Davi Galhardo Doutorando em filosofia pela PUC-Rio
A coluna “Ilustríssima”, do jornal Folha de São Paulo de 22 de agosto de 2021, amanheceu com um texto cuja pretensão visava homenagear a memória de Glauber Rocha, em virtude do quadragésimo aniversário de seu falecimento. Trata-se do escrito intitulado “Glauber Rocha, morto há 40 anos, influenciou e brigou com gigantes do cinema”, de Claudio Leal, jornalista e mestre em teoria e história do cinema pela USP. Ocorre, no entanto, que o elogio pretendido reproduz os fundamentos daquilo que o baiano passou a vida a enfrentar.
“Glauber Rocha, que morreu há 40 anos, teve forte influência no cinema internacional, fato raro para artistas de países periféricos. Manteve diálogo profícuo com grandes nomes do meio cinematográfico, como Visconti, Rossellini e Buñuel, e influenciou cineastas de diferentes gerações, de Godard, passando por Scorsese, a Bong Joon-ho”, diz o resumo do escrito. De fato, o Glauber apresentado por Leal é um andarilho da cultura, estabelecendo e desmanchando relações pessoais com figuras de proa do cinema mundial. Sempre atento, esse Glauber seria, portanto, alguém que soube extrair de seus pares muitos elementos importantes para sua própria obra. De igual modo, ainda segundo Leal, ele também se tornou figura paradigmática para Bong Joon-ho e tantos outros diretores da sétima arte mais contemporânea.
A pergunta que fica, no entanto, é: o que sobrou de tudo isso? O que resta da teoria e da prática desenvolvidas por Glauber? Sobre isso, a interpretação de Leal silencia completamente. Explico-me: em sua análise fundamentalmente colonizada, o colunista da Folha perde de vista as relações indissociáveis de Glauber com as questões brasileiras, com as questões sociais, com a luta política, com a cultura brasileira e latino-americana. Leal limita-se a apresentar-nos um Glauber completamente subserviente ao “primeiro mundo”. Em sua perspectiva, essa personagem histórica foi importante por ter influenciado Godard, Scorsese etc., e não por suas próprias posições teórico-práticas. Aqui, temos o eterno retorno do discurso colonialista. É por ter servido adequadamente à cultura dominante que Glauber seria digno de méritos. É por ter dado combustível a “alta cultura” que ele mesmo pode agora tornar-se mais uma presa abatida pela ordem dominante. Positivamente, seu assento estaria agora garantido nos museus da cultura, isto é, nos manuais de história do cinema. Em suma, essa coluna baliza o trabalho de Glauber a partir da ótica do primeiro mundo, transformando-o em mais um bem cultural – situação que não pode ser vista por nós, seus contemporâneos, sem horror.
Certamente, a coluna em pauta é muito bem informada. O jornalista em questão demonstra com maestria que ele mesmo é um colunista social bem informado. Bem informado, porém, não ultrapassando a dimensão de um colunista social que não compreendeu o trabalho do negativo.
Imediatamente após o primeiro turno, Rio de Janeiro, Pará, Paraná e outros estados tiveram grandes manifestações contra o avanço eleitoral da extrema-direita. Mais manifestações estão marcadas ao longo deste mês. O papel dos comunistas é o de se juntar a tais resistências concretas, para além do calendário eleitoral, enfatizando que só com a luta e…
Sou historiador de profissão e militante marxista-revolucionário desde 1967. Ou seja, há quase sessenta anos. Isso determina minha visão do atual confronto entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro como apenas um momento do enorme refluxo dos trabalhadores no mundo e, com destaque, no Brasil. Para mim, apresentar esse confronto eleitoral como um embate existencial…
Em memória do camarada Serge Goulart No longuíssimo processo da evolução das espécies, a seleção natural e a deriva genética determinaram que os animais superiores se relacionassem por instinto diante da natureza. A evolução hominídea que resultou nas diversas espécies do gênero Homo, entre elas, o Homo sapiens, consolidou-se na passagem da reação instintiva animal…
A humanidade sempre sonhou com o progresso. Desde a roda até os satélites, desde o fogo até a inteligência artificial, cada geração acreditou estar caminhando rumo a um futuro melhor. Contudo, há um ponto delicado da história em que o avanço técnico deixa de servir ao ser humano e começa, silenciosamente, a reorganizar a própria…
As cartas pertencem ao passado, dizem os moderninhos. De fato, a era digital parece ter enterrado para sempre a agradável surpresa de uma carta ou a alegria daquela ansiosamente esperada. É pena que as novas gerações não escrevam cartas e tampouco tenham interesse nesse antigo hábito considerado demasiadamente lento ou ineficaz para os tempos que…
Por MÁRIO MAESTRI* Em memória do historiador Théo Lobarinhas Piñero 1. Minha companheira Florence e eu, visitando lojas de móveis usados, na rua do Senado, no Rio de Janeiro, vimos que nos daríamos mal, pois os proprietários se comportavam, todos, como se fossem antiquários. Uma cadeira quebrada é vendida como um trono principesco. Estávamos desistindo,…
GOVERNO, ASSEMBLEIA LEGISLATIVA E EMPRESÁRIOS PREPARAM REPRESSÃO CONTRA O POVO BOLIVIANO O governo, encurralado pela crescente rebelião popular, especialmente do setor camponês, que exige a renúncia do presidente Rodrigo Paz, que, após seu fracassado “corredor humanitário”, optou por recorrer ao aparato repressivo do Estado burguês (Polícia e Exército) para afogar em sangue, se necessário, a…
Hoje, faz 78 anos da Nakba, a maior tentativa de destruição do povo palestino e também a marca de nascença do Estado de Israel. Muito já foi escrito sobre o período e o território da Nakba, a grande catástrofe planejada contra o povo palestino, que levou a expulsão forçada de seu território milenar de cerca…
A Toupeira realizou nesta quarta-feira (06/05) um ato público virtual em celebração ao 1º de Maio, Dia Internacional de Luta da Classe Trabalhadora. A atividade foi transmitida ao vivo pelo canal da TVACOMUNA no YouTube, reunindo convidados de diversas regiões do Brasil. Com uma proposta editorial voltada à crítica social, econômica e política contra as…
É com imensa satisfação e um profundo senso de privilégio que apresento ao público esta nova edição, revista e ampliada, de Os senhores da serra: a colonização camponesa italiana do nordeste do Rio Grande do Sul (18751914), do historiador Mário Maestri. Conhecendo a trajetória do autor, a quem considero um amigo, posso assegurar que o…