O que há atrás das montanhas?

Urbano Nobre Nojosa

O filosofo francês Jacques Ranciére, em seu ensaio sob estética e política trata sobre a partilha do sensível em que defende:

“denomino partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fica, portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipo de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha.”

O processo eleitoral para eleição presidencial em 2022 revelou uma nítida discrepância de valores políticos e sociais, que perduram até o momento, dando sinais do projeto de país do agronegócio, em parceria com o movimento neopentecostal conservador e das forças armadas. A tríade comunga em defender a autocracia burguesa do governo Bolsonaro.
Esse projeto teológico-político-militar faz parte da missão de fé defendida no livro “A profecia das Sete Montanhas – Johnny Enlow”, louvando a próxima revolução de Elias, que terá a missão de preparar o mundo inteiro para o retorno de Jesus. Portanto, todos os inimigos da fé cristã devem ser submetidos e colocados sob seus pés, como emissário de um Deus dos últimos tempos, o mesmo Deus que conquistou as sete nações (Heteus, Girgaseus, Amorreus, Cananeus, Ferizeus, Heveus, Jebuseus) correspondendo as sete montanhas contemporâneas: Sociedade Global, Mídia, Governo, Educação, Economia (negócios), religião, celebração (arte e entretenimento) e família.
Essa profecia foi amplamente disseminadas em universidades e igrejas desde 1975, em eventos, workshops e treinamentos para lideres religiosos no mundo pelos pastores americanos Loren Cunningham, fundador do “Juventude como uma missão” (YWAM) e Bill Bright.
Essa profecia tem como suporte teológico o trecho do apocalipse 5:1-12

1.E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos.
2.E vi um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos?
3.E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele.
4.E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele.
5.E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos.
6..E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete pontas e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra.
7.E veio, e tomou o livro da destra do que estava assentado no trono.
8.E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.
9.E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e língua, e povo, e nação;

  1. E para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra.
  2. E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos animais, e dos anciãos; e era o número deles milhões de milhões, e milhares de milhares,
  3. Que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças.

No Brasil, a (YWAM) é chamada “Jovens com uma missão” (JOCUM). Entre suas lideranças temos a ex-ministra Damares, que atuava desde a década de 1990 conjuntamente com ONGs internacionais junto aos povos indígenas da Amazônia, em particular com a Tribo Suruwaha.
A advogada e pastora Damares nesse momento, fazia mediação da JOCUM (Jovens com uma missão) com os políticos evangélicos de Brasília. O fato marcante nessa trajetória foi quando a FUNAI e o Ministério Público da Região Norte começaram a estabelecer limites diante da ocupação evangélicas nas tribos amazônicas, em particular, quando criminalizou o filho do fundador da missão JOCUM, David Cunningham que produziu o documentário “Hakani – voz pela vida” em resposta às ações judiciais perpetrada pela FUNAI, revelando que o descaso da instituição brasileira frente ao infanticídio indígena na tribo do povo Suruwaha.
Diante da divulgação desse documentário, o Ministério Público Federal multou a missão JOCUM em três milhões de reais, por não ter autorização para filmar crianças indígenas.
Frente a esse acontecimento de exposição das crianças indígenas, a pastora Damares que é formada em Direito, foi em defesa do documentário e, ao mesmo tempo, enfrentou a ação judicial, pois exibia o documentário proibido em vários templos evangélicos no Brasil, com discurso de que os princípios cristãos estavam enfrentando a pseudocultura marxista e “gueisista”. A partir desse momento, a pastora Damares tornou-se a mediação desse projeto das sete profecias no governo bolsonarista ao assumir o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Portanto, os princípios das sete montanhas conduziram as pautas políticas, revelando a face político-teocrática do governo, embaralhando as posições políticas do espaço comum, envolvendo uma coreografia de signos odiosos, como inautenticidade, ruptura entre o pensar dogmático da cultura e a vida cotidiana do povo brasileiro, acusando-o de práticas demoníacas e deformadas.
A performance tresloucada do discurso da Damares criava cortinas de fumaça capazes de obnubilar a real intenção das políticas de privatização, desmonte social e crise econômica. É importante lembrarmos que performance é reconhecimento que realiza, concretiza, faz passar algo da virtualidade à atualidade concreta. As frases de Damares tinham impacto na mídia social, por exemplo, “A gravidez é um problema que dura só nove meses”; “Nenhuma mulher quer abortar”; “Ninguém nasce gay”; “Não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja”; ‘É o momento de a igreja governar; “A mulher nasceu para ser mãe”. Essas frases nos levavam à cilada de respondê-la denunciando seu caráter de ódio e perseguição de seus dogmas conservadores. Enquanto, o rolo compressor de desmonte econômico e político era aplicado nas áreas sociais .

O livro de Délcio Monteiro de Lima, “Os demônios descem do Norte” já nos chamavam a atenção para essa ocupação evangélica neopentecostal na América Latina. Em particular, a fusão da fé evangélica neopentecostal com ideal econômico neoliberal, configurando uma agenda conservadora de costumes com os valores neoliberais.
A agenda neoliberal na América Latina implantou a diretriz de corte de gastos sociais, a partir do Estado mínimo e com medidas econômicas de responsabilidade fiscal, como adequadas para possíveis saídas das crises monetárias e fiscal nos últimos anos .
Seguir a agenda neoliberal como um diretriz econômica-política gerou uma crise social sem precedentes na América Latina, com aumento da população de desempregados, fantasma da fome, precarização do trabalho, inflação, queda da renda do trabalhador, juros elevados, concentração de renda, aumento da pobreza e miséria.
Ao enfrentar a agenda neoliberal foi necessário demonstrar a relação intrínseca entre neoliberalismo e as forças evangélicas neopentecostal na América Latina.
Essa agenda conservadora fez ressurgir o fascismo como uma realidade histórica na América Latina, fazendo com que “a forma de fascismo de menor refinamento ideológico, que envolve menor “orquestração de massa” e um aparato de propaganda mais rudimentar, mais que se baseia fundamentalmente na monopolização do poder estatal e em uma modalidade de totalitarismo de classe.” (Florestan Fernandes ) Em que a defesa do retorno das ditaduras militares reapareceu como alternativa política para enfrentar os trabalhadores, sindicatos, intelectuais, políticos reformistas etc. Movimento indígenas. Movimento negro. Etc
Nesse território de resistência, devemos buscar José Carlos Mariátegui para quem “a solução dos problemas do índio tem que ser uma solução social. Seus realizadores deve ser os próprios índios.” Anterior a isso: “a república significou para os índios, a ascensão da nova classe dominante que se apropriou sistematicamente de suas terras em uma raça com costumes e alma agrárias, com uma raça indígena, esse despojo foi a causa de uma dissolução material e moral. A terra sempre foi toda alegria do índio. O índio desposou a terra. Sente que a vida vem da terra e volta à terra. Finalmente, o índio pode ser indiferente a tudo, menos a posse da terra que suas mãos e seu alento lavraram e fecundaram religiosamente.”
Essa mescla das forças evangélicas neopentecostais na América Latina e agenda conservadora neoliberal reconfigura a partilha do sensível destruindo as inscrições de sentido de comunidade, tornando-se negação da política como atividade leiga e livre, destruindo a tapeçaria social do território por uma planalidade dogmática teológica conservadora neopentecostal, em que as políticas sociais se tornaram caças às bruxas, demonstrando a irracionalidade do patriarcalismo, negacionismo e genocídio como expressões políticas do capitalismo. Essa mescla teológica-neoliberal transformou a sociedade num recinto de cadáveres humanos. Não podemos em memória dos 692 mil mortos de COVID-19 deixar de denunciar que esse projeto obscurantista e negacionista é um crime de lesa humanidade. Enfim, genocídio! O apocalipse é aqui.

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