e indivíduos. Essa tríade foi elaborada por Maquiavel em sua obra “O Príncipe”, pois nos interpela para obervarmos a relação entre virtú e fortuna.
A virtú é a capacidade de controlar os acontecimentos, de contruir estratégias de governar e de antecipar a imprevisibilidade da história. Como também, é a forma de controlar as probabilidades e suas possibilidades de cercear a superioridade da vida pública em detrimento da vida privada.
A virtú seria a forma da engenharia política de manter a paz e a estabilidade do governo. Por outro lado, a fortuna diz respeito a “sorte individual” frente às necessidades e circunstâncias do tempo presente em cada momento histórico.
A fortuna deve ser encarada como um desafio político, um desafio a ser conquistado e atraído pela constituição de valores da virtú.
A balança de equilíbrio entre fortuna e virtú pode ser achada na desonra e fracasso do poder político dos governantes, pois o jogo entre manter e obter poder precisa ser equacionado com um conhecimento prático na organização da vida cotidiana ou de qualquer projeto político de governança.
Os projetos políticos autoritários têm plena consciência da doutrina filosófica de Maquiavel.
Nos estudos de Erich Fromm sobre a psicologia social do autoritarismo do nazismo em seu livro “O medo à Liberdade”, o autor aponta em sua análise:

(… )críticas psicossociais do autoritarismo da destrutividade e do conformismo no período do nazismo como um fenômeno com aspectos psicológicos neuróticos que tornam-se freios às escolhas da vida frente à liberdade humana que precisa enfrentar responsabilidades em que ninguém pode se furtar, portanto, (…) a nova liberdade trouxe consigo duas coisas para eles: um maior sentimento de força e, ao mesmo tempo, maior isolamento, dúvida, ceticismo e – oriunda de tudo isso – mais angústia. (FROMM, 1974, p.48).

O medo à liberdade faz com que resgatemos a filosofia de Erich Fromm para que paradoxalmente possamos compreender o momento político que vivemos no Brasil. Para enfrentarmos essa onda conservadora da política fascista precisamos resgatar a ancestralidade de luta dos oprmidos desse território para romper com a ilusão de “que a história do Brasil é uma procissão de milagres.” Enfim, não precisamos de milagres e seus messias. A crise da pandemia, que é a própria crise do capitalismo, exige a reinvenção de uma nova humanidade.

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