2026: Sigo não votando em Lula nem que a vaca tussa (Por Mário Maestri)

Sou historiador de profissão e militante marxista-revolucionário desde 1967. Ou seja, há quase sessenta anos. Isso determina minha visão do atual confronto entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro como apenas um momento do enorme refluxo dos trabalhadores no mundo e, com destaque, no Brasil. Para mim, apresentar esse confronto eleitoral como um embate existencial para nosso país é pura manipulação. Defendo o voto nulo no primeiro e no segundo turno. E não se trata de uma rejeição eleitoral por princípio.

Em 1989, Lula da Silva e o PT concorreram pela primeira vez à Presidência da República, chegando ao segundo turno. A campanha motivou uma amplíssima mobilização popular que extravasou os quadros petistas. As esquinas foram tomadas por militantes e lulistas agitando as bandeiras petistas. Os atos e comícios eram manifestações multitudinárias.

No primeiro turno, uns 150 mil populares reuniram-se na Candelária, no Rio de Janeiro. No segundo, 250 mil se concentraram na frente do Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em 17 de dezembro, o debate entre Lula e Fernando Collor parou o Brasil. As eleições de 1989 foram um confronto político e social entre o mundo do trabalho e o mundo do capital. E compreende-se.

Sob a pressão do forte confronto social então em curso, o programa petista prometia um governo democrático-popular apoiando as necessidades dos trabalhadores e da população. Prometia modificar as condições de vida das classes populares brasileiras, suspender a dívida e romper com o FMI, além de realizar uma ampla reforma agrária.

Prometia-se moradia popular e a ampliação dos serviços públicos — saúde, educação, segurança, lazer. Fortalecer os bancos públicos e controlar estritamente os privados, estatizando-os se abusassem. Uma recomposição significativa do salário mínimo. Apontava-se para transformações socialistas no horizonte.

Ontem e Hoje

Hoje, fazem 37 anos da campanha de 1989. Mais de 17 anos e alguns dedos de governos petistas, sem conceder uma reivindicação significativa aos trabalhadores. Durante 18 anos de governo, Vargas, nacionalista-burguês, promoveu conquistas históricas para os trabalhadores e saltos de qualidade no país — CSN, Vale do Rio Doce, Petrobras, CLT, salário mínimo, Ministério e Justiça do Trabalho, CNPq. Getúlio almejava o domínio da bomba atômica.

O PT não concedeu nada, mas nada mesmo, de estrutural aos trabalhadores. Entre as tantas maldades que distribuiu e manteve encontram-se a escravidão assalariada do salário mínimo; a reforma da Previdência Pública; as restrições ao seguro-desemprego, à pensão por morte e ao abono salarial; a ampliação do crédito consignado; e por aí vai.

É fácil compreender a presente despreocupação com as eleições presidenciais. Em campanha soporífera, Lula e o PT não oferecem nada a uma população e a trabalhadores moídos pelos últimos quatro anos de governo. Atualmente, mais de 80% das famílias brasileiras encontram-se endividadas.

Na sexta-feira, 11, em Porto Alegre, acorreram uns 15 a 20 mil participantes à mobilização petista, em uma população municipal de uns 1,4 milhão de habitantes. Em maio, em Porto Alegre, o show da Banda Fresno reuniu 70 mil populares.

Hoje, na reta final, nas esquinas e nas praças, as bandeiras são agitadas e a propaganda é distribuída sob pagamento. Os transeuntes passam com as mãos nos bolsos para escapar da entrega quase forçada de publicidade. Sem o voto obrigatório, talvez a abstenção fosse a mais votada no primeiro turno.

Palavras ao vento

E a população pouco acredita no quase nada que Lula e o PT prometem, pois são palavras ao vento, como as principais promessas ou sugestões de 2022, quando se propôs revogar ataques aos direitos trabalhistas e as principais privatizações — entre elas, a da BR Distribuidora, a da Eletrobras etc. Em relação aos governos Temer e Bolsonaro, no essencial, deixou-se tudo intocado. Como já fora feito em relação à literal destruição da economia nacional pela privatização promovida por FHC.

Mais ainda, servindo-se da enorme passividade e desorganização das classes trabalhadoras e sociais, avançou-se, como praticamente também se prometera, nem sempre em off, em um amplo programa de concessões, arrendamentos e leilões de empresas e infraestruturas ao grande capital — rodovias, portos, aeroportos etc. Simplesmente privatizações encabuladas.

O passado governo lulopetista permitiu que o sistema financeiro escorchasse a população. Os juros anuais do crédito rotativo de cartões e dos cheques ditos especiais ultrapassam 436% e 141%, respectivamente. Em 2025, o sistema financeiro nacional lucrou 255 bilhões de reais. Embolsou mais que todos os ladrões chinelões desde a dita descoberta do Brasil. Nos últimos quatro anos, 14 milhões de trabalhadores com carteira assinada seguiram conhecendo a escravidão assalariada do salário mínimo. Os reajustes concedidos foram cínicos e liliputianos.

Pagou-se, entretanto, religiosamente a chamada dívida e manteve-se a remuneração estratosférica dos rentistas. E o Brasil seguiu literalmente encolhendo. Entre as grandes nações, somos um verdadeiro fracasso nacional, para não dizer uma piada.

Para não falar do abandono, pelo governo lulista, de qualquer política de autonomia nacional no que importava. Mesmo no Império, sobretudo o Partido Conservador, representante dos escravistas, mobilizava-se para combater os avanços internacionais no Prata, a internacionalização da Amazônia e as pressões estadunidenses, e por aí vai.

Fazendo-se de morto

O lulopetismo submeteu-se aos imperialismos. A submissão nacional foi imensa. Em 2004, a pedido de George W. Bush, após o sequestro-deposição do presidente Jean-Bertrand Aristides pelos USA e pela França, o Exército brasileiro liderou a ocupação militar no Haiti. A população haitiana agredida mantém-se até agora sob o tacão imperialista. E foi ali que os ianques estreitaram os laços com oficiais brasileiros golpistas de 2016 — Augusto Heleno, Santos Cruz, Braga Netto e outros.

No passado recente, vendeu-se o “pré-sal” como um maná negro, caído dos fundos dos oceanos. Em 22 de dezembro de 2010, Lula sancionou o assalto internacional à exploração do “pré-sal”. A Petrobras ficou com as sobras do saque imperialista, ainda vultuosas, entregues como dividendos aos seus acionistas privados nacionais (16%) e internacionais (49%). A vida da população seguiu salgadíssima.

O lulopetista, para cortejar os imperialismos democrata e trumpista, facilitou a redução da Venezuela a protetorado ianque. Lula jamais apoiara as iniciativas latino-americanistas de Chávez — Telesul, Petrocaribe,  banco da ALBA etc. Com Maduro, passou do boicote à oposição aberta e publicizada à Venezuela.

Quando da crise do Essequibo, em dezembro, de 2023, entre Maduro e a Guiana, Lula enviou tropas e blindados à fronteira venezuelana. Após as últimas eleições venezuelanas, desconheceu a  legitimidade do governo de Maduro, exigindo, prepotente, a apresentação de atas eleitorais; condenou a repressão ao golpismo venezuelano. Opôs-se à entrada do país no BRICS, apoiada pela China e pela Federação Russa.

Fazendo-se de surdo

Enquanto Trump agredia a Venezuela, Lula pedia cinicamente que discutissem suas diferenças. Fez-se de cachorro morto diante do sequestro de Maduro, a primeira intervenção armada direta ianque na América do Sul. Não exigiu a libertação incondicional de Maduro quando do sequestro, nem agora na ONU.

Lula faz que não vê a exacerbação intervencionista trumpista na América do Sul, com o “Escudo das Américas”, reunindo os Estados latino-americanos, à exceção do México, Nicarágua, Cuba, Brasil, Suriname e Uruguai. O Escudo facilita a intervenção militar nesses Estados e o cerco do Brasil. Como resposta, Lula aumenta o enorme orçamento militar de um Exército golpista e pró-estadunidense.

Em 4 de agosto, Lula não escutou Múcio Monteiro, ministro da Defesa, mais conservador que o Biotônico Fontoura, propor que o Brasil não resistiria a uma invasão dos USA. 

Lula  viajou amiúde a Cuba, onde encontrava seu amigo Fidel Castro. Para agradar Trump, abandonou covardemente Cuba ao cerco e ao ataque ianques. Não forneceu uma gota de petróleo ao país, ao contrário do México e da Federação Russa. Diminuiu o status já liliputiano do Brasil no cenário mundial e na América Latina.

Tudo será ainda pior

E, agora, em 2026, tentando não perder o apoio do grande capital e do imperialismo, na versão democrata-globalista, os porta-vozes oficiosos do próximo governo petista já prometem aumentar o arrocho e o sofrimento dos trabalhadores e da população.

Promete-se que, caso Lula seja eleito, serão cortadas as despesas obrigatórias — educação, saúde, pensões e aposentadorias — e os benefícios para idosos; será preservado o arcabouço fiscal; serão aumentados o “arrocho fiscal” e o “superávit primário”.

Compromete-se a pagar a dívida em detrimento dos gastos com a população e dos investimentos. Manter o escorcho bancário e financeiro e um salário mínimo de algoz. Ampliar as concessões dos bens e recursos nacionais — petróleo, terras-raras etc. Promete-se um governo pior do que o que finda.

Internacionalmente, se Lula vencer as eleições, manterá a adesão ao grande capital globalista, curvando-se a Trump e às suas ofensivas na América Latina. Reza pela vitória democrata nas eleições de meio de mandato.

Amanhã será um outro dia

Quando havia amplo apoio popular ao lulopetismo, explicava-se o abandono das reivindicações populares pela necessidade de conquistar o voto conservador dito democrático para vencer as eleições. Com a vitória, tudo seria diferente.

Em 2002, a vitória chegou e a população ficou a ver navios. Então, o petismo explicou que se tratava de um “governo em disputa”, a ser dobrado pela pressão popular. Serviu-se uma farta refeição para alguns. Os exploradores comeram à farta e os explorados jejuaram.

Muito logo, Lula, como açoite do capital, não deixou espaço à ciranda de governos em disputa entre progressistas e conservadores. Como propor as doçuras do governo com a boca da população ardendo devido à malagueta da dobradinha Lula-Alckmin?

Nova justificativa para a rendição

Em uma nova justificativa, aceitou-se que os governos lulopetistas haviam sido de centro-direita e mesmo liberais, mas que os trabalhadores deviam seguir votando neles. Era necessário abraçar e se submeter ao capital e ao imperialismo porque, em 2022, o Ogro ameaçava o país. E Lula-Alckmin venceram.

E, agora, em 2026, com os trabalhadores e a população surrados até a exaustão, repete-se a ladainha. Há que seguir apertando o cinto para derrotar a ameaça do fascismo e da barbárie bolsonarista. O trabalhador deve votar, outra vz, em Lula-Alckmin, comer sapo e o pão que o diabo amassou, trabalhar como escravo assalariado e viver sob barbarização crescente.

Eram e são, afirma-se, sacrifícios em defesa da civilidade, cidadania, democracia e Estado de Direito. O que a população desconhece em graus diversos. Desde 2016, a política do “mal menor” mantém as classes populares manietadas à exploração e às manipulações políticas e ideológicas.

À narrativa do “mal menor” associa-se, sempre, a proposta da necessária submissão à aliança com a “direita do bem”, contra os interesses populares, devido ao “desequilíbrio da relação de forças” em favor do mundo do capital. Os oprimidos devem seguir autoflagelando-se, pois, afirma-se, são incapazes de dirigir o combate aos ventos tenebrosos.

Interiorização da derrota permanente

Afirma-se, sem interrupção, a fragilidade dos trabalhadores, mas não se explica a origem dessa inanição, já que, em um passado não tão distante, empreenderam a marcha que levou à fundação dos então combativos PT, CUT e MST. Procura-se interiorizar no mundo do trabalho a ideia de sua fragilidade e derrota permanente. A fragilidade atual da organização e da consciência dos trabalhadores não estava inscrita nos astros. No Brasil, ela decorre de longa e grave derrota política, com salto de qualidade nos últimos anos.

A internacionalização, a desnacionalização e a desindustrialização da economia nacional foram impulsionadas pelo grande capital, com o apoio dos governos do país, petistas incluídos, desde o fim da ditadura e do projeto nacional-desenvolvimentista de coturno, em 1985. Em 1980, o Brasil era a oitava nação do mundo em industrialização e a indústria de transformação respondia por uns 21% do PIB. Em 2024, caíra para a décima quinta posição e, em 2025, a indústria de transformação recuara para  13,7% do PIB nacional.

Hoje, o centro dinâmico da economia nacional é constituído pelo agronegócio, pela mineração e pela energia — soja, milho, algodão, açúcar, etanol, carne, minérios, energia, madeira etc. O agronegócio ocupa esparsa mão de obra e seus empresários, fixados nas exportações, mantêm-se alienados às questões nacionais e simpáticos à dependência internacional.

Um partido para amansar os trabalhadores

De país neocolonial em desenvolvimento industrial, o Brasil metamorfoseou-se em “nação neocolonial globalizada”, com a economia primarizada e a administração política escapando das mãos das classes dominantes no Brasil para as dos grandes capitais imperialistas, sobretudo ianques e chineses.

Uma das razões para o capital nacional e internacional apoiar o petismo foi a sua capacidade de impulsionar a desmobilização, a desorganização e a desmoralização dos trabalhadores, de mãos dadas com a CUT, durante aquela metamorfose. Mas também a metamorfose contrarrevolucionária do PT não obedeceu ao destino, mas a pressões de classe.

No início dos anos 1980, o colaboracionismo dominou a direção petista com a derrota da proposta de organização do partido a partir de núcleos de base. A Articulação, tendência lulista, impôs a proposta de partido dito de “massas”, que enterrou qualquer influência dos trabalhadores no PT, que abandonaram uma militância partidária já sem sentido.

Integração ao Estado burguês

As decisões ficaram nas mãos da direção do partido, após resoluções gerais tomadas em congressos dilatados no tempo, nos quais os delegados não saíam mais das bases, cabendo à “massa” petista a função de eleitores obedientes.

Dominaram os congressos e a direção petista os intelectuais, os funcionários públicos, os burocratas sindicais, os pequenos e médios empresários e, sobretudo, os parlamentares e seus assessores. O peso do eleitoralismo desenfreado pode ser aquilatado na eleição, em 2024, de 3.118 vereadores em todo o país. 

As direções petistas, fixadas no eleitoralismo, comprometeram a independência sindical, desorganizaram e afastaram os trabalhadores das ruas, transformados em produtores, consumidores e eleitores passivos. Os trabalhadores desapareceram da vida do partido.

Mandando o povo para casa

O lulopetismo jamais se serviu do embate classista após, o grande ciclo grevista que deu origem ao PT e à CUT. No frigir dos ovos, jamais organizou uma oposição e uma luta popular efetiva contra o golpe de 2016. Acomodou-se e, mesmo, contribuiu para sua estabilidade.

Em 26 de outubro de 2017, na cidade mineira de Salinas, Lula orientou o abandono do “Fora Temer” pela organização das eleições de 2018, nas quais pensava concorrer. Em 7 de abril de 2018, quando a polícia procurou Lula para prendê-lo na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ele não deu um tiro no peito, como Vargas, nem chamou à resistência, como Brizola.

Ao contrário, Lula da Silva entregou-se como um cordeirinho, afirmando confiar na Justiça golpista. Mandou para casa os milhares de trabalhadores que afluíam em sua defesa. Em 29 de novembro de 2019, em liberdade, quando um jornalista do El País lhe perguntou se chamaria a população às ruas, reconheceu a eleição fraudulenta de Jair Bolsonaro, em 2018, e propôs que a população se centrasse nas eleições municipais de 2020 e presidenciais de 2022.

O menos péssimo

O petismo e suas extensões, da esquerda liberal e da esquerda que posa como revolucionária, pedem aos trabalhadores que votem, no primeiro ou, em último caso, no segundo turno, em um candidato péssimo para impedir a vitória de outro que implantaria no país o neofascismo ou coisa semelhante. 

Jair Bolsonaro governou nos limites da Constituição nacional burguesa, com forte viés conservador e liberal, e não como fascista ou mesmo neofascista. Ao ser derrotado, abriu discussão com oficiais direitistas e golpistas, sob o aviso do governo Biden de que não aceitaria golpe no Brasil.

No governo, Lula ou Flávio atenderão às exigências dos setores mais dinâmicos do capital. Quanto ao comportamento geral, Lula adotará uma postura formalmente civilizada, ao gosto das classes médias letradas. Flávio, quanto ao capital, fará o mesmo, repetindo a postura populacheira e obscurantista do pai, ao gosto de seus eleitores cativos e rústicos.

Não há possibilidade de o Coisinha, se vencer, impor no Brasil o fascismo, que é uma ordem nacionalista, autonomista, desenvolvimentista, dominada pelo capital monopólico nacional, apoiada na superexploração autoritária e policial dos trabalhadores.

As classes dominantes entregam as rédeas do governo e do poder a um líder fascista, sem saber quando lhes serão devolvidas, como recurso extremo, quando se sentem ameaçadas pelo avanço da revolução proletária. Hoje, no Brasil, as classes trabalhadoras estão sob controle quase pleno e as classes dominantes avançam seus projetos livremente.

Imperialismo antifascista

O imperialismo globalista é antifascista, já que exige a maior submissão possível, política e econômica, das nações periféricas, realidade que o Brasil conhece há décadas. O imperialismo trumpista objetiva reduzir as nações a protetorados e colônias. Podem, sempre, servir-se de governos ditatoriais de diferentes tipos, o que é outra coisa.

Um governo bolsonarista colaborará com o trumpismo, mas com limites. Trump, se perder as eleições de meio de mandato, a se realizarem no início de novembro de 2026, se movimentará com a agilidade de um pato manco na conclusão de seu governo, acossado pelos democratas e com dificuldades de emplacar candidato em 2028.

A produção dos “novos bárbaros” bolsonaristas do agronegócio compete com a dos USA e depende estruturalmente do mercado da China, que estendeu, e muito, sua intervenção econômica no Brasil. No poder, como o pai, Flávio se acomodará necessariamente a essa realidade. O Brasil não é a Venezuela e os capitais dominantes não entregarão o país à discrição do primogênito do Mito soluçante.

O grande capital incide fortemente sobre a campanha presidencial, mas não se encontra unificado, não se opondo e, até mesmo, em alguns casos, talvez majoritariamente, optando pelo lulopetismo, já que o Coisinha é sempre uma mina vagante. Mas deseja resultado apertado para manter Lula no cabresto curto, o que enseja, sempre, um alto risco eleitoral.

Trump parece ter mais cacife para intervir nas eleições atuais, ainda que o capital e imperialismo globalistas sigam fortíssimos. Porém, céticos perguntam quem, Trump ou o globalismo, tem o segredo das maquininhas eleitorais, que sugerem serem capazes de decidir sobretudo eleições apertadas. As urnas eletrônicas, sem possibilidade de comprovação dos votos depositados, são uma caixa de Pandora, mantida fechada pelas facções dominantes do grande capital nacional e internacional.

Eleição dos escândalos

Nas presentes eleições, não há debate sobre os programas propostos, o que interessa a ambos os candidatos, com intenções antipopulares. A campanha concentra-se em megaescândalos, com destaque para a corrupção do STF e do ministro Alexandre de Moraes, o Xandão, agitada freneticamente por toda a grande imprensa. Isso tem colocado essa instituição sob um escrutínio manipulado da população.

A heroicização do STF, como paladino da democracia, vem de longe, com o PT e suas extensões recorrendo assiduamente ao tribunal para questionar medidas do governo Bolsonaro (2019–2022). A luta contra a ofensiva conservadora dava-se a partir da Justiça, e não da mobilização popular.  Desde 2022, o lulopetismo tem Xandão como seu herói máximo no STF.

Indicado por Michel Temer, Alexandre de Moraes foi combatido duramente pelo PT até que, com a eleição de Lula, em 2022, trocou de camisa, sem qualquer pudor, e começou a distribuir golpes, a torto e a direito, nos golpistas raízes e em bolsonaristas incautos que participaram das manifestações em Brasília. Xandão passou a se comportar como o dono da bola, com direito a fazer com ela o que quisesse.

A revelação da venda do passe de Alexandre de Moraes para Vercaro, o arqui-escroque do Banco Master, por 131 milhões de reais, através do escritório maravilha de sua mulher, com quem é casado em comunhão parcial de bens, ou seja, participando em 50% dos lucros auferidos por ela, repercute politicamente.

A denúncia respinga na candidatura de Lula-Alckmin, que se mantém em um quase silêncio sepulcral, como se não se tratasse de algo que dissesse respeito ao governo. Ninguém propõe reforma radical ou mesmo extinção do STF, por estarem envolvidos nessa tragédia satírica. O próximo presidente poderá indicar até cinco juízes, podendo controlar a instituição.

Um tribunal das classes dominantes

A politização do STF e sua transformação em um balcão de negócios comprometem sua proposta como instituição vestal, pontificando sobre as questões máximas da nação, por sobre as injunções de toda ordem. Visão que o lulopetismo tem abraçado em sua permanente defesa das instituições burguesas e estatais, que parasita com sucesso.

Desde o Império, o então Supremo Tribunal de Justiça e o órgão que o sucedeu quando da República destacaram-se por votar sistematicamente contra os interesses dos trabalhadores — no Império, jamais moveram um dedo pelos trabalhadores escravizados, contra os castigos físicos e outras barbaridades.

Nos últimos tempos, o STF votou pela terceirização; contra o direito de greve; pela desvinculação trabalhista dos trabalhadores de aplicativos; pela prevalência do negociado sobre o legislado; pela diminuição do prazo de reclamação de depósitos do FGTS não depositados; pelo fim da estabilidade após 10 anos de trabalho e da necessidade de justa causa para demissão e aí vai ao infinito. Apoiou a prisão de Lula, negou habeas corpus — Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux e Cármen Lúcia.

Voto nulo

O voto nulo consciente, no primeiro e no segundo turno, não é negação por princípio dos pleitos eleitorais, nem mera reação à obediência dos governos petistas ao capital. É momento tático de acumulação de forças que rompa a trajetória do voto dos trabalhadores e da população em candidatos burgueses, sobretudo apoiada na proposta do mal menor.

É um pequenino passo, concreto, na reversão do colaboracionismo e do cretinismo eleitoral no qual chafurdam não apenas o PT e o PSOL, mas também pequenos grupos que se reivindicam da esquerda revolucionária e votam, disciplinados, no petismo, sobretudo no segundo turno, usufruindo da adesão ao Estado através das diversas benesses que lhes são outorgadas.

O PT e o PSOL, este ano, vão receber do fundo eleitoral pouco mais de 615 e 130 milhões de reais. Os partidos nanicos de esquerda, sem parlamentares, sem eleitores, recebem, de mão beijada, do Estado burguês, três milhões e trezentos mil reais. Sem o dinheiro do Estado burguês, não se sustentariam. No Brasil, os melhores e mais fáceis negócios são abrir uma igreja ou um partido!

O voto nulo é um pequeno passo tático na perseguição dos objetivos estratégicos do mundo do trabalho. Para frutificar, sua proposta deve unificar, junto ao movimento social, todos os que abraçam a luta pela destruição da ordem dos patrões e pela construção de uma sociedade socialista, a única capaz de nos salvar e de salvar o mundo da barbárie galopante.

 Mário Maestri, 78, é sul-rio-grandense e historiador. Publicou, entre outros, Revolução e contra-revolução no Brasil.(1530-2019) 2 ed. FCM Editora.

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