Quando o povo se insurgiu: Como a Intifada mudou o discurso político sobre a Palestina

Graças à Intifada, a população comum da Palestina ocupada demonstrou sua própria capacidade de desafiar Israel sem sequer ter um exército próprio; contestar a liderança palestina ao gerar mobilizações orgânicas; e confrontar os árabes e o resto do mundo sobre suas responsabilidades morais e legais em relação à Palestina e seu povo.

Reproduzimos abaixo um artigo de autoria do companheiro Ramzy Baroud, publicado ontem no Monitor do Oriente Médio. Além da importância histórica, ao recordar o início da primeira Intifada (1987-1993), o artigo mostra o desenvolvimento das tendências às ações autônomas dos palestinos na luta contra a ocupação sionista. Essas tendências à autonomia se confrontaram com as lideranças institucionais da OLP e do Fatah (partido hegemônico na Organização para a Libertação da Palestina), de modo que elas passaram a atuar para falar em seu nome, a capturá-la como força de pressão em favor das negociações, enfim, para renovar sua própria legitimidade, bastante desgastada, nas relações com Estados árabes e ocidentais.

Ramzy Baroud

Para a maioria das pessoas, o dia 8 de dezembro passou como qualquer dia comum. Para os palestinos, no entanto, foi celebrado como aniversário de 33 anos da Primeira Intifada e não há nada de ordinário neste evento histórico.

Hoje, o levante é visto como parte da história e grande oportunidade para refletir e talvez aprender com um passado aparentemente distante. O contexto político da Intifada, não importa qual, desvaneceu com o tempo. A simples explicação para a Intifada é a seguinte: palestinos comuns estavam fartos do status quo; desejavam livrar-se da ocupação militar israelense; e queriam que suas vozes fossem ouvidas. Simples assim.

Mas há ainda mais por trás desta história. Para compreender o significado da Intifada e sua relevância atual é preciso vê-la como um evento político ainda em curso, que gera novas conotações constantemente, ao invés de um evento histórico com pouca relevância às realidades contemporâneas.

De modo bastante previsível, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) moveu-se rapidamente para colher os frutos dos sacrifícios feitos pelo povo e traduzi-los em ganhos políticos tangíveis, como se a tradicional liderança palestina de fato representasse qualquer vontade democrática popular. O resultado foi um desastre. A Intifada foi utilizada para ressuscitar as carreiras de alguns “líderes” palestinos, que alegaram falar em nome do povo para promover as Conversas de Madrid, em 1991, os Acordos de Oslo, em 1993, e todas as outras concessões feitas desde então.

Milhares de palestinos, a maioria jovens, foram mortos pelo exército israelense durante os anos da Intifada. Israel reagiu a protestos não-violentos, incluindo crianças que atiravam pedras, reivindicando meramente a sua liberdade, como se fossem verdadeiros combatentes inimigos. Foi durante estes anos horríveis que as políticas de “atire para matar” e “quebre seus ossos”, entre outras táticas da ocupação militar, foram introduzidas e tornaram-se parte de uma retórica já bastante violenta.

Não obstante, a Intifada não propunha um mandado a Yasser Arafat, Mahmoud Abbas ou qualquer outro oficial ou grupo político para negociar em nome do povo palestino. Certamente, não representava um apelo para que a liderança palestina ofertasse a Israel, ou qualquer outro agente internacional, concessões políticas sem contrapartida.

O povo palestino sempre enfrentou o problema da representação política. Desde meados do século XX, diversos regimes árabes alegaram falar em nome dos palestinos e inevitavelmente utilizaram a causa palestina como parte de sua agenda doméstica e internacional. O uso e o mau uso da Palestina como componente fundamental a uma suposta agenda coletiva árabe, de certo modo, culminou na derrota humilhante dos exércitos árabes na chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967, conhecida em árabe como al Naksa (“revés”). Prometeu-se ainda uma solução rápida à crise de legitimidade quando o maior partido político palestino, Fatah, tomou controle da liderança da OLP. Em 1974, durante a Cúpula Árabe em Rabat, Marrocos, a organização foi reconhecida como “único representante legítimo do povo palestino”.

Esta “legitimidade” seria supostamente a fórmula para solucionar a crise de representatividade, superando toda e qualquer reivindicação feita por governos árabes no exterior. Funcionou, mas não por muito tempo. A hegemonia de Arafat e do Fatah sobre a OLP de fato desfrutou brevemente de algum grau de legitimidade entre os palestinos. Na ocasião, a Palestina era parte integrante de um movimento de libertação nacional em escala global e os governos árabes, apesar das profundas feridas da guerra, ainda eram forçados a acomodar os anseios de seu povo, dado que a Palestina manteve-se como questão central entre os interesses das massas.

Entretanto, na década de 1980, as coisas mudaram rapidamente. A invasão de Israel ao Líbano, em 1982, resultou no exílio forçado de dezenas de milhares de combatentes palestinos, junto de lideranças de todos os grupos palestinos, culminando em massacres brutais contra refugiados palestinos no território libanês.

Os anos seguintes acentuaram duas realidades críticas. Primeiro, a liderança palestina mudou seu foco, da luta armada à mera manutenção de sua relevância como agente político. Exilados em Túnis, Arafat, Abbas e outros emitiam notas com todos os tipos de sinais de que já estavam dispostos a conceder termos, em resposta a uma série de esforços dos Estados Unidos. Segundo, os governos árabes também investiram politicamente, à medida que a marginalização da liderança palestina atenuou a pressão das massas por ação unitária contra a ocupação militar israelense e a colonização da Palestina histórica.

Foi neste exato momento que os palestinos sob ocupação insurgiram-se em um movimento espontâneo que, a princípio, não envolvia qualquer liderança tradicional palestina, regime árabe ou sequer slogans familiares. Eu era um adolescente que vivia em um campo de refugiados em Gaza quando tudo aconteceu – uma verdadeira revolução popular, que tomou corpo da forma mais orgânica possível. Testemunhamos estilingues contra helicópteros militares israelenses; cobertores como tática para incapacitar tanques de guerra; cebolas cruas para compensar os efeitos do gás lacrimogêneo; mas, sobretudo, a criação de uma linguagem para responder a todas as estratégias violentas empregadas pelo exército israelense e articular a resistência do povo palestino em campo, através de palavras de ordem simples e diretas – porém, profundas – espalhadas nos muros decadentes de cada campo de refugiados, cada cidade e aldeia.

A Intifada não atacou a liderança tradicional abertamente, mas ficou claro que os palestinos buscavam alternativas. Líderes de base surgiram em todos os bairros, universidades e mesmo nas cadeias da ocupação. Não havia violência suficiente por parte de Israel capaz de impedir a formação orgânica desta liderança.

A Intifada tornou incontestavelmente claro que o povo palestino havia escolhido uma rota alternativa, sem pedir passagem por outras capitais árabes e, certamente, sem passar por Túnis. Isso não significa que os palestinos deixaram de buscar solidariedade de seus irmãos árabes ou do mundo como um todo. Contudo, a solidariedade que buscavam seria uma modalidade capaz de não excluir o povo palestino de sua própria busca por justiça e liberdade.

Anos de implacável violência de Israel, junto da ausência de uma estratégia política traçada pela liderança palestina, pura exaustão, faccionalismo crescente e miséria crescente eventualmente levaram a Intifada a seu inevitável fim, em setembro de 1993. Desde então, suas conquistas foram maculadas. A liderança palestina utilizou a Intifada para ressuscitar a si mesmo, tanto política quanto financeiramente. Chegou ao ponto de argumentar que os desastrosos Acordos de Oslo e o fútil “processo de paz” foram conquistas da Intifada.

A verdadeira vitória da Intifada, no entanto, é o fato de ter mudado quase por completo a natureza da equação política concernente à Palestina. O levante impôs o “povo palestino” à equação, não como clichê adotado pela liderança tradicional e governos árabes, para assegurar legitimidade política, mas como agente político ativo.

Graças à Intifada, a população comum da Palestina ocupada demonstrou sua própria capacidade de desafiar Israel sem sequer ter um exército próprio; contestar a liderança palestina ao gerar mobilizações orgânicas; e confrontar os árabes e o resto do mundo sobre suas responsabilidades morais e legais em relação à Palestina e seu povo.

Pouquíssimos movimentos populares na história moderna do mundo podem comparar-se à Primeira Intifada, relevante ainda hoje, como foi em seu início, há três décadas atrás.

Ramzy Baroud é jornalista, autor e editor do Palestine Chronicle. É Ph.D. em Estudos Palestino pela Universidade de Exeter e Professor não-residente do Centro Orfalea para Estudos Internacionais e Globais, da Universidade de Santa Barbara, Califórnia.

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