Atos falhos, o jogo de culpas e as provas de fogo do genocídio

Victor Hugo Viegas Silva

Nas últimas semanas nos denotamos com três revelações importantes para os que lutam pela vida dos trabalhadores no Brasil.

  1. O ato falho de Nise Yamaguchi de chamar as vítimas judias de campo de concentração de “massa de rebanho” (a proximidade com o termo imunidade de rebanho me parece o verdadeiro ato falho) – que resultou em seu afastamento – mostra que os bolsonaristas já estão nos considerando como “aquela massa de judeus” do campo de extermínio. A reação a essa declaração alegou o caráter único e incomparável da Shoá (extermínio de judeus pelo nazismo) contra o “antissemitismo” de Yamaguchi, sendo que, na fala dela, claramente não se tratava disso, e sim do que se pretende fazer com as populações. Em suas palavras, estão expostas as intenções do lado de lá. Desenvolverei melhor quais parecem ser elas.
  2. Boris Johnson diz na Inglaterra que “descobrimos que várias casas (de acolhimento  de idosos) não seguiram realmente os procedimentos da maneira que poderiam ter feito”. Detalhe: eles seguiram as orientações do próprio Boris Johnson. Dessa forma, os arquitetos da morte fogem da responsabilidade e responsabilizam seus cúmplices que não tiveram coragem ou meios de resistir. Os voluntários e os involuntários. Está exposto o mecanismo do jogo de culpas. Desenvolverei melhor como ele parece funcionar e como é possível escapar dele.
  3. A crise provocada por Gilmar Mendes do STF ao falar a palavra proibida (“genocídio”) e associá-la ao Exército parece ter exposto que não está tão consolidado como parece o jogo de forças no poder. A lembrança da possibilidade de um tribunal de Haia mobilizou o presidente Bolsonaro a fazer Pazuello ligar para Gilmar Mendes, ele mesmo recuou na recomendação da cloroquina e todos lembraram de uma declaração do presidente do STF, Barroso, de que essas recomendações sem evidência científica abriam margem para diversos processos. Ficaram com medo da possibilidade de serem responsabilizados. O problema é: quem vai responsabilizá-los? A aposta numa punição certa pressupõe que a Nova República vai sobreviver ao bolsonarismo. Isso é certo?

Dado também central que mudou todo o arranjo político no Brasil foi a capacidade de resistência dos indígenas e dos grupos de favela de organizar denúncias e resistir concretamente. Desde 18 de maio os grupos indígenas e apoiadores estão denunciando abertamente a possibilidade de um genocídio no Brasil. Desde o dia 26 de maio os grupos de favela articularam um alerta às autoridades que a omissão do governo federal poderia configurar um genocídio da mesma forma que Gilmar Mendes fez com que Bolsonaro tremesse nas bases.  A Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) chega a ter contabilidade própria pra contestar o governo e diz que o número de mortos é mais que o dobro dos dados oficiais: o governo alega 216 mortos, a APIB diz que são 501. Não é fácil velar os mortos, contá-los e ainda se organizar pra lutar. Não é pouca coisa. Se for possível responsabilizar o governo por algo, a organização indígena em grande parte é responsável e tratarei dela em um texto a parte. Esse texto de agora será dedicado às manobras de nossos inimigos.

  1. Somos todos massa de rebanho?

Como alguns poucos militares nazistas conseguiram controlar aquela massa de rebanho de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações e humilhações tirando deles todas as iniciativas? Quando você tem medo, você fica submisso a situações terríveis. Nise Yamaguchi

Parece que Yamaguchi está tentando atacar os governos que aplicam a quarentena. Mas o testemunho de países – e uma análise sensata – já tiram de cena que essa seja a explicação provável do ato falho. Tem muito menos medo uma população que mora em um país onde morreram zero pessoas da covid-19 como o Vietnã. E vejam como se sente uma das poucas pessoas que contraíram covid-19 na Costa Rica:

Henry garante que eles nunca se sentiram abandonados com sua doença, pelo contrário. “De 21 de março e até cerca de 10 dias atrás, os médicos vieram aqui pelo menos um dia sim e um dia não para acompanhar de perto o tratamento”, explica Henry. Eles foram visitados por profissionais de saúde das Equipes Básicas de Assistência Integral à Saúde (Ebais), e o médico ficou em contato com a família por meio de mensagens do WhatsApp.

Assustador, né? Nem um pouco. Yamaguchi mira nos seus inimigos mas atira no próprio pé e expõe a própria tática do governo Bolsonaro para tentar forjar a fogo sua própria população. Explico. Imagine que 60% dos brasileiros apoiavam o lockdown até recentemente. Como se quebra essas pessoas? Assim.

No primeiro gráfico, uma queda e uma retomada do vírus dão a impressão de segunda onda. No segundo, da realidade brasileira, uma ligeira queda na velocidade da infecção dá impressão de melhora, mas nunca houve de fato queda na propagação do vírus.

Esse movimento descrito no gráfico aparentemente se repete o tempo todo. Com o apagão de dados só fica pior: parece que está o tempo todo melhorando e piorando, amanhã talvez melhore, piorou; os jornais ficam inventando sinais de recuperação inexpressivos.

Imagine agora uma pessoa que sofre esse processo sucessivamente, que tipo de sujeito vai se formar ali. É o sujeito que esperava que a “quarentena” resolvesse algo por ela, os militantes que lutaram e deram tudo e mesmo assim não conseguiram fazer quarentena, os que brigaram com tudo e todos porque a quarentena era uma farsa (a esquerda e a direita), todos se igualam na brutalidade violenta que sofreram várias e várias vezes de ter seu sonho frustrado. O momento em que reconhecemos que perdemos e partimos para tentar desenvolver uma nova resposta é delicado, frágil e é justamente nesse momento que entra a operação do Novo Normal.

O que estamos a fazer ao “voltar ao normal”? Que tipos de sujeitos estamos produzindo? Pessoas perdidas, humilhadas. O que vai acontecer em volta desses sujeitos perdidos que ficarem infectados? Possivelmente ele ou alguém próximo pegará a doença. Um surto de infecções. Zero estrutura. Ninguém pra ajudar, porque não há grupo de luta pra isso. Tensão no máximo. E o presidente Bolsonaro aparecerá, por meio de seus asseclas, perguntando: a culpa é de quem? É de quem defende a quarentena, de quem não se expõe. Sua política desastrosa que resultou em mais mortes que qualquer guerra que o Brasil possivelmente participaria vai virar modelo de segurança porque estaremos nós a aplicá-la. Esse é o resultado em médio prazo da continuação dessa tática, do pressuposto do descuidado estrutural que é convocar gente dessa forma dispersa e desesperada.

Humilhações, humilhações e humilhações até que a pessoa se submeta a tudo. A estratégia é esta. Se não mudarmos o jogo, vai ser assim que acontecerá.

2. Jogo de culpas

“Acho que estamos quase entrando em uma realidade alternativa kafkiana, onde o governo estabelece as regras, nós as seguimos, eles não gostam do resultado, então negam ter estabelecido regras e culpam as pessoas que se esforçaram para fazer todo o possível”, denunciou indignado o diretor da organização Community Integrated Care, Mark Adams.

A diretora do National Care Home Forum, Vic Rayner, também reclamou desses comentários “totalmente inapropriados” e denunciou que os lares para idosos britânicos tiveram de “lidar com um número extraordinário de regras diferentes ditadas pelo governo quase diariamente”.

“O que o primeiro-ministro disse foi que ninguém sabia quais eram os procedimentos corretos, porque sabemos que a extensão dos casos assintomáticos não era conhecida até então”, disse à BBC o ministro de Negócios, Alok Sharma.

O erro de Mark Adams foi esse quase. É exatamente disso que se trata. E está acontecendo exatamente o mesmo no Brasil em escala mais cínica e mais grave: trata-se da adulteração dos registros dos servidores mortos de covid-19. Já notaram que nas notas de pesar não se fala mais de covid-19? Não duvido que tenha a ver com essa declaração de Bolsonaro na famosa reunião de 22 de abril que pode ser vista aqui:

Eu liguei pra ele. Por favor, o que mais? Ele era obeso, era isso, era… bem, tinha … como é que é? Comorbidades. Mas ali na nota dele só saiu CODIV-19. Então vamos alertar a quem de direito, ao respectivo ministério, pode botar CODIV-19, mas bota também tinha fibrose nu … montão de coisa, eu não entendo desse negócio não. Tinha um montão de coisa lá, pra exatamente não levar o medo à população. Porque a gente olha, morreu um sargento do exército, por exemplo. A princípio é um cara que tá bem de saúde, né? Um policial federal, né? Seja lá o que for, e isso daí não pode acontecer. Então a gente pede esse cuidado com o colega, tá? A quem de direito, ao respectivo ministério, que tem alguém encarregado disso, né? Pra tomar esse devido cuidado pra não levar mais medo ainda pra população.

Vejam o jogo jogado. Primeiro: ele não fala o nome da doença COVID-19, ele fala CODIV-19 pra poder alegar que ele estava falando de outra coisa. (Pra quem duvida que ele sistematicamente falasse errado o nome da doença, eu gravei o vídeo e vocês podem conferir aqui). Segundo, ele não ordena, ele sugere. Fica a cargo do que sofreu a sugestão seguir ou não por livre e espontânea pressão. Mas, sim, ele ainda deixa a opção: colaborar ou não – justamente por não querer se responsabilizar de verdade pois, como disse Mourão, “ninguém ira descumprir a constituição” (por enquanto e abertamente).

É exatamente assim que ele atua em todos os setores. Polícias, reitorias, fiscalização ambiental. Bolsonaro está fabricando cúmplices, passando amplos setores da população por uma prova de fogo pela qual a maioria não estava e não vai estar nunca preparado. Ainda assim, a responsabilidade continua igual. Finalizo essa seção com um exemplo que nunca deixa de ser irritante por ser verdadeiro, o exemplo de Eichmann. Não adianta depois falar que só estava cumprindo ordens se a gente sabe muito bem o que está acontecendo. Como diz a DW:

O mundo esperava ver um monstro, um antissemita brutal, um nazista fanático. O réu, por sua vez, passou a imagem de um burocrata que teria apenas assinado documentos. Os peritos lhe atestaram a condição de subalterno de pouca iniciativa própria e sem senso de responsabilidade. Após o julgamento, que foi transmitido pela televisão, intelectuais chegaram a se confessar chocados com o fato de Eichmann não ter sido um seguidor fanático de Hitler.

Ele insistia que apenas cumpriu ordens e jamais preocupou-se em questioná-las. Apenas um exemplo: em março de 1944, Eichmann foi mandado à Hungria, onde organizou a deportação de 800 mil judeus. Em menos de dois meses, 147 trens levaram 434 mil pessoas para as câmaras de gás de Auschwitz.

Da mesma forma como colaborou com o regime nazista, ele cooperou com a polícia e a Justiça de Israel, mas nunca demonstrou qualquer forma de arrependimento.

A partir de sua escrivaninha, havia coordenado a perseguição, o sequestro e a deportação de milhares de judeus, marcados para morrer nos campos de concentração. Eichmann conhecia o destino dos prisioneiros. Ele assistiu às execuções em massa a tiros e nas câmaras de gás, chegando a considerá-las “desumanas”, não para as vítimas, e sim para os carrascos.

3. A história vai cobrar? Quem vai cobrar?

O Globo acusou Gilmar Mendes de romper a unidade do STF (e exagerar) com suas declarações. Os gastos não executados em saúde estão sendo rapidamente liberados para execução pelo governo federal apesar desse “vacilo” do ministro do Supremo, no entanto. Essa informação pode ser verificada aqui. Executadas com que finalidade, no entanto, tendo o mesmo ministro, os mesmos militares, o mesmo governo? Quem é esse ministro interino eterno, aliás?

A saída de Teich do Ministério da Saúde abriu espaço para que entrasse abertamente em cena General Eduardo Pazuello, paraquedista, especialista em logística, descrito por “fazer acontecer” e como “excelente coordenador das operações logísticas durante as olimpíadas e paraolimpíadas no Rio de Janeiro em 2016”.

Predestinado. Foi assim que Bolsonaro chamou o ministro. “Boca podre” é o nome mais prosaico que os generais dão a ele: “Pazuello fez sua carreira como um daqueles que são sempre escalados para o que chamamos de ‘boca podre’. Aquelas missões que ninguém quer receber e poucos conseguem resolver”. Quais missões? Além das Olimpíadas e Paraolimpíadas, Pazuello foi comandante da Operação Acolhida, responsável pelo gerenciamento dos refugiados Venezuelanos, entre março de 2018 e janeiro de 2020. E pretende voltar para o antigo posto de comando militar. Durante sua gestão no Ministério da Saúde o país saltou de 14.800 mortes por covid-19 para pelo menos 76.822.

Além disso, pra quem acredita em “domesticação”, Bolsonaro saiu falando que a Amazônia não pega fogo, pois é úmida, que não vai tirar os ministros e que são os indígenas que botam fogo nas terras. O Ministério da Defesa entrou com representação contra Gilmar Mendes na PGR usando a Lei de Segurança Nacional, coisa que parece pequena mas foi um episódio assim que desencadeou o AI-5 em 1968.

O Supremo Tribunal Federal mês passado atraiu estridência ao falar o óbvio:  “Eu hoje em dia estou mais preocupado com os desdobramentos da pandemia (de coronavírus) e o impacto social que vai produzir na vida das pessoas do que com o risco democrático, que acho que está mais associado à retórica” – “retórica” seriam as estridências à direita e à esquerda que não falam do essencial, mas também não descumprem nenhum acordo social básico. Denunciaram o ministro por “passar pano” para os golpismos da extrema direita. É ingenuidade ou acobertamento similar ao do ministro. Pressupõe que existe um acordo social básico aqui.  Nesse sentido, tanto o ministro Barroso quanto o restante da Frente Ampla Democrática  desconversam do que verdadeiramente importa hoje no país em política. Nisso, também tiram a visão do que esse terremoto de mortes pode significar em termos de organização política e social e como Bolsonaro vai tentar explorar politicamente essa situação que está colocada.

Como ele pretende fazer isso agora parece estar ficando mais claro.

Victor Hugo Viegas Silva é trabalhador da educação pública da Universidade Federal de Goiás. Colaborador de A Comuna, onde tem contribuído com pesquisa, informação e reflexão sobre a pandemia da covid-19, tendo sido um dos primeiros a escrever sobre a organização política do extermínio (ou genocídio) das populações pobres e minorias étnicas.

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