Brasil: o extermínio como experimento político

Victor Hugo Viegas Silva

Se a imunidade de rebanho é a comorbidade que afeta países dirigidos pela extrema direita internacional – como Brasil, EUA, Reino Unido –, eles também têm em comum outro sintoma: o extermínio por negligência ou por vontade deliberada direcionado aos “indesejados”.

Esse projeto tem origem no intercâmbio intelectual e político das figuras da Internacional Olavista: Dominic Cummings, Steve Bannon, Richard Epstein, Olavo de Carvalho. Vou falar agora da cura que eles estão propondo desde já como mundo que há de ser enquanto movimento internacional do fascismo do século XXI. Ela tem um nome antigo: Eugenia [1].

A Byline Times fez uma reportagem falando como o sistema de saúde público britânico pode estar sendo estrategicamente precarizado para fazer da pandemia da covid-19 uma oportunidade para experimentar uma espécie de ‘higiene racial’ no Reino Unido em tempo real, coisa com que os eugenistas do século XX apenas sonhavam e experimentaram apenas em raras ocasiões extremas.

Mas o laboratório prático mais expressivo dessas ideias está sendo o Brasil. Vou falar de algums hipóteses sobre o que está acontecendo aqui. E que resposta existe por aqui a essa hipotética testagem envolvendo morte dos nossos vulneráveis da parte da classe trabalhadora brasileira e das etnias sob ataque direto: quilombolas, indígenas, negros, prisioneiros e os demais “indesejáveis”.

Desinfecção do terreno

Há quem acredite que se trata de exagero ou conspiracionismo falar de extermínio no Brasil. Pois vejam a entrevista da Folha de São Paulo em que se admite que o governo achou “aceitável” uma projeção de 100 mil mortos até setembro, que pode ser conferida aqui. Veja um grupo de cientistas – que aliás não costumam se expressar assim – em junho deste ano dizendo (antes de começarmos a liberar tudo no pico da pandemia) que a população precisava saber que estava sendo liberada para o abate. Veja a vítima padrão de covid-19 no Brasil: homem, pobre e negro – e não sou eu quem está dizendo, é a Época!

Lembre que em 16 de maio de 2020 o Estadão, jornal conservador, relatava que a saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde ocorria por uma recusa desse médico de compactuar com um projeto de extermínio – o editorial se chama A opção pela morte. Se nem isso convencer o leitor, veja a descrição da Reuters de como Bolsonaro desarticulou toda a estrutura de cuidado e combate à pandemia no Brasil. Veja tudo isso e me diga se estamos falando de coincidência ou de política, leitor.

Das cobaias

De acordo com a Economist, Boris Johnson declarou no dia 23 “que vai se encerrar nossa hibernação nacional”. A partir do dia 4 de julho seriam permitidos bares, cabeleireiros, restaurantes. Casamentos com menos de 30 pessoas. Encontros em casa desde que “com distanciamento adequado”. Ao mesmo tempo, declarou-se uma zona de dispersão em toda Londres impedindo eventos ao ar livre com real chance de distanciamento social e alguma segurança.  “Não é apenas uma aposta”, diz a Economist, “mas uma aposta de alto risco”. Uma aposta com quem, no entanto? Quem vai ser obrigado a ficar em casa de fato, em espaços mais fechados, mais propensos a contaminação? Quem está sendo deliberadamente impedido de realizar atividades de modo a evitar infecções?

Vamos inverter a questão. 76% dos brasileiros acreditam em manter as escolas fechadas, isto é, são contra a infecção deliberada de nossas crianças, professores e profissionais da limpeza e administrativos das escolas. Em abril, 79% dos brasileiros defendiam punição para quem violasse a quarentena. O que dizer então, de quem se infecta deliberadamente?

Pois foi justamente isso que os militares de Roraima fizeram.  O Intercept apurou que um General Barros falou o seguinte para sua tropa em abril: “É como eu digo, vale para mim, vale para vocês. Nós não estamos infectados, nós estamos sendo imunizados para ações futuras. Essa é a visão que temos que ter”. O número de militares infectados em abril chamou a atenção da imprensa. Esses militares incentivados a se infectar “cuidavam” de 6 mil refugiados venezuelanos. Em maio, 20% dos militares infectados estavam nessa operação.  Foram 200 militares infectados de 1.020 infectados em Roraima à época –  em maio. Desde então, desenvolveu-se algo assustador por lá.

Hoje, Roraima chegou a 10.340 infectados pelo covid-19 e 250 mortes oficiais. A população de Roraima é de aproximadamente 500 mil habitantes. Desses 363 infectados, os 15 mortos são indígenas, em que pese terem leitos com redes ao invés de macas no hospital de campanha.

Mais de 10 mil infectados em Roraima. É um número que em princípio não chama a atenção mas não deveria passar batido. Vamos fazer algumas contas. Para termos uma ideia, Goiás tem 20.950 casos e 6,5 milhões de habitantes.

Para que Roraima fosse proporcionalmente parecido com Goiás, onde houve uma liberação grande de atividades, fazendo uma regra de três simples, teria que ter 1.600 casos. Para que Goiás fosse ter uma proporção parecida com Roraima, nós teríamos que ter 130 mil casos – seis vezes mais infectados.

Roraima é o caso extremo que acontece quando a prefeitura da principal cidade, os principais políticos, boa parte da sociedade civil, o governador do Estado e o presidente do país estão na mesma linha de imunidade de rebanho – deixar a infecção correr livremente. Para se ter uma ideia, a iniciativa Protege Br – articulação de empresas e sociedade civil para garantir EPI’s contra o covid-19 – tem apenas uma iniciativa isolada em Roraima. Na maioria dos outros Estados, ocorrem mais iniciativas integradas e de várias entidades. E essa iniciativa é recente – em maio não existia, quando conferida pelo autor anteriormente.

Os indígenas Yanomâmis que também vivem na região agora denunciam que seus bebês estão sendo enterrados não sabem onde, sem o conhecimento das famílias. Iniciativa no mínimo estranha em um Estado despreocupado com as infecções. Lembra os episódios descritos por Edwyn Black no primeiro capítulo de seu livro sobre eugenia, em que médicos praticamente sequestravam as crianças de comunidades que queriam literalmente apagar das populações para esterilização forçada e inconsciente – com o pretexto de tratamento de outras doenças.

Tem algo estranho e importante acontecendo em Roraima. Pazuello, o eterno ministro interino da saúde e o responsável pelo desaparecimento de dados oficiais confiáveis sobre a pandemia desde maio, foi comandante da Operação Acolhida, responsável pelo gerenciamento dos refugiados venezuelanos, entre março de 2018 e janeiro de 2020. “Pazuello fez sua carreira como um daqueles que são sempre escalados para o que chamamos de ‘boca podre’. Aquelas missões que ninguém quer receber e poucos conseguem resolver”.

Foi Pazuello quem trouxe Carlos Wizard, o breve, para o Ministério da Saúde. Wizard descreveu em entrevistas amplamente divulgadas que “onde Pazuello vai, ele vai junto”. Veja a descrição feita do trabalho deles pela Uol: “Convidado por Pazuello, com quem trabalhou por dois anos na Operação Acolhida, de recebimento de imigrantes venezuelanos na fronteira em Roraima, esta será sua primeira incursão no setor público”.

Não foi a primeira incursão dele com público, evidentemente. Em uma matéria nomeada A lista de Wizard [2] ele é descrito em uma rotina que não é a de “um homem de negócios comuns”. O trecho já mostra exatamente do que se trata:

Pontualmente às 6h da manhã, o versículo bíblico é uma fonte de inspiração para aquela que Wizard considera ser a maior de todas as suas missões: acolher e auxiliar refugiados venezuelanos na fronteira. “Deus me deu a missão de ajudar esses estrangeiros, que fogem da fome e da miséria, a ter a chance de um recomeço e a uma vida digna”, disse o empresário à DINHEIRO, em um dos 13 campos de acolhimento instalados pelas Forças Armadas no Estado. “Com gestão empresarial, vou esvaziar todos os abrigos de Roraima.”

Campos de acolhimento, esvaziar todos os abrigos. Uma escolha de palavras intrigante, no mínimo. Wizard publicou uma autobiografia chamada Um exercício de humildade, ficou brevemente no Ministério da Saúde e hoje voltou para sua “missão divina”.

Laboratórios da morte

A nação Navajo tinha mais mortes nos Estados Unidos que sete estados combinados. 97% das mortes da linha de frente da saúde no Reino Unido eram negros, asiáticos ou minorias étnicas. No Brasil, de acordo com  a boa síntese de Juliana Passos:

Ao compararmos esses números com a porcentagem de mortos, temos uma porcentagem de letalidade em 21% na população branca, 27% na parda e 25% na preta. Os números da maior pandemia dos últimos 100 anos também servem para colocar em evidência a persistente desigualdade racial que atravessa a formação da sociedade brasileira ao longo dos séculos.

É verdade. Mas tem coisa mais direcionada acontecendo. O Brasil foi denunciado na ONU recentemente pelo avanço do COVID-19 nos presídios por mais de 200 entidades. Em primeiro de maio, supostamente havia 245 presos com covid-19.  No início de junho, saltou para 2.200 casos.

A situação se torna ainda mais crítica com a constatação do Departamento Penitenciário Nacional de que dentro dos muros do cárcere a letalidade da Covid-19 é cinco vezes àquela que aflige a sociedade. Além disso, a primeira morte dentro dos estabelecimentos prisionais ocorreu nove dias após o primeiro caso confirmado, enquanto que na população em geral ocorreu 20 dias após.

Quilombolas já morreram desproporcionalmente, com a Amazônia registrando recorde de mortes; a trajetória da covid-19 por aldeias indígenas também é muito mais intensa e mortal do que na população em geral.

Finalmente, chegamos aos idosos. De acordo com o estudo “A Covid-19 nas ILPIs brasileiras”, divulgado pela Agência Pública, “o número de idosos pode ultrapassar os 33 mil se não forem tomadas medidas de proteção a essas pessoas”.[3]

Essas são apenas algumas experiências que mostram que os trabalhadores e as populações não estão paradas morrendo e sendo assassinadas em todo lugar. Há também resistências, em boa parte invisibilizadas. Precisamos procurá-las e criar um programa comum, uma liga comum para que a gente tenha esperança de ter chance de sobreviver.

Laboratórios da vida

“Em plena pandemia, os senhores e senhoras tiveram que comprar máscaras de proteção porque não receberam nenhum equipamento do tipo por parte do município”. Apesar de ser um relato de precariedade, trata-se também de uma forma imediata, inteligente e criativa de lutar para sobreviver em solidariedade entre trabalhadores do abrigo e idosos. É essa possibilidade que pequenos coletivos buscam explorar como oportunidade de ação política. Colocar a vida no centro da luta.

Não são os únicos que estão fazendo isso. Em Paraty as comunidades estão desenvolvendo barreiras sanitárias e o interessante é que fizeram até um mini-manual. Isso indica que estão levando a sério sua experiência, refletindo sobre ela e buscando formas de generalizá-la, disponibilizá-la para a crítica prática das demais populações em situação parecida. Isso é, também, uma forma de laboratório e pesquisa só para o nosso lado.

Interesse parecido tem também a elaboração pelo um mini manual de resistência à Educação A Distância por parte de um coletivo de professores, a elaboração de um manual de paralisação de call center por trabalhadores lutando por home office, a produção de boas práticas solidárias no bairro por parte um coletivo de trabalhadores e um manual de práticas de higienização e auto-cuidado em uma ocupação urbana de Goiânia. São experiências que refletem um amadurecimento político e uma preocupação com a questão de produção de conhecimento prático e generalizável para a classe na luta pela vida.

Essas são apenas algumas experiências que mostram que os trabalhadores e as populações não estão paradas morrendo e sendo assassinadas em todo lugar. Há também resistências, em boa parte invisibilizadas. Precisamos procurá-las e criar um programa comum, uma liga comum para que a gente tenha esperança de ter chance de sobreviver.

Notas

[1] Uso duas referências obrigatórias para entender a eugenia enquanto movimento histórico. Uma é o livro de Edwyn Black, War Against the Weak: Eugenics and America’s Campaign to Create a Master Race, Expanded Edition, edição em papel de 2012. Outra é a seção sobre eugenia de João Bernardo em Labirintos do Fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta, disponível aqui. É a parte 4, “Racismo”, capítulo 1, seção 3. Quem diz que o marxismo revolucionário não trata da questão de raça faria bem em ler pelo menos essa seção e parar de falar bobagem.

[2] Uma alusão simpática (ou macabra?) à “lista de Schindler”. De acordo com a wikipedia, o filme A lista de Schindler “É baseado no romance de 1982, Schindler’s Ark, do romancista australiano Thomas Keneally. O filme segue Oskar Schindler, um empresário alemão dos Sudetos que, junto com sua esposa Emilie Schindler, salvou mais de mil refugiados judeus holandeses do Holocausto, principalmente poloneses, empregando-os em suas fábricas durante a Segunda Guerra Mundial”.  [3] Relatei também como essa situação se se dá no Brasil neste artigo, um caso específico de Aparecida aqui e mais detalhamento sobre esse caso de aparecida em mais um artigo.

Victor Hugo Viegas Silva é trabalhador da educação pública da Universidade Federal de Goiás. Todas as referências/fontes das informações estão em hiperlinks. Publicou, em A Comuna, “Morra quem tem que morrer”, viva quem conseguir lutar.

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