O que é imperialismo de crise?

Tomasz Konicz

konicz.info, 23.06.2022

Este é o sexto artigo de Tomasz Konicz traduzido e publicado em A Comuna. Anteriormente, disponibilizamos para nossos leitores A América em revolta, Desfile de milícias, Apitar na floresta moribunda, China e a impossibilidade da modernização para recuperar o atraso e, na semana passada, Dividida entre Leste e Oeste. Neste último longo e denso artigo de análise da guerra na Ucrânia no contexto da crise da sociedade produtora de mercadorias, Konicz utiliza o conceito de imperialismo de crise. No artigo que publicamos agora, ele explica este conceito como próprio da “época da contração do processo de valorização do capital”, o que o difere do “imperialismo das primeiras épocas, já que este ocorreu em uma fase histórica da expansão do capital”. Trata-se, pois, de uma questão teórica fundamental, pois diz respeito à conceptualização da atual crise capitalista, na época da revolução científico-tecnológica (conceptualização amplamente exposta no artigo anterior). Tomasz Konicz é um marxista alemão, residente na Polônia, que atua como jornalista independente, colaborador da revista Exit! e autor de Klimakiller Kapital: Wie ein Wirtschaftssystem unsere Lebensgrundlagen zerstört (Capital assassino do clima: Como um sistema econômico destrói nossas fontes de vida) (2020). Este artigo foi publicado hoje 23.06.2022 em sua página pessoal. Ele participou também de um bate-papo na TV A Comuna, em abril de 2020, sobre as eleições presidenciais norte-americanas.

E como ele difere do imperialismo clássico de épocas anteriores?

O imperialismo de crise é a luta do Estado pelo domínio – realizado com meios econômicos, políticos ou militares – na época da contração do processo de valorização do capital. Os aparatos estatais nos centros do sistema mundial lutam pelo domínio em uma crise do sistema alimentada por avanços permanentes na produtividade, que, por um lado, principalmente na periferia, produz territórios econômica e ecologicamente devastados e, por outro lado, torna impossível o surgimento de um novo regime de acumulação em que o trabalho assalariado em massa seja usado na produção de mercadorias. Esse processo de crise caminha de mãos dadas com o aumento da dívida mais rápido do que a produção econômica global e leva à formação de uma humanidade economicamente supérflua, a exemplo da crises de refugiados dos últimos anos.

Isso também descreve a diferença fundamental do imperialismo de crise para o imperialismo das primeiras épocas, já que este ocorreu em uma fase histórica da expansão do capital – que começou na Europa no século XVI – que foi impulsionada pela exploração massiva e assassina dos trabalhadores. O roubo de recursos – como o ouro e a prata da América Latina – e o desenvolvimento de novos mercados no Sul Global – cana-de-açúcar, especiarias etc. – só poderiam ser realizados através da exploração massiva de “mãos”, que só pode ser realizado através do trabalho forçado. O rastro de sangue dessa expansão imperialista do sistema mundial capitalista, que integrou novas regiões periféricas ao mercado mundial, muitas vezes com força militar, vai desde o genocídio dos nativos da América Latina e Central até o comércio triangular atlântico de escravos africanos ou ao aperto da Índia pelo Império Britânico, às atrocidades do imperialismo belga no Congo do final do século 19, que têm impacto ainda hoje, quando trabalhadores forçados não cumpriam as cotas de borracha, resultando em mutilações severas, como o corte de mãos.

Os crescentes conflitos militares são uma expressão da decadência hegemônica dos EUA, com a crise socioecológica do capital impedindo o desenvolvimento de uma nova potência hegemônica.

O impulso expansionista dos Estados imperialistas, cuja última consequência é militar, é o resultado da compulsão de valorização do capital, através do qual as tendências imperialistas podem ganhar força precisamente em reação às contradições internas do processo de valorização: superacumulação de capital em busca de investimento, tensões sociais crescentes que devem ser aliviados pela colonização, ou a demanda do capital por matérias-primas e fontes de energia que não podem ser extraídas internamente muitas vezes tentam aqueles Estados que têm poder suficiente para se engajar em formas correspondentes de expansão imperialista.

Após o século 20, em que, devido à “Guerra Fria”, foram aplicadas práticas de imperialismo informal, em que se instalaram na periferia regimes dependentes, formalmente soberanos, por meio de pressão econômica ou derrubadas de governos por serviços secretos, as formas de agressão imperialista direta novamente prevaleceram no século 21, com a queda imperial dos EUA e as crescentes tendências de desintegração estatal e social na periferia. Isso também traz consigo o perigo de grandes guerras travadas entre as principais potências imperialistas.

Em sua fase histórica de expansão, o sistema mundial capitalista foi caracterizado por ciclos hegemônicos em que uma grande potência imperialista conseguia alcançar uma posição hegemônica, pelo menos temporariamente tolerada pelas potências concorrentes. O século 19 foi moldado por um ciclo hegemônico britânico de ascensão e queda industrial, o século 20 por um ciclo hegemônico americano. Os crescentes conflitos militares são uma expressão da decadência hegemônica dos EUA, com a crise socioecológica do capital impedindo o desenvolvimento de uma nova potência hegemônica.

A China, que se encontra numa luta global de hegemonia com Washington, não pode suceder os EUA como a “polícia do mundo” devido às crescentes convulsões internas (crises da dívida e imobiliária) causadas pela crise. A atual fase de crescentes conflitos militares representa, portanto, uma verdadeira sátira sangrenta do discurso pela “ordem mundial multipolar”, que está sendo exigida por todos os concorrentes imperiais dos EUA em declínio. A crise sistêmica impede o desenvolvimento de uma hegemonia, com muitos aparatos estatais lutando em vão para se tornarem tão poderosos quanto os EUA; e a erosão da hegemonia estadunidense lhes dá a liberdade necessária para suas próprias aventuras militares. Além do mais, as crescentes contradições internas dão origem ao desejo de expansão imperial (por exemplo, Rússia, Turquia).

Uma diferença concreta central da luta imperial pelo domínio do imperialismo de crise da dos séculos anteriores é que a caça aos mercados consumidores e “mãos”, que poderiam ser exploradas através da integração violenta ao mercado mundial, agora dificilmente desempenha um papel devido à já mencionada crise sistêmica de superprodução no sistema mundial globalizado. No imperialismo tardocapitalista de crise do século 21, o impulso imperialista de expansão se transforma em esforços para isolar as massas economicamente supérfluas da periferia – tanto na “Fortaleza Europa” quanto nos EUA. Nesse sentido, a expansão se transforma na desconexão dos centros da periferia, que também dificilmente desempenha um papel de mercado consumidor.

A atual era do imperialismo de crise é caracterizada pela interação entre o impulso estatal à dominação e o processo de crise do capital, que tem uma dinâmica fetichista mediada pelo próprio mercado.

Com seus “Estados falidos”, a periferia desmoronada desempenha apenas um papel de fornecedora de matérias-primas no quadro do extrativismo. Aqui, também, são construídas as formas de decadência do “imperialismo informal” do século 20, na medida em que – por exemplo, no caso da mineração de cobalto no Congo – estruturas de poder pós-estatais locais (milícias, gangues, seitas, etc.) organizam a mineração de matérias-primas por conta própria e, em seguida, usam canais obscuros para distribuí-las, fornecendo-as ao mercado mundial por meio de intermediários. Militarmente, os centros só interagem com as regiões de “terra arrasada” no âmbito das “guerras da ordem mundial” (Robert Kurz), nas quais a periferia é estabilizada por meio de processos de construção do Estado (“construção da nação”) ou ainda eliminada militarmente como fator disruptivo. As campanhas globais de drones da antiga “polícia do mundo”, os EUA, na “guerra ao terror” ou intervenções do Ocidente no Afeganistão e na Somália, consistentemente fracassadas, se enquadram nessa categoria da luta de moinhos de vento imperial dos centros contra as consequências sociais na periferia da crise sistêmica emanada dos centros.

Assim, a atual era do imperialismo de crise é caracterizada pela interação entre o impulso estatal à dominação e o processo de crise do capital, que tem uma dinâmica fetichista mediada pelo próprio mercado, dinâmica fetichista alimentada pelas contradições internas do capital (que na competição de mercado tende a se livrar de sua própria substância, o trabalho criador de valor). As elites funcionais do aparelho de Estado se veem expostas às consequências da crise, que se desdobra “às costas dos produtores” (Marx) mediada pelo mercado, como uma força externa, natural, embora as crescentes contradições e distorções (endividamento, erosão social, crises econômicas e ambientais etc.) sejam um produto inconsciente dos sujeitos do mercado em sua busca pela maior utilização possível do capital. O capital produziu assim uma formação social que não está no controle dessa dinâmica de corrida cega, que está sendo levada ao colapso social e ecológico.

A competição da crise estatal resultante dessa crise sistêmica de superprodução leva, consequentemente, ao desenvolvimento de um imperialismo de base econômica que busca os maiores superávits comerciais possíveis. Com o superávit comercial, a crise de superprodução e a obrigação associada de assumir dívidas são exportadas para países com déficits cada vez maiores. A República Federal foi particularmente bem sucedida a este respeito após a introdução do euro. O domínio político da República Federal da Alemanha na zona do euro resulta precisamente dos extremos superávits comerciais alemães no período que vai da introdução do euro à sua crise, que levou à crise da dívida do Sul da Europa e à desindustrialização nos Estados endividados, enquanto permaneceu intacta a base industrial da indústria de exportação alemã. Após a eclosão da crise do euro, o ministro das Finanças alemão Schäuble conseguiu impor unilateralmente as consequências do estouro das bolhas da dívida europeia, que andou de mãos dadas com os superávits comerciais alemães, sobre os países em crise na forma de políticas de austeridade estritas durante duras disputas políticas, que aumentaram o fosso econômico entre Berlim e “sua” zona do euro; e a reivindicação de liderança da Alemanha foi cimentada, enquanto Estados mortos – como a Grécia – tiveram que aceitar perdas abrangentes de soberania. O protecionismo que vem aumentando nos últimos anos, e que vem à tona desde o governo Trump, é uma reação a essa necessidade de atingir os maiores superávits comerciais possíveis. Antes das guerras comerciais abertas que Trump desencadeou devido à extensa desindustrialização dos EUA, muitos países tentaram melhorar sua balança comercial por meio de corridas de desvalorização da moeda.

O imperialismo de crise se assemelha – para ficar com a imagem da crise climática – a uma competição acirrada em um iceberg derretendo, ou a uma luta no naufrágio do Titanic.

O processo objetivo de crise do capital ocorre, assim, por meio das correspondentes disputas dos sujeitos do Estado no âmbito do imperialismo de crise. A execução da dinâmica da crise por meio de lutas econômicas, geopolíticas, de serviço secreto ou de poder militar é o cerne objetivo da prática imperialista de crise. Isso é verdade não apenas nos centros em erosão (por exemplo, no Sul da Europa), mas também na periferia do sistema mundial, onde o processo de crise progrediu ainda mais e a ampla ruptura social está se transformando em colapso do Estado. As intervenções imperialistas na Síria e na Líbia como resultado da “Primavera Árabe”, quando regimes de modernização fracassados, que degeneraram em cleptocracias, se sentiram ameaçados por revoltas desesperadas, deixam claro como os choques relacionados à crise abrem espaço para intervenções imperiais. As tensões sociais no espaço pós-soviético, onde a hegemonia da Rússia estava se erodindo rapidamente com a eclosão da guerra na Ucrânia, deram origem a uma dinâmica semelhante de protesto, insurgência e intervenção externa. A Rússia de Putin escolheu a guerra de agressão contra a Ucrânia precisamente sob o impacto das revoltas na Bielorrússia e no Cazaquistão.

Às vezes, Estados com ambições imperiais exploram diretamente as consequências da crise – a Turquia islamo-fascista, por exemplo, usou os movimentos de refugiados de Erdogan para a UE como uma alavanca para extorquir concessões e dinheiro de Bruxelas e Berlim. E Ancara também justifica a expansão imperialista no Norte da Síria e no Norte do Iraque com o desejo de no futuro concentrar os refugiados nessas regiões. O imperialismo, portanto, não deve ser visto apenas historicamente, como um precursor ideológico e prático dos excessos fascistas; o mesmo processo também está ocorrendo na atual crise sistêmica.

A aspiração imperialista por domínio também interage com a crise ecológica do capital, que é incapaz de estabelecer uma reprodução da humanidade amiga dos recursos e do clima devido à sua compulsão pelo crescimento. Isso inclui, por exemplo, as tensões no extremo Norte, no Ártico, onde a camada de gelo que derrete rapidamente está abrindo novas rotas de navegação e tornando acessíveis novos depósitos de combustíveis fósseis; e os países próximos – Rússia, EUA, Canadá e UE – estão lutando por sua exploração. O conflito entre a Rússia e o Ocidente pela Ucrânia, que começou em 2013 como uma batalha entre áreas econômicas concorrentes (UE e EUA contra a desejada “União Eurasiática” de Putin), agora tem um componente de política climática. A Ucrânia tem um solo de terra preta muito fértil, que está rapidamente ganhando valor como uma alavanca de poder geopolítico em vista da iminente escassez de alimentos relacionada ao clima e futuras crises de fome. A comida pode tornar-se ser o petróleo do século 21.

A crise, portanto, leva ao confronto os monstros do Estado capitalista tardio, tanto em suas dimensões econômicas quanto ecológicas. Assim, o imperialismo de crise se assemelha – para ficar com a imagem da crise climática – a uma competição acirrada em um iceberg derretendo, ou a uma luta no naufrágio do Titanic. Como a crise do sistema socioecológico não pode ser resolvida no âmbito do sistema capitalista mundial, o imperialismo de crise tem seu ponto de fuga em uma grande guerra, que teria consequências catastróficas devido ao potencial de aniquilação acumulado no capitalismo tardio. Sem uma transformação emancipatória do sistema, existe o risco de a civilização desmoronar em catástrofe climática e guerra nuclear.

Tradução: Esmeraldo Afortunado.

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