Coletivização total e violência totalitária

Victor Serge

Vi e soube de tantas coisas sobre o drama desses anos obscuros que seria preciso um livro inteiro para dar meu depoimento. Várias vezes percorri a Ucrânia enfaimada, a Geórgia em luto e duramente racionada. Tive uma estada na Criméia durante a fome, vivi toda miséria e ansiedade das duas capitais mergulhadas em penúria, Moscou e Leningrado. Quantas vítimas causou a coletivização total, resultado da imprevidência, incapacidade e violência totalitária?

Esse pequeno texto, que trata da coletivização forçada da terra a partir de 1928 na URSS, é parte do 7º capítulo de Memórias de um revolucionário (São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 278-280), do revolucionário belga-russo Victor Serge (1890-1947). Observe nas deportações – em “trens repletos […] para o Norte glacial, as florestas, as estepes, os desertos” – os indícios dos campos de trabalho forçado geridos pelo Gulag (Administração Central dos Campos). O título é de A Comuna.

A política fora esboçada por Molotov no 15º Congresso do partido: desenvolvimento das explorações agrícolas coletivas (kolkhozes) ou estabelecimentos de cereais do Estado (Sovkhozes). Previa-se um desenvolvimento lento que levaria muitos anos, visto que as explorações coletivas só poderiam suplantar a cultura parcelar à medida em que o Estado lhes fornecesse os instrumentos indispensáveis para a agricultura mecanizada. Mas, de fato, com as requisições [de produtos agrícolas impostas pelo Estado aos camponeses em 1928] tinha-se declarado guerra contra o campesinato. Se o Estado confisca os cereais, de que vale plantar? Na primavera seguinte, a estatística constará o retraimento das terras cultivadas. Greve dos lavradores. Uma única forma de forçá-los: a cooperação agrícola obrigatória administrada pelos comunistas. Conseguirão pela persuasão? Acontece que o lavrador independente que resistiu à agitação-coerção é mais livre e bem alimentado do que o outro. O governo conclui que a coletivização deve ser total e imediata. Mas as pessoas da terra se defendem asperamente. Como quebrar sua resistência? Pela expropriação e deportação em massa dos ricos (kulaks) e de todos os que se quiser qualificar de kulaks. É o que se chama a “liquidação dos kulaks enquanto classe”. Algum dia se saberá em que desorganização da agricultura isso resulta? Os camponeses, ao invés de entregar seu gado ao kolkhozes, destroem-no, vendem a carne e com o couro fazem botas. Com a destruição do gado, o país passa da fome à penúria. Talão de pão nas cidades, mercado negro, queda do rublo, e dos salários reais. Serão necessários passaportes internos para reter à sua revelia a mão-de-obra qualificada nas fábricas. Como a coletivização total conduz à catástrofe, será declarada concluída a 68%, aliás tarde demais, em março de 1930, no auge da fome e do terror.

As mulheres vêm libertar as vacas tomadas pelo kolkhoz, defendem os animais com seu corpo: “Então atirem, bandidos!”. E por que não se atiraria contra essas rebeldes? Na Rússia branca, quando viram cortar a crina dos cavalos para exportação, sem suspeitar que os animais morreriam com isso, as mulheres cercaram o chefe do governo local, Golodiev (assassinado ou suicidado mais tarde, em 1937), e abruptamente levantaram, furiosas, suas túnicas sob as quais estavam nuas: “Tome, canalha! Pegue, se ousar, nossa crina, você não terá a dos cavalos!”. Num burgo de Kuban cuja população inteira foi deportada, as mulheres se despiram nas casas, pensando que não ousariam fazê-las sair nuas; expulsaram-nas da mesma forma, a coronhadas, para vagões de animais… Tcheboldaev, do CC [Comitê Central do partido], presidia às deportações massivas dessa região, sem suspeitar que, por seu próprio zelo, seria fuzilado em 1937. Terror nos mais ínfimos lugares. Chegou a haver mais de trezentos focos de sublevação camponesa simultaneamente na Eurásia soviética.

Em trens repletos, os camponeses deportados partiam para o Norte glacial, as florestas, as estepes, os desertos, populações despojadas de tudo; e os anciãos morriam no caminho, os recém-nascidos eram enterrados em taludes das estradas; semeavam-se em todos os ermos pequenas cruzes de galhos ou de madeira branca. Populações, transportando em carroças todos os seus pobres haveres, lançavam-se para as fronteiras da Polônia, Romênia, China, e passavam – nem todas, é claro – apesar das metralhadoras. Em uma longa mensagem ao governo, num estilo nobre, a população de Abkhazie solicitou a autorização de emigrar para a Turquia. Vi e soube de tantas coisas sobre o drama desses anos obscuros que seria preciso um livro inteiro para dar meu depoimento. Várias vezes percorri a Ucrânia enfaimada, a Geórgia em luto e duramente racionada. Tive uma estada na Criméia durante a fome, vivi toda miséria e ansiedade das duas capitais mergulhadas em penúria, Moscou e Leningrado. Quantas vítimas causou a coletivização total, resultado da imprevidência, incapacidade e violência totalitária?

Um sábio russo, sr. Prokopovitch, fez o cálculo a partir das estatísticas soviéticas oficiais – no tempo, aliás, em que prendiam e fuzilavam os estatísticos.

Até 1929, o número de lares camponeses não para de crescer: 1928 – 24.500.000 lares; 1929 – 25.800.000 lares. Concluída a coletivização em 1936, há apenas vinte milhões e seiscentos mil lares. Em sete anos, desapareceram cerca de cinco milhões de famílias.

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