Governo Lula-Alckmin: uma política externa à sombra do imperialismo?

Governo Lula-Alckmin: 
uma política externa à sombra do imperialismo?
Mário Maestri

     Neste momento, discute-se ainda se Maduro virá para a posse de Lula-Alckmin. Entrementes, o Departamento de Estado reservou duzentos apartamentos de um hotel em Brasília para a delegação enviada para a entronização da nova administração. Se Biden não aparecer, de surpresa, será representando pela vice-presidente Kamala Harris. Fala-se também da vinda de Obama. Ou seja, uma badalação geral. Nas últimas semanas, estreitam-se e afinam-se os contatos do novo governo com o imperialismo estadunidense.
Em 5 de dezembro, Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional de Biden, entrevistou-se, por quase duas horas, com Lula da Silva, em Brasília. E, com ele, vieram representantes de todas as instâncias determinantes da política externa estadunidense para a América Latina que se encontraram com eventuais futuros homólogos. O que constituiu um outro registro da importância acordada ao próximo governo brasileiro, pelo Departamento de Estado, na su gestão da política externa para o mundo e sobretudo para tudo que se encontra ao sul do rio Grande.
Agressão petista ao Haiti
Foram divulgados alguns pontos gerais discutidos na reunião de Jake Sullivan com Lula da Silva. Entre eles, estava o Haiti. O governo estadunidense propõe uma nova ocupação militar da sofrida nação antilhana e aventa-se que seja novamente dirigida pelo Brasil.  Em 2004, a primeira administração petista prestou serviço imundo, ao liderar a ocupação militar do Haiti, que se manteve por treze anos, devido a um pedido expresso do governo estadunidense da época. [MAESTRI, 2004, 2010.] E foi ali que se chocou o ovo da serpente militar do golpe de 2016, entre militares brasileiros e ianques, quando da administração Obama. Se não acreditam, perguntem para o Heleno! 
Em agosto de 2004, Lula da Silva esteve no Haiti visitando as tropas brasileiras de ocupação. Em um cinismo sem fim, depositou coroa de flores no Panteão Nacional onde se encontra o sino que teria anunciado a independência do País, obtida por cativos sublevados que derrotaram tropas francesas, espanholas e inglesas e aboliram, por primeira vez nas Américas, a escravidão. Sem qualquer oposição por parte da direção do PT, esse foi certamente o momento mais sórdido  da dita diplomacia  “Ativa e Altiva” lulista.
Na articulação daquela operação vergonhosa participou ativamente o trotskista renegado Marco Aurélio Garcia, ao qual a esquerda colaboracionista levantou loas, após a sua morte. O tacão do exército brasileiro só deixou de oprimir a população haitiana em 2017, já no governo de Michel Temer.   Sobretudo devido às relações dos militares com o futuro governo, dificilmente teremos uma repetição do enorme servilismo lulista ao imperialismo  naquela ilha do Caribe. Mas, alguma participação, se a intervenção se efetivar, quem sabe …
Embarcando no bonde imperialista
           Antes mesmo da subida da rampa, em 1º de janeiro, o imperialismo americano já obteve a participação  da próxima administração futuro em uma das suas principais ofensivas diplomáticas atuais, que realiza associado à OTAN. Ou seja, a proposta de literal cassação do direito de veto da Rússia e da China no Conselho de Segurança da ONU. O Conselho de Segurança da ONU tem cinco membros permanentes, os vencedores da II Guerra Mundial, todos eles potências nucleares – USA, Inglaterra, França, Rússia e China. Cada dois anos, dez membros provisórios são eleitos pela Assembleia Geral da ONU, com direito a voto, mas não a vetar as decisões tomadas. São os membros permanentes que possuem direito de veto sobre as deliberações do Conselho.
Essas deliberações, se aprovadas, são resolutivas para todos os membros da ONU, inclusive se tratando de operações militares em qualquer região do mundo. Em geral, as operações militares deliberadas pelo Conselho de Segurança são realizadas com a participação de tropas de múltiplos países da Organização das Nações Unidas.  Na ocupação do Haiti  participaram quinze nações e mais de 35 mil soldados. Foram as nações e a ONU que arcaram com os custos econômicos e políticos de uma operação que interessava exclusivamente ao governo estadunidense para impedir o desembarque de haitianos desesperados nas suas costas.
    Uma decisão vinculativa do Conselho de Segurança  deve ser aprovada por nove dos seus quinze membros e não sofrer o veto de um ou mais membros permanentes. Portanto, o direito ao veto impede que o Conselho de Segurança tome decisões contra interesses frontais de um dos cinco membros permanentes.  Sem o freio do veto, ao obter a adesão de seis dos dez membros provisórios, os USA e a OTAN poderiam transformar, como operação da ONU, suas infindáveis intervenções militares, diretas e indiretas.
Nova Governança Internacional
        Em setembro de 2020,  quando da reunião da Assembleia Geral da ONU, os representantes da Índia, da Alemanha, do Japão e do Brasil reivindicaram novamente o ingresso como membros permanentes do Conselho de Segurança, logicamente sem direito a veto, o que não modificaria muito o seu funcionamento. Daqueles países, a Índia é o único que possui armas nucleares e constitui uma superpotência econômica em expansão. Entretanto, trata-se de proposta que dificilmente se concretizará. Diversas nações, como a Itália, o Paquistão, a Coreia do Sul, o México, a Argentina, a Espanha, o Irã, a Polônia, opõem-se àquela proposta de ingresso, que não as contemplam, avançando outras soluções intermediárias. 
Atualmente, os USA e a OTAN pressionam pelo fim do direito de veto com o objetivo imediato de servir-se da ONU, através do Conselho de Segurança, na sua ofensiva geral contra a Rússia, na Ucrânia, que não recebeu, como esperavam, o apoio internacional. Em verdade, o governo estadunidense já propôs a ejeção da Rússia do Conselho de Segurança e iniciativa bipartidária estadunidense -democrata – republicana- avança a proposta da expulsão da Rússia da ONU. O domínio imperialista do Conselho de Segurança o transformaria em uma ferramenta excelente no assédio cada vez mais premente da China pelo bloco imperialista, sobretudo no  que diz respeito a Taiwan e ao mar da China Meridional, teatro prevista de eventual provocação militar USA anti-chinesa. [YOU, 2021.]
A campanha imperialista sobre o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU faz parte da forte disputa em torno de uma nova “governança global”. Enquanto impulsionam ataque militar aberto contra a Rússia e tentativa de isolamento econômico e diplomático da China, os USA reafirmam a sua predestinação à liderança unipolar inconteste, associada ao bloco imperialista que dirige e mantém na submissão, formado sobretudo pela União Europeia, Inglaterra, Canadá, Austrália, Japão,  Coreia do Sul. Propõem que sua liderança e policiamento global são imprescindíveis para a defesa universal da civilização, como a compreendem, é claro. Por outro lado, sobretudo a China e a Rússia, mas também nações de peso no cenário mundial, como, entre outras, a Índia, a Turquia, a Indonésia e, agora, a Arábia Saudita, mobilizam-se por uma ordem multipolar.  Sonham libertar-se dos grilhões, diretos e indiretos de todo tipo que as prendem ao imperialismo estadunidense. 
A Rebeldia se Estende
    Na operação estratégica do bloco imperialista atlântico lançada contra Moscou, na Ucrânia, os USA e a OTAN foram surpreendido pela negativa daquelas grandes nações e de tantas outras da África, Ásia e Américas em seguir as suas propostas de bloqueio diplomático e sobretudo econômico da Rússia. O que ensejou um forte tropeço na tentativa de desarticular rapidamente a economia da Rússia e, se possível, seu estado e seu governo, e obrigá-la a se submeter ao jugo do bloco imperialista, com, se possível,  um retorno aos anos de Boris Yeltsin (1991-1999). [CASELLI, 2013; KARAGANOV, 2020.] A nova realidade enseja  que o imperialismo estadunidense acelere a sua campanha internacional pela reformatação de instituições internacionais que sirvam de correias de transmissão da imposição das suas visões de mundo e das suas necessidades, em direção da conquista do desejado “Novo Século Americano”.
A campanha pela abolição do veto no Conselho de Segurança da ONU, de difícil realização, constitui  movimento do bloco imperialista estadunidense em prol da cassação do veto da China e, sobretudo, nesse momento, da Rússia, nação  com que trava confronto militar semi-direto. [KASHIN & KRAMNIK, 2022.] E a futura administração Lula-Alckmin embarcou no carro de som imperialista sem qualquer discussão no Senado, no Parlamento e, sobretudo, na sociedade. E, como sempre, a direção e a militância petistas fizeram-se de mortos, para não terem que se pronunciar sobre essa grave questão. 
Em 16 de novembro, na 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas -COP27-, no Egito, Lula da Silva defendeu o fim do direito de veto do Conselho de Segurança da ONU, tornando-se verdadeiro papagaio falante  de Biden. “O mundo de hoje não é o mesmo de 1945. É preciso incluir mais países no Conselho de Segurança da ONU e acabar com o privilégio do veto, hoje restrito para alguns poucos, para a efetiva promoção do equilíbrio e da paz”. Trata-se de uma medida que, se tomada,  acelerará inevitavelmente o confronto entre o bloco imperialista estadunidense e a Rússia e a China e os seus aliados e associados.
Reformatar o G20
Em 1999, o G20 nasceu  e consolidou-se como instância de discussão das  maiores economias mundiais, em um cenário de repetidas crises financeiras. Reconhecendo a emergência de novas potências regionais, o G20 destinava-se a funcionar  como instrumento de manutenção da hegemonia do bloco imperialista atlântico, que se expressava anteriormente, em forma restrita, sobretudo através do G7 – USA, Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha, Japão, Canadá. Ele foi sempre importante instrumento da “governança global” do grande capital em um viés aberta e explicitamente neoliberal.
Atualmente, o bloco imperialista estadunidense organiza-se também para retomar a hegemonia perdida no G20, no qual participam potenciais mundiais como a China, a Índia, a Rússia, a Turquia que se mobilizam por uma “governança global” multipolar, com destaque para as questões financeiras e econômicas. Entre elas, há enorme vontade de questionar e superar o papel desmedido do dólar como moeda internacional de trocas e dos USA no controle dos instrumentos e institutos do  comércio mundial. 
Em novembro deste ano, na última reunião do G20, em Bali, na Indonésia, tentativas de imposições imperialistas foram rejeitadas ou não frutificaram na medida do esperado – expulsar a Rússia do G20 e convidar a Ucrânia para a reunião; condenar unanimemente a ação russa na Ucrânia, etc. As resoluções impulsionadas pelo G7, que se reuniu à margem do G20,  não foram acolhidas como se esperava, registrando fratura na “governança global” tradicional que tende a se agravar. Preocupado com o forte apoio à China e à Rússia na África, Biden desenvolve atualmente ofensiva de simpatia em direção do Continente Negro e propôs  que a União Africana integre o G20 como membro permanente. 
Governança Global 
           Na reunião de  5 de dezembro, em Brasília, no encontro de  Lula da Silva e Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional de Biden, discutiu-se, igualmente, “uma governança global mais democrática e mais justa” [sic], a Venezuela,  a guerra USA-OTAN na Ucrânia, o Haiti e o G20. Portanto, uma pauta essencialmente de interesse estadunidense. Entende-se como “governança global” o estabelecimento de leis e instruções nos mais diversos níveis, que regulem o comportamento das nações na atual ordem global,  ou seja, que se sobreponham às nações. Um exemplo, em pequeno, é o Tribunal Penal Internacional, que julga e condena segundo as necessidades e instruções do bloco imperialista. O mais sólido caso da imposição de uma governança supra-nacional é a União Europeia, que, desde Bruxelas, impõe as decisões do grande capital europeu e estadunidense às nações do Velho Continente, puindo duramente as que não obedecem suas instruções.
E, também nesse relativo, Lula da Silva, antes mesmo de ser coroado, deu o seu consenso à iniciativa imperialista.  Em 12 de dezembro, no Twitter, Lula da ele declarava: “A democracia enfrenta um desafio no mundo. Na América Latina, Europa e EUA, inimigos da democracia se organizam e se movimentam. O combate, portanto, precisa ser nas trincheiras da governança global, com tecnologias avançadas e uma legislação internacional mais dura e eficiente.” Destaque-se a proposta de aproximar as ameaças à democracia na América Latina, do tipo Bolsonaro, das ameaças conhecidas nos USA, do tipo Trump, em apoio indireto a Biden. Não podemos deixar de assinalar que Donald Trump, com todas as suas maluquices e conservadorismos, completou os seus quatro anos de governo sem promover nenhuma guerra no exterior. E Biden segue bordejando em sua ofensiva na Ucrânia um confronto nuclear. A gravidade da declaração do novo presidente brasileira está em propor o combate dessas ameaças, não pela mobilização popular e pela legislação nas respetivas nações, mas com uma “legislação internacional” “dura e eficiente”, inevitavelmente dirigida e moldada pelo bloco internacional hegemônico. Nos fatos, Lula da Silva apontava para a alienação de parte da autonomia nacional do Brasil.
Também antes da posse, Lula da Silva colocou-se em radical oposição aos presidentes da Bolívia, da Argentina, da Colômbia e do México, que se mobilizaram  em forma corajosa contra o golpismo conservador e imperialista no Peru. Eles lembraram que desde a  posse de  Pedro Castillo, o presidente peruano foi motivo de forte e permanente assédio antidemocrático. Lula da Silva, ao contrário, apoiou o golpismo que defenestrou e aprisionou o presidente peruano, com arraste popular, por não ser afinado com as orientações imperialistas.  Um golpismo muito semelhante ao que siderou a administração Dilma Rousseff.
Desesperada Resistência Popular Peruana
Sobre o Peru, Lula da Silva propôs, em mais um serviço ao imperialismo: “É sempre lamentável que um presidente eleito democraticamente tenha este destino, mas entendo que tudo foi submetido dentro da estrutura constitucional”. “O que o Peru e a América do Sul precisam neste momento é de diálogo, tolerância e convivência democrática, […] Espero que a Presidenta Dina Boluarte tenha êxito em sua tarefa de reconciliar o país e conduzi-lo no caminho do desenvolvimento e da paz social”. Como não podia deixar de ser, Bolsonaro concordou em gênero, número e grau com a declaração de Lula, seguindo assim ambos a orientação do  governo ianque.
Atualmente, sob Estado de Emergência, a presidenta e o parlamento golpistas, sob instruções diretas estadunidenses, reprimem com banho de sangue as multidões de populares que lutam nas ruas pela liberdade de Pedro Casillo, por novas eleições, por uma Constituinte. Reivindicações desconsideradas totalmente. Já são mais de vinte os populares mortos pelas forças repressivas peruanas, além de milhares de feridos e aprisionados. E sobre tudo isso, sequer uma palavra da direção petista em apoio à mobilização popular anti-golpista peruana.
O Departamento de Estado já reservou aposentos para os em torno de 250 estadunidenses que desembarcarão em Brasília, e uma espécie de invasão silenciosa, para a posse  Lula-Alckmin. Se vier Biden, talvez anime a festa declarando que está apreciando muito o clima da “Bolívia” e  que é grande s sua alegria de vir à posse de “Perón”. A importância do Brasil para o imperialismo estadunidense foi sempre determinante. Entretanto, hoje, ela é ainda maior. O que explica o enorme investimento passado e atual na chapa Lula-Alckmin.
No coração do furação
O Brics -Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul- está sendo visto como porto de refúgio das nações favoráveis a uma “governança global” multipolar.  Atualmente,  a instituição representa em torno de 40% da população do globo e uns 25% do produto interno bruto mundial. A Turquia, o Egito, a Argentina, a Argélia, a Arábia Saudita já apresentaram pedido formal de ingresso no Brics. Com essas extensões, ele se transformará, também, em associação de grandes nações produtoras e consumidoras de  energia.
O imperialismo estadunidense, em confronto militar com a Rússia e latente com a China, não pode permitir que esse organismo se transforme no maior conglomerado atuante internacional  à margem e, no mínimo, independente dos USA e da União Europeia.  Certamente pretende utilizar a diplomacia dita “ativa e altiva” do Brasil para melar, até onde for possível, a consolidação e expansão do Brics, assim como Lula da Silva melou as mais avançadas iniciativas propostas pelo “companheiro” Chaves.
A mais do que provável submissão de fato, para além de declarações altissonantes de independência, da administração Lula-Alckmin ao imperialismo estadunidense,  não deve surpreender. As ligações de Lula da Silva e do PT com o Departamento de Estado são antigas e foram consolidadas quando do longo comando militar brasileiro da ocupação do Haiti. Após o golpe de 2016, o PT jamais se afastou da estratégia de recuperar a administração federal  radicalizando a sua submissão ao grande capital e ao imperialismo. Operação na qual teve total sucesso.
Organizando a Desmobilização
Para alcançar esse objetivo, Lula, a direção petista e os seus  múltiplos  puxadinhos militaram ininterruptamente para abortar qualquer oposição e combate do movimento social e do mundo do trabalho ao golpismo. Golpismo, sob o comando maior do imperialismo estadunidense, que almejava -e tem implementado em forma crescente- a transformação do Brasil em uma nação neo-colonial globalizada, produtora de minerais, de grãos, de energia e de produtos industriais de baixo valor agregado. Após seis anos de colaboracionismo, o PT se transformou novamente na primeira opção do grande capital e do imperialismo nas eleições de 2022. [MAESTRI, 3/07/2022.]
Para o grande capital e o imperialismo, nada melhor do que Lula-Alckmin na presidência, para a institucionalização e prosseguimento das ações golpistas, no que elas têm de essencial, em uma modalidade soft,  civilizada e constitucional.  Trocou-se o truculento Bolsonaro, por um Lula da Silva, no exterior, ativo  nas múltiplas instâncias internacionais, sempre à sombra do imperialismo, e, no interior, retomando avançando a retórica populista de cuidar do pobre enquanto se ocupa do capital. Um governo, em fim, controlada ferreamente pelo  grande capital,  através do Congresso, do Senado, do STF, etc. e supervisionado pelo intocável  alto comando golpista das forças armadas. 
Compreende-se assim o silêncio geral sobre o imperialismo estadunidense e o golpe de 2016 durante as duas últimas campanhas presidenciais petistas, a de Haddad, em 2018, e a de Lula-Alckmin, em 2022. Golpe, para Haddad, uma palavra muito forte para descrever o que ocorrera em 2016. Silêncio mantido sob a escusa de derrotar o inimigo principal, a terrível ameaça bolso-fascista. Maré fascista que, ao cair as cortinas, encerrando a apresentação do Mito, no geral, não conseguiu ir além dos acampamentos bem comportados, na frente dos comandos do exército nas grandes cidades, onde senhores e senhores vestidos de verde-amarelo implora, até para os ET, um golpe de Estado, enquanto tomam chimarrão. 
2022 ainda pior que 2002
Se a vitória petista de 2002 deveu-se essencialmente ao voto da população e do trabalhador, o sucesso da chapa Lula-Alckmin foi vitoriosa devido ao apoio das facções centrais do grande capital nacional e internacional, que sempre se expressaram através da Globo, do Estadão, da Folha de São Paulo. O respeito do pleito pela oficialidade da ativa e reformada engajada diretamente com o bolsonarismo foi uma ordem reafirmada, em diversas vezes, por emissários e representantes do Departamento de Estado estadunidense.  O alto comando das forças armadas do Brasil logicamente se submeteu à hierarquia do comando estadunidense.
Devido à registrada campanha da oposição colaboracionistas de desorganização e desmobilização do movimento social e do mundo do trabalho, radicalizada após 2016, a chapa Lula-Alckmin, o PT e filhotes não teriam conseguido colocar ninguém na rua, no caso de desrespeito de uma sua vitória eleitoral. No máximo, teriam ido chorar pitangas junto ao Xandão e ao STF, que também se moveram sempre respeitando o grande capital e o imperialismo.
A administração Lula-Alckmin apresta-se apenas a pagar a dívida contraída com o imperialismo estadunidense, em sua versão democrata. Entretanto, não se trata de uma mera submissão política devido a acordos anteriores explícitos ou implícitos. Tal posicionamento expressa sobretudo a atual natureza do bloco político-social que chega ao governo. Parte substancial do mesmo apoia e exige a continuidade, com correções pontuais, da realidade institucional econômica, política, jurídica, etc. criada pelo golpe de 2016, como proposto. 
Nação neocolonial globalizada
Solidifica-se no Brasil seu status de nação neocolonial globalizada. [MAESTRI, 2019.] O perfil conservador e os compromissos com o imperialismo do bloco político-social Lula-Alckmin torpedeiam qualquer autonomia nacional de fato na política exterior. Realidade registrada no veto  ao retorno de  Celso Amorim à chefia do ministério de Relações Exteriores. Em seu lugar, foi escolhido o embaixador Mauro Vieira, que  ingressou e se diplomou, no Instituto Rio Branco, nos anos mais duros da ditadura militar, quando o Itamaraty vigiava e denunciava brasileiros oposicionistas no Exterior. E isso, sem que sequer um de seus membros realizasse esboço de oposição efetiva ao desvio criminal dessa instituição de Estado.
Desde então, Mauro Vieira progrediu na carreira diplomática sob todos os governos que se seguiram ao fim do regime militar, em 1985. Entre 2010 e 2015, foi embaixador nos USA, em Washington, sendo indicado ministro das relações exteriores do governo Dilma Rousseff. Em 2016, foi nomeado por Michel Temer como representante permanente do Brasil na ONU. Portanto, um diplomata acima de quaisquer suspeitas. No mesmo sentido, Gleisi foi mantida de castigo na direção do PT, para que os tradicionais e bem comportados movimentos sociais não tenham sequer um representante direto de destaque no governo. 
Todos os porta-vozes da administração Lula-Alckmin já deixaram claro que não vai haver “revogaço” das transformações antipopulares e anti-nacionais estruturais impulsionadas pela administração Temer e Bolsonaro, em obediência ao programa do golpe de 2016. A destruição da legislação trabalhista vai continuar no que tem de fundamental; as privatizações a preço de banana dos bens nacionais serão respeitadas; as empresas monopólicas privadas destruídas pelo golpe não serão restauradas e estatizadas; seguirá a política de escravidão assalariada determinada pelo salário mínimo; os ataques à previdência serão mantidos e, quem sabe, ampliados, etc.
Escravidão Assalariada
É previsível uma administração Lula-Alckmin orientada segundo a pauta do Partido Democrático dos USA, com sensibilidade formal -e dirigidas para as classes médias- para as reivindicações identitárias de cor, de gênero, nacionais etc. associadas a medidas sobretudo cosméticas de proteção da biodiversidade e da floresta amazônica, para conquistar o beneplácito dos USA e da União Européia. Janja, que, sem ter recebido um voto e ter sido elegida apenas por Lula, parece revelar o apetite político de uma Evita Perón, além de ter indicado a futura ministra e o secretário executivo do Ministério da Cultura, anunciou que na posse não se terá fogos de artifício e tiros de canhões, medida para não agredir os autistas eventualmente presentes.  
Será mantido o salário-mínimo escravista e as 44 horas regulamentares de trabalho, regozijos de empresários pequenos, médios e grandes. As privatizações diretas serão certamente substituídas pelas Parcerias Público-Privadas, uma das especialidade de Haddad, e outros sucedâneos. Quanto à manipulação-acomodação da população miserável,  seguirá  a Bolsa Família dos governos petistas anteriores, rebatizada por Bolsonaro de Auxílio Brasil. Medidas recomendadas pelo Bando Mundial, pelo FMI, etc. Atualmente, ela atende a mais de 20 milhões de famílias, em torno de 50 milhões de brasileiros, isto é, 25% da população do país. Uma enorme massa lumpen-proletária passível de manipulação populista, como o foi nos governos passados petistas e bolsonarista.
Briga de Cachorro Grande
A grande incógnita sobre as relações internacionais e nacionais do novo governo será o tratamento dado à China, definida como  o principal inimigo a ser abatido pelos  Estados Unidos. Planeja-se uma próxima viagem de Lula da Silva à China, mas a diplomacia chinesa mantém-se relativamente reticente com a nova administração, em comparação à estadunidense. O agro-negócio e o balanço comercial brasileiro dependem da China, como vampiros sedentos de sengue vivo. Um recuo chinês de dez por cento nas compras de grãos já constitui uma catástrofe para o agronegócio brasileiro.
Mais ainda. O capital imperialista chinês já realizou grandes avanços no Brasil, não errando muito Bolsonaro quando dizia que a China não estava comprando no Brasil, mas comprando o Brasil. Bolsonaro esquecia entretanto da agregar que a grande nação agia  como os USA e todas as nações imperialistas com fôlego para tal. No Brasil, a China já construiu alianças nos governos regionais onde possui grandes investimentos. [MAESTRI, 2021.]
As empresas controladas pelo capital público e privado chinês no Brasil são poderosas alavancas de pressão. O antigo “Império do Meio” conquistou amplas simpatias nos múltiplos partidos, no Congresso e no Senado. Há décadas, militantes petistas de destaque realizam intermediações comerciais entre a China e o Brasil. A China avança seus laços com a comunidade acadêmica e tem seus intelectuais orgânicos incondicionais, financiados direta e indiretamente.
Com a radicalização inevitável do confronto USA-China vai certamente acrescer o esforço estadunidense realizado durante o governo Bolsonaro de estremecer as relações diplomáticas da China com o Brasil e de impedir o ingresso dos capitais chineses no país e na América Latina. O que anuncia, portanto, uma briga de cachorro grande.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
KARAGANOV, Sergej. “Se perdessimo, la Russia rischierebbe di spaccarsi”. LIMES. Revista italiana di Geopoltica. 4, Roma, maggio, 2020.
KASHIN & KRAMNIK. O primeiro grande conflito militar dos últimos trinta anos. Tradução do russo de Paulo Alves Lima, 10 de agosto de 2022, Contrapoder, https://contrapoder.net/artigo/o-primeiro-grande-conflito-militar-nos-ultimos-trinta-anos/ (acessado em 20/08/2022.)
MAESTRI, Mário. Brasil – Haiti: servindo a um povo de mortalha. Correio da Cidadania. https://www.correiocidadania.com.br/antigo/ed398/opiniao.htm [2004]
MAESTRI, Mário. O Haiti precisa de médicos e engenheiros e não de soldados. Entrevista a Maestri, Mário, por Igor Ojeda, Brasil de Fato, 24/01/2010. https://pcb.org.br/portal/precongresso/mario_maestri.pdf
MAESTRI, Mário. Por que não voto em Lula nem que a vaca tussa! 13/07/2022. Contrapoder.net. https://contrapoder.net/colunas/por-que-nao-voto-em-lula-nem-que-a-vaca-tussa/
MAESTRI, Mário. O despertar do Dragão. Nascimento e consolidação do imperialismo chinês. 1949-2021. O confronto USA-China no Brasil e no mundo. Porto Alegre: FCM Editora, 2021.https://clubedeautores.com.br/livro/o-despertar-do-dragao-2
MAESTRI, Mário. Revolução e Contra-Revolução no Brasil: 1530-2019. 2. ed. Ampliada. Porto Alegre: FCM Editora, 2019. https://clubedeautores.com.br/livro/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil
CASELLI, G. P. La Russia Nuova. Economia e Astoria da Gorbacev a Putin. Milano: Mimesis, 2013.

YOU, Jil. La Cina prepara la guerra che non vorrebbe fare. Limes, Rivista Italiana di Geopolitica, Torino, n. 9, 11 out. 2021. Disponível em: https://www.limesonline.com/cartaceo/la-cina-prepara-la-guerra-che-non-vorrebbe-fare.

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