[EUA] Desfile de milícias

Tomasz Konicz

Neste artigo, publicado em Telepolis, em 30.07.2020, e traduzido ao português por Boaventura Antunes (tradução que nos demos a liberdade de adaptar ao português brasileiro), o companheiro Tomasz Konicz apresenta o armamento de grupos de extrema-direita norte-americanos no quadro da crise capitalista tal como ela se manifesta nos EUA. É importante nessa análise a percepção de que os países mais avançados, como os EUA, têm como imagem próxima os países mais “atrasados” industrial e economicamente, o que sinaliza a atual decomposição – a partir do “centro” – da sociedade produtora de mercadorias.

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Nos Estados Unidos, a mobilização para a guerra civil molecular está ganhando força.

A estratégia de escalada da repressão da administração Trump [1] na cidade norte-americana de Portland levou a um renovado surto de protestos nos Estados Unidos. No fim-de-semana passado [24 a 26 de julho – AC] houve novamente manifestações e comícios em muitas cidades dos EUA, resultando frequentemente em confrontos com as forças policiais.

Em Portland, Oregon, foram utilizados gases lacrimogêneos e granadas atordoantes em frente ao tribunal federal transformado em barricada, onde as tropas Trump se entrincheiraram, utilizando métodos violentos e semelhantes a sequestros para intimidar o movimento de protesto. Várias dezenas de pessoas também foram presas em Seattle, após a polícia e os manifestantes terem trocado pancada frente ao edifício de um tribunal em obras.

Também foram relatados confrontos em Oakland na Califórnia, em Aurora no Colorado, e em Austin no Texas, onde um manifestante foi alvejado de um carro.

Em Louisville, Kentucky, não houve tumultos no fim-de-semana passado, apesar de a cidade ter sido abalada por tumultos após a morte de uma mulher afro-americana de 26 anos, Breonna Taylor, pela polícia branca em março passado. Em Louisville, milícias inimigas [2], armadas até aos dentes, marcharam pela cidade em formação militar exibindo as suas armas de guerra [3]. Três milicianos sofreram ferimentos de bala devido ao manuseamento incorreto das armas.

A milícia negra NFAC [veja aqui o que significa essa sigla – AC], que opera na grande cidade de Atlanta, protestou com várias centenas de homens exigindo a punição dos polícias que alvejaram Breonna Taylor. Por outro lado, uma milícia de extrema-direita, a chamada Three Percenter [veja aqui – AC], declarando que queria apoiar as forças policiais locais, marchou nas imediações da rota de manifestação da NFCA.

Um acontecimento excepcional numa longa tradição americana

A formação de uma milícia negra é – até agora – um fenômeno excepcional nos Estados Unidos, uma vez que uma esmagadora maioria das formações civis armadas pode ser atribuída à direita política branca. No entanto, ambos os grupos em Louisville operavam no âmbito das leis sobre armas do Kentucky, que permitem o porte público de armas de fogo.

Num comentário, o Chicago Sun-Times [4] observou que, em última análise, ambos os grupos se baseavam numa “longa tradição americana” que via a posse de armas como uma importante “salvaguarda contra a tirania”.

O movimento de milícias de direita nos Estados Unidos, que se baseia nesta tradição estabelecida pela famosa Segunda Emenda [ver aqui – AC] [5], é considerado um dos principais grupos de apoio do Presidente Donald Trump. Este movimento conheceu o seu grande boom nos anos 90 [6] sob o Presidente democrata Bill Clinton e durante a presidência de Barack Obama.

Existem centenas de grupos armados deste tipo [7] nos Estados Unidos, que podem mobilizar dezenas de milhares de milicianos. Embora estes grupos armados variem muito na sua orientação ideológica – desde o puro racismo, passando pelo isolacionismo, até o ódio extremo ao governo – eles partilham, na sua maioria, a rejeição de quaisquer restrições legais à posse de armas e uma oposição com diferentes fundamentos à esquerda política.

Mais recentemente, algumas dessas milícias têm estado ativas como tropa de infantaria [8] de campanhas de direita contra medidas de combate à pandemia nos EUA – por exemplo, quando as milícias armadas de metralhadoras invadiram o Capitólio no Michigan e foram elogiadas por Trump como “muito boas pessoas” [9].

Vários milicianos também tentaram a sua sorte como guardas de fronteira autonomeados, tentando interceptar migrantes na fronteira entre a América e o México [10] por sua própria iniciativa.

Surto de atividades das milícias: efeito assustador

E muitos milicianos estão também ativos – como contramanifestantes ou forças de proteção – no atual movimento contra o racismo e a violência policial. Só nas primeiras duas semanas da onda de protestos, 136 incidentes com milícias de extrema-direita [11] foram relatados em todo o país durante manifestações e protestos.

Há um rápido aumento na atividade das milícias, e os seus membros estão agora se reorientando , de acordo com relatórios de fundo [12]. Em vez de protestarem contra o lockdown, estão oferecendo “segurança armada para as comunidades locais”, disse o porta-voz de uma organização não governamental aos media norte-americanos.

Isto teria um “efeito assustador na prática democrática”. Os potenciais manifestantes seriam intimidados e manter-se-iam afastados dos protestos. Em muitas cidades menores dos Estados Unidos ocidentais, estas formações armadas estão presentes para, literalmente, “fornecer serviços que normalmente esperamos do governo”.

Em alguns casos, já se desenvolveram ligações diretas entre uma força policial embrutecida pela crise e pelas milícias. Este parece ser o caso do Estado do Novo México [13], onde as forças policiais são acusadas de pertencerem a formações de extrema-direita. Existe uma clara “sobreposição” [coincidência – AC] no Novo México entre as pessoas que trabalham nas “milícias e nos serviços policiais”, explicou o cientista social David Correia, que estudou este meio em pormenor.

“Exércitos de cidadãos”

No Novo México, disse ele, é difícil distinguir entre “as milícias fascistas de direita e a polícia”, à medida que as linhas se tornam cada vez mais confusas. De acordo com Correia, os extremistas de direita, com a aquiescência tácita ou mesmo com o apoio da polícia, controlariam e intimidariam o movimento de protesto no Novo México [14].

A velocidade a que esta militarização da sociedade americana está tendo lugar em várias regiões pode ser vista no exemplo do Estado americano de Utah, onde uma milícia branca conseguiu recrutar cerca de 15.000 membros [15] no espaço de um mês.

Sob o pretexto de prevenir a violência, este exército civil, liderado por antigos veteranos, marcha armado contra os protestos do movimento Black Lives Matter [Vidas negras importam – AC], que já foram cancelados várias vezes por medo dos milicianos brancos.

Na capital de Utah, a cidade mórmon de Salt Lake City, 88 por cento da população é branca, enquanto a proporção de negros é inferior a um por cento. Numa manifestação contra a brutalidade policial e o racismo em Salt Lake City, os manifestantes foram acompanhados por uma fila de brancos armados, enquanto a polícia colocou franco-atiradores em telhados. No movimento, que realiza regularmente exercícios militares e mantém bons contatos com a polícia local, circulam boatos absurdos sobre conspirações como a de o “Estado islâmico” supostamente financiar os atuais protestos.

De acordo com relatórios de fundo [16], os milicianos estão a preparar-se com o seu treino de guerra civil para uma “guerra civil” que em breve rebentará, que será forçada pelas forças das trevas a se enraizar no subsolo.

O embrutecimento do aparelho de Estado

Quanto tem progredido o embrutecimento do aparelho de Estado norte-americano, cada vez mais em resultado deste aumento da formação de milícias relacionado com a crise, é particularmente evidente na força policial [17] à qual Donald Trump confiou a supressão dos protestos em Portland, Oregon.

O CBP (US Customs and Border Protection [Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA – AC] ) de Portland é considerado um dos pilares mais importantes da administração Trump dentro do aparelho de Estado. Um infiltrado disse ao jornal The Guardian [18] que “a sua gente”, que trabalhava na polícia militarizada de fronteira, tinha crescido para 20.000 homens.

A defesa contra os refugiados na fronteira sul dos EUA, que é agora a principal tarefa do CBP, está sendo implementada com consistência assassina. Desde 2010, diz-se que pelo menos 111 refugiados não conseguiram sobreviver ao encontro com os guardas de fronteira altamente treinados [19]. Antigos oficiais disseram ao Guardian que existe puro racismo entre as tropas, que cultivam uma “cultura de violência” contra os migrantes.

A extensão do racismo dentro da Guarda de Fronteiras tornou-se pública no início de 2019: cerca de 9.000 membros da Polícia de Fronteiras ]– quase metade de todos os membros do CBPvisitaram um grupo do Facebook que divulgou conteúdos racistas e desumanos [20]. Esse escândalo não teve consequências graves.

Dentro do CBP existe uma “formação de elite”, a Border Patrol Tactical Unit (Bortac – Unidade Tática da Patrulha de Fronteira [AC]). Este grupo, comparável aos Navy Seals da Marinha [veja aqui – AC] , que também está destacado fora dos EUA, está recebendo treino militar – e é considerado a unidade mais “violenta e racista” dentro do aparelho policial dos Estados Unidos, segundo o Guardian, citando informações internas.

E é precisamente este grupo, que já não se considera parte da força policial e pensa e age em categorias militares quando é destacado, que é utilizado por Trump em Portland contra o movimento de protesto: Os homens da Bortac, nas suas operações,”considerariam militarmente as pessoas com quem são confrontados como combatentes, o que significa que praticamente não têm direitos”, disse um ex-polícia de fronteira ao jornal britânico.

Os métodos de “sequestro” de manifestantes pela polícia de fronteira de Portland, que provocaram indignação em nível nacional [21], estão assim em conformidade com os procedimentos habituais para migrantes na fronteira.

Processo de embrutecimento e colapso do Estado

Estas tendências de embrutecimento e fascistização do aparelho de Estado não se limitam, evidentemente, aos Estados Unidos, tendo em conta a crise em curso do sistema capitalista mundial. Coisas semelhantes estão também surgindo no aparelho de Estado da República Federal da Alemanha, onde as correspondentes cliques fascistas [22] estão formando-se e os esforços terroristas de direita estão aumentando rapidamente [23] – enquanto as elites funcionais políticas desviam o olhar por cálculo tático, oportunismo ou simpatia [24].

Este processo de o aparelho de Estado se tornar selvagem nos centros é apenas a pré-forma de um fenômeno de crise que já está desenvolvendo-se plenamente na periferia ou semiperiferia – e que é normalmente traduzido pelo conceito de “falência do Estado”.

A desintegração do Estado não é promovida a partir do exterior, por qualquer tipo de conspiração, mas sim a partir do interior, pelas partes do aparelho de Estado que acreditam, em reação às tendências de crise, que podem ou devem tomar as coisas nas suas próprias mãos – quer na esperança de assegurar a sua continuidade através de golpe e ditadura, quer simplesmente por interesse financeiro.

Tomázs Konics é um marxista alemão, residente na Polônia, autor de Faschismus im 21. Jahrhundert: Skizzen der drohenden Barbarei [O fascismo no século XXI: esboços da barbárie iminente]. Traduzimos e publicamos em nosso blog seu artigo América em revolta.

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