“Morra quem tem que morrer”, viva quem conseguir lutar

Victor Hugo Viegas Silva

Será a excentricidade de apenas um prefeito de Itabuna, pequena cidade do interior da Bahia? Estamos falando de umas das ideologias mais influentes do nosso tempo que hoje se traduz em outros termos, como: “não tem como pararmos o vírus”, “infelizmente só vai melhorar quando todos estivermos infectados”. E tem um nome: imunidade de rebanho.

A imunidade de rebanho é uma ideologia. Uma ideologia que defende que o vírus é igual uma chuva, vai pegar 70% de vocês no Brasil. Solange Vieira, assessoria especial que atuou na reforma da previdência, resumiu aqui: “É bom que as mortes se concentrem entre os idosos… Isso melhorará nosso desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário”.

Pobres morrem quatro e meia vezes mais que ricos.  Domicílios com mais de 5 pessoas tem 20% de infecção, o dobro das com duas pessoas ou menos. Escolaridade até Ensino fundamental mostra 23% de infecção, quase cinco vezes mais do que o ensino superior que é cerca de 5%. Pretos têm 19% de infecção – mais que o dobro dos 7,9% dos brancos.

Reinald Reinhach, no episódio Vírus de Classe do Luz do Fim da Quarentena, afirma que São Paulo chega na tal IMUNIDADE DE REBANHO, que é quase 30% da população ter contato com o vírus da COVID-19. Mas a que preço? Só na cidade vai ter mais de 30 mil mortos. Quem vai morrer? De acordo com o estudo divulgado por Reinhach, basta ver as taxas de prevalência (infectados por cem testados) e as taxas de mortalidade para sabermos. Lembremos que São Paulo é a segunda cidade do mundo em número de mortos.  Reinhach, médico sem suspeitas de grandes simpatias pela esquerda, afirma que temos duas pandemias: a pandemia dos pobres e a pandemia dos ricos. Pobres morrem quatro e meia vezes mais que ricos.  Domicílios com mais de 5 pessoas tem 20% de infecção, o dobro das com duas pessoas ou menos. Escolaridade até Ensino fundamental mostra 23% de infecção, quase cinco vezes mais do que o ensino superior que é cerca de 5%. Pretos têm 19% de infecção – mais que o dobro dos 7,9% dos brancos.

Reinhach fala que precisamos de cerca de 30 mil mortos para alcançar a imunidade de rebanho em São Paulo. Mas quem vai morrer, quem vai ser mais infectado? Os pobres. Dessa forma não apenas existem duas pandemias. Os pobres estão morrendo para que os ricos não precisem ser infectados. A imunidade de rebanho é alcançada, assim, com riscos mínimos para a elite brasileira.

Era isso que queria dizer Guilherme Benchimol, economista da XP investimentos, quando em maio afirmou: “Acompanhando um pouco os nossos números, eu diria que o Brasil está bem, o pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, a classe alta”. Era o que Samy Dana queria dizer quando falava que “já tínhamos chegado ao pico da doença” em abril desse ano.

Uma ideologia que mata

Trump comemorou em 2 de julho os dados que mostram que a economia criou o número recorde de 4,8 milhões de postos de trabalho em junho e uma consequente queda do desemprego.  Poucos dias atrás, ele em tom de “piada” disse que reduziu testes que reduziu testes para esconder os casos de COVID-19. Richard A. Epstein afirmou em março que morreria 500 pessoas (depois mudou pra 5 mil, depois 50 mil), foi ouvido pelo governo e na hora em que foi escrito esse texto, haviam 127 mil mortes no contador oficial.

Na Inglaterra, Boris Johnson falou que “Uma das teorias é que talvez você possa pegar esse vírus de frente, levar tudo de uma só vez e permitir que a doença, por assim dizer, se mova pela população, sem tomar tantas medidas draconianas”. Hoje ele nega, mas Pierpaolo Sileri é firme no desmentido: “Ele queria imunidade de grupo”.

Na Suécia, onde foi aplicado o isolamento vertical, é terrível ser velho: “Em Estocolmo, 88% dos pacientes em casas de repouso morreram nas casas de repouso, apenas 12% foram hospitalizados. O problema remonta à década de 1990, quando começamos a analisar a relação custo-benefício de certos tratamentos para certos grupos de pacientes. Mais idosos teriam sobrevivido se lhes fossem oferecidos cuidados hospitalares”, diz Gustafson.

Não é só por lá. Nos EUA, 42% dos mortos da pandemia – de acordo com a Forbes! – foram em casas de cuidado, especialmente de idosos e portados de necessidades especiais. Trabalhadores e abrigados. E nisso se envolvem todas as administrações. Para dar apenas um exemplo, em abril o democrata Cuomo de Nova York, por exemplo, inseriu pacientes de covid-19 em um abrigo com 120 leitos quando já se sabia do enorme risco que isso representava. Depois disso, 18 dos residentes morreram, 58 foram infectados e pelo menos 50 funcionários foram infectados. Em Nova York morreram mais de 6 mil residentes de Instituições de Longa Permanência (ILIPIS no Brasil). No Brasil, corremos de risco de morrerem pelo menos 33 mil dos nossos residentes e eu mesmo fiz matéria sobre um abrigo em que seis mortes evitáveis de idosos aconteceram. Elaborei uma espécie de programa mínimo observando a experiência de luta dos abrigos na Europa e a realidade específica do Brasil que pode ser sintetizada assim:

Precisamos de EPIs, desinfecção diária, protocolos de cuidado, interdição imediata dos descansos coletivos, deslocamento dos idosos de espaços fechados para outros mais ventilados, medidas específicas de proteção de idosos e trabalhadores para cada instituição e espaço. Precisamos lutar para que os trabalhadores do cuidado tenham voz, valorização, protagonismo e condições de se cuidar e cuidar adequadamente das pessoas que estão sob sua proteção.

Visão de uma página do Manual de auto-organização de luta contra a covid-19 no local de trabalho

Para que isso seja possível, é necessário um compromisso das famílias dos idosos com seus parentes, uma aliança dessas famílias com os trabalhadores e um compromisso por boas condições desses lares. Também é necessário que todos nós, trabalhadores que um dia seremos idosos, tomemos o compromisso de defender ativamente esses trabalhadores, ajudá-los a obter orientações e a se organizarem onde eles têm dificuldade de fazê-lo.

Ideologias pela vida?

Em Goiás, um professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) chamado Thiago Rangel sugere que reduzir as mortes em 60% é uma boa saída com a proposta da quarentena alternada; e vou citar para que vocês acreditem que não exagero quando digo que ele propõe uma eficiência de óbitos:

Um fechamento desse tipo é mais eficiente em termos de óbitos e economia pois fica 50% do tempo fechado e salva 61,5% das pessoas que poderiam ser salvas, ou seja, 8.360 pessoas. Temos que sair da dicotomia economia e salvar vidas. O isolamento visa evitar que uma pessoa infectada não encontre uma pessoa saudável. 

Raquel Rolnik faz algo muito diferente. Ao invés de pensar como melhor espaçar as mortes, ela conseguiu especializar as mortes que efetivamente acontecem. Dessa forma, atribuiu a responsabilidade onde ela está: as infecções não são responsabilidade individual da população que não se cuida, são causadas pela locomoção e pela aglomeração do trabalho. O importante trabalho de Raquel pode ser conferido aqui.

Em sentido parecido vai a proposta da UneAfro dos Agentes Populares de Saúde, que reconhece que “O SUS é uma conquista importante e lutamos por ele. Mas, no cenário de pandemia de COVID-19, caso a pessoa esteja doente e receba a recomendação de ficar em casa, pode ter necessidade de auxílio para atravessar melhor este período”. Ao combinar denúncia e ação prática solidária, resolve uma questão imediata e nos dá fundamento para combater o descaso e a negligência assassina que nos provoca a termos que nos virar para combatermos as infecções nesse nível.

O Observatório de Favelas criou, acredito, um programa mínimo para as organizações que vêm combinando essa dupla prática: denúncia do contexto geral com ação localizada imediata. Deveria ser objeto de discussão e acordo entre as várias organizações que pretendem sobreviver a esse período e seguir lutando. A proposta se chama Transparência de dados e não flexibilização do isolamento: Pelo direito à vida e à saúde plena:

 Ambos os pontos aqui explicitados consolidam, diante de circunstâncias históricas e atuais, uma escolha política por seguir invisibilizando e negando direitos a pessoas e territórios que carregam consigo o funcionamento das cidades e suas economias. Definem, ao fim e ao cabo, os cidadãos dispensáveis, condenados pelas institucionalidades à morte, por vírus ou tiro. Direito à informação e à garantia de medidas mínimas de isolamento são centrais para que moradores de favelas e periferias, já atingidos por violências estruturantes da sociedade brasileira, reiteradas por categóricas manifestações institucionais racistas, sexistas e classistas, possam de fato ter direito à vida e à saúde plena no contexto do que estamos vivendo.

Para concluir, chamo a atenção para uma última elaboração que busca colocar a responsabilidade onde ela está e ao mesmo tempo armar trabalhadores para se defender. Chama-se Manual de auto-organização de luta contra a covid-19 no local de trabalho e foi elaborado por um coletivo de trabalhadores chamado Invisíveis. É uma modesta contribuição, mas bastante relevante pela visão de conjunto que apresenta. Estamos tentando nos armar ideologicamente para sobreviver. Eles estão armados para nos matar. Precisamos fazer o nosso.

Victor Hugo Viegas Silva é trabalhador da educação pública da Universidade Federal de Goiás. Todas as referências/fontes das informações estão em hiperlinks. E-mail: badernaemiseria@gmail.com.

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