A “violação do século” e a luta palestina

Ashjan Sadique Adi

Sou filha de pai e mãe palestinos, imigrantes, que residem em Corumbá/MS, há mais de 50 anos, onde existe uma comunidade palestina com aproximadamente 300 palestinos/as, fruto da Resolução 181 da ONU em 1948, que dividiu o território Palestino em dois Estados – o Estado da Palestino e o Estado de Israel, ficando as áreas de Jerusalém e Belém sob controle internacional. 53% do território seriam atribuídos aos 700 mil judeus/as, e 47% aos 1 milhão e 400 mil palestinos/as. Neste sentido, Israel é um Estado fundado no assassinato de milhares de palestinos/as, assim como na expulsão de 800.000 nativos/as de suas terras, como discorre o professor israelense Ilan Pappé em sua obra A Limpeza Étnica da Palestina enquanto um processo sistemático que tem seu início ao fim do século XIX, em 1897. E a frase “uma terra sem povo para um povo sem terra” traz uma mentira em sua primeira parte: a Palestina não era uma terra sem povo, lá viviam palestinos há pelo menos 11.000 anos, conforme nos comprova a cidade de Jericó. Atualmente, os palestinos consistem na maior população de refugiados/as do mundo com cerca de 5 milhões nessas condições.

Era interessante aos países hegemônicos ter um país com base militar que controlasse os recém Estados-nação árabes e as possibilidades de uma guerra na região e a escolha da Palestina enquanto lar Nacional Judeu foi decidida por este importante aspecto geopolítico.

A respeito do sionismo, Theodor Herzl organizou o 1° Congresso Sionista na Basileia, Suíça, em agosto de 1897. Seu objetivo foi a escolha de um lar nacional judeu entre as opções da Patagônia, Uganda, Madagascar, Alasca ou Palestina.  Ou seja, há questões políticas e territoriais implicadas neste processo. A I Guerra Mundial com a vitória dos países europeus e a derrota definitiva do império turco-otomano, que embora pouco se fale, existiu até 1923, desestabilizou o Oriente Médio e seus territórios. Nesse processo, era interessante aos países hegemônicos ter um país com base militar que controlasse os recém Estados-nação árabes e as possibilidades de uma guerra na região e a escolha da Palestina enquanto lar Nacional Judeu foi decidida por este importante aspecto geopolítico.

Neste sentido, Israel seria importante militarmente, geopoliticamente, ou seja, seria o braço armado do Ocidente no Oriente. Israel, enquanto Estado sionista e de ocupação, de apartheid, de regime de exceção, existe na Palestina há 72 anos contra a existência milenar do povo palestino. Em vista disso, juntou-se a uma necessidade militar, geopolítica de controle do Oriente Médio, a necessidade de uma terra para um povo historicamente disperso, em uma região sem grandes barreiras geográficas, e com a instrumentalização de uma narrativa bíblica que legitimaria a presença do Estado israelense na Palestina, mesmo que a violência e todas as atrocidades cometidas por Israel se mostrem totalmente contraditórias com as mensagens genuinamente deste livro sagrado e de seu representante maior, Jesus Cristo.

20 anos após o 1° Congresso Sionista, em meio à 1° guerra mundial, é escrita a Declaração Balfour, em novembro de 1917 pelo secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour, dirigida ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, referente à intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do Lar Nacional Judaico na Palestina, ou seja, de colonizar a Palestina a benefício dos judeus, caso a Inglaterra derrotasse o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região.

Poucos anos depois, em 1922, a Liga das Nações (antecessora da ONU) aprovou o Mandato Britânico da Palestina, que se responsabilizou por colocar em prática a Declaração Balfour, isto é, favorecer o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional judeu como forma também de redimi-los do Holocausto. Ou seja, a questão Palestina vigora há pelo menos 103 anos, desde a Declaração Balfour de 1917, e não há 72 anos. E faço a ressalva de que não se trata de um conflito, trata-se de um regime de colonização, opressão e ocupação. A exemplo do Holocausto, a Questão Palestina igualmente não se constitui num conflito.

Há um número aproximado de 204.000 muçulmanos no Brasil. E aproximadamente 18 milhões de árabes, se considerados os imigrantes e seus descendentes, concentrando o Brasil a maior população árabe fora do Oriente Médio.

Sobre a Palestina, bom, a Palestina nos parece que está distante, mas não está, temos aproximadamente 50.000 palestinos no Brasil, entre imigrantes e seus descendentes como eu, sendo o maior número na região Sul do Brasil. Além da influência árabe presente no Brasil na culinária, na arquitetura, na música, na literatura, e até no nosso cafezinho de todos os dias, já que o plantio da cana e do café foi levada pelos africanos islamizados do Norte da África durante a conquista árabe-islâmica da Península Ibérica no curso de 8 séculos – de 711 a 1492 – e posteriormente trazida pelos portugueses para cá. E a questão do Islã, com o aumento de conversões no país, a reativação de mesquitas recentemente como a de Guarapuava e Ponta Grossa no Paraná, com um número aproximado de 204.000 muçulmanos no Brasil. E de aproximadamente de 18 milhões de árabes, se considerados os imigrantes e seus descendentes, concentrando o Brasil a maior população árabe fora do Oriente Médio.

Entre tantas violências e violações infringidas aos palestinos e palestinas desde prisões sem julgamento e de menores de idade, demolições de casas e prédios, usurpação de terras, destruição de oliveiras (uma das principais fontes de subsistência dos palestinos/as), humilhações, check points que impedem o direito dos palestinos de ir e vir, impedindo até mesmo mulheres grávidas de chegarem ao hospital, caso entrem em trabalho de parto nestes bloqueios, mulheres que, por terem naturalmente a capacidade de reproduzir, são as maiores vítimas dos soldados israelenses que usam o slogan para as gestantes palestinas – “um tiro, duas mortes”. Como se não bastassem estas violências históricas sobre os palestinos/as, enfrentamos agora o Acordo do Século, preconizado por Donald Trump e Benjamin Netanyahu falaciosamente chamado de “Plano de Paz”.

O documento tem cerca de 80 páginas, que pretende solucionar o que é comumente chamado de conflito Israel/Palestina há décadas. O presidente norte-americano na presença do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu e na ausência de Mahmoud Zeidan Abbas, atual presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, propôs uma suposta solução que passa pela criação de dois estados para Israel e Palestina (criação já estabelecida pela resolução 181 da ONU em 1948, mas nunca assumida por parte de Israel), embora reiterando que Jerusalém deve permanecer uma capital indivisível.

O plano de Donald Trump daria a Israel o controlo total de Jerusalém e a possibilidade de anexação do Vale do Jordão, uma região fértil que faz fronteira com a Jordânia prevista para julho deste ano e considerada ilegal pela ONU.

Um acordo unilateral apenas entre os países imperialistas de Israel e EUA (o que, portanto, não é um acordo no real sentido da palavra)e apoiado pelo atual governo brasileiro, mas rejeitado imediatamente pelos palestinos, em seguida pela ONU, assim como por todos os apoiadores e apoiadoras da Palestina pelo mundo, por representar, na realidade, o fim da moralidade, da justiça, da integridade e da dignidade que já pouco resta aos palestinos.

Com uma leitura atenta ao documento, constatamos a instrução de que “o Estado da Palestina não pode aderir a nenhuma organização internacional se tal associação contradisser os compromissos do Estado da Palestina com a desmilitarização e cessação da guerra política e judicial contra o Estado de Israel”. Em outras palavras, isso significa a não adesão à proteção do Tribunal Penal Internacional.

E assim seguimos, pois nós, palestinos, como diz Mahmoud Darwish, sofremos de um mal que não tem cura, a Esperança.

No fundo, as reais intenções do plano é deslegitimar a resolução 194 da ONU que estabelece o direito ao retorno dos refugiados palestinos desde 1948, assim como o direito promulgado, mas não efetivado, da Jerusalém Oriental como capital do estado Palestino, destituir a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA). Entretanto, o mesmo plano aprova a ocupação israelense permanente da Cisjordânia e à anexação total de quase todas as colônias judaicas ilegais construídas na Palestina contrariando as leis internacionais.

Gideon Levy, do diário israelense Haaretz, denuncia este acordo como “o prego final no caixão daquele cadáver ambulante conhecido como solução de dois estados”, em que o direito internacional, as resoluções da comunidade internacional e, especialmente, das instituições internacionais continuam sendo não ouvidos.

De toda forma, a questão Palestina trata-se de uma causa humana, universal. Solidarizar-se com a Palestina é uma responsabilidade de todos/as nós, é uma questão de humanidade e de solidariedade internacional, com a finalidade de uma pressão mundial para que Israel respeite as leis internacionais e cumpra as centenas de resoluções da ONU que por ele são desrespeitadas.

E embora a Palestina pareça ser uma realidade que nos é distante, quando a gente se sensibiliza e se humaniza, qualquer ser humano em estado de sofrimento, violência ou opressão é relevante para nós, é uma vida relevante, não importa se está na América Latina, na Ásia, na África ou no Oriente Médio, enquanto continentes e regiões historicamente colonizadas, exploradas e atravessadas por guerras originadas pelos países hegemônicos e sua falácia de querer nos levar a paz e a civilização, nós que não pedimos suas intervenções.

Nesse sentido, a luta palestina está ao lado e caminha junto das lutas dos povos e grupos historicamente oprimidos, a luta dos negros e negras, dos indígenas, das mulheres, das pessoas do campo e das florestas, das pessoas com deficiência, das pessoas LGBT, uma luta daqueles que não são brancos, católicos, heterossexuais, urbanos, ocidentais etc. É por essa lógica que dizia Mandela: “Nós sabemos muito bem que nossa liberdade é incompleta sem que haja liberdade para os palestinos.” E assim seguimos, pois nós, palestinos, como diz Mahmoud Darwish, sofremos de um mal que não tem cura, a Esperança.

Ashjan Sadique Adi é militante palestina, psicóloga social, doutoranda em Psicologia na Universidade de São Paulo (USP) e Secretária de Mulheres da FEPAL – Federação Árabe-Palestina do Brasil. Gentilmente, atendeu a nossa solicitação. #FreePalestine

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