Quem ataca e quem defende o governo Lula-Alckmin

Mário Maestri

Não sabemos ainda qual o centro organizador, os objetivos e a dinâmica precisa da manifestação que resultou na  guerrilha  brancaleone, de 8 de janeiro, domingo, na praça dos Três Poderes em Brasília. Não se tratava de tentativa de assalto ao Palácio de Inverno em pleno verão. Mesmo que a idéia tenha reverberado nas mídias bolsonaristas para galvanizar os soldados verde-amarelos de fim de semana e os amigos de viagem com  passagem, estadia e churrasco gordo pagos. Não houve  qualquer movimentação nos quartéis-generais que protegiam os acampamentos patrióticos, de onde saíram parte das milícias turísticas. As tropas do Exército ficaram imóveis, mesmo as que deviam ter se movido.

Ao contrário do geralmente proposto, é crível que não estivesse nos planos iniciais da esculhambação portentoso. Ele pode ter nascido dos mesmos impulsos do ladrão oportunista que passa diante de uma mansão, de portas escancaradas, com os donos ausentes e a criadagem folgando em domingo ensolarado. Boa parte dos manifestantes era formada por lupemproletários bolsonaristas financiados por empresários golpistas urbanos e sobretudo rurais. Mas, então, qual foi o objetivo inicial da manifestação, se descartamos o assalto ao poder ou quebrar tudo e voltar para casa com selfies defecando no tapete do Palácio Presidencial.

Bagunça e Quebra-Quebra

O despautério não chegou pronto nos em torno de cento e cinquenta ônibus aterrizados em Brasília. Ele foi permitido e impulsionado pela liberação total da Esplanada, sobretudo devido à conivência do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha; de seu secretário da Segurança, Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, atualmente preso; do coronel Fábio Augusto Vieira, comandante da Polícia Militar do Distrito Federal, também preso; do tenente-coronel major Paulo Fernandes da Hora, investigado, comandante do Batalhão da Guarda Presidencial, com uns mil membros, aquartelado ao lado do Palácio do Planalto. 

Apesar de ser conhecida a cáfila de dromedários que viajava em direção de Brasília, a Esplanada foi mantida sob a proteção de dois sentinelas e seis guardas do Batalhão da Guarda Presidencial do major Paulo da Hora, filmado no domingo dificultando a repressão aos vândalos auriverdes. Mas seguem as  duas grandes interrogações. Qual foi o possível objetivo inicial da manifestação e qual  o núcleo político organizador do movimento, que tudo aponta ter se dado já à margem da direção e da vontade de Jair Bolsonaro, que deixa de ser mais e mais de ser a referência central do movimento definido ainda como bolsonarista.

Possíveis objetivos 

Podemos pensar em alguns grandes objetivos inicias do movimento e da liberação das sedes dos três poderes aos manifestantes pelas diversas autoridades responsáveis pela sua proteção, no mínimo simpáticas ao bolsonarismo. Jair de Deus Bolsonaro, nas últimas eleições, candidato de facção da direita, da extrema-direita e das forças armadas perdeu as eleições de 30 de outubro e as rédeas da presidência por menos de um por cento dos votos válidos. Ou seja, eleitoralmente, caiu de pé, ainda que pra lá de assustado. A certeza na vitória aumentou a amargura e a desolação dos derrotados, sobretudo dos que se locupletavam com a administração militar-bolsonarista. A depressão e desorientação pós-eleitoral de milhões de eleitores bolsonaristas cresceu com a depressão e deserção política e fuga de Bolsonaro para os Esteites. Seus alucinados ficaram como baratas tontas.  

À sombra dos quarteis-generais do Exército, organizaram-se acampamentos verde-amarelos, com enorme número de oficiais reformados e familiares, sentados em cadeiras de praia e, no sul, tomando chimarrão, esperando pronunciamento militar que não dava sinais de vida. Esse último reduto do bolsonarismo duro sabia que tinha os dias contados com  o início do governo odiado. Uma mega-manifestação, em 8 de janeiro, na Esplanada, serviria de cortina de fumaça encobrindo o desmonte inglório das tendas patrioteiras e de ponte para futuras novas operações, já como oposição ao governo Lula-Alckmin. 

O abandono da Esplanada às moscas teria talvez como objetivo uma ocupação simbólica do Palácio da Alvorada pelo bolsonarismo. O que salvaria a dignidade arranhada do alto comando militar diante de caserna radicalizada, desgostosa com o afastamento direto das sinecuras do governo. E seria prêmio de consolação aos golpistas e oficiais da reserva perplexos com a inação do alto comando. Uma desocupação amiga do Palácio e da Esplanada pelas forças militares convocadas pelo neogoverno, através de uma GLO, que entregasse o Distrito Federal a ao  Comando Militar do Planalto, afirmaria a impossibilidade da administração Lula-Alckmin de se defender sem a tutela militar-policial, apenas uma semana após a posse.

O golpe jamais foi uma opção

Para o alto comando era difícil explicar para a plebe direitista que as  forças armadas haviam sido proibidas de qualquer ação golpista pelos generais de Washington, seus superiores hierárquicos, que promoveram o golpe de 2016 e não querem saber de outro, ainda mais causando tumultos. E que uma intervenção militar direta confrontaria o grande capital nacional e mundial que elegeram Lula-Alckmin e agora cobram pelos serviços prestados. Para não falar da imensa maioria da população do país claramente oposta a um eventual regime militar, como veremos.

Mesmo sendo o sonho de consumo de  núcleo duro de oficiais,  de empresários urbanos e rurais e da extrema-direita internacional golpista, o alto comando das forças armadas teve que se apartar totalmente de intervenção militar e controle direto do governo e do poder como solução política. O bom comportamento da oposição colaboracionista, desde agosto de 2016; os desmandos bolsonaristas desnecessários; a disposição de Lula-Alckmin de institucionalizar as reformas golpistas tornaram o candidato petista no cavalo do comissário do grande capital e do imperialismo. Ao alto comando militar não restava que tirar seu bagual da cancha reta.

O espectro de Bolsonaro como o chupa-cabra fascista serviu para que a oposição colaboracionista e  organizações reivindicando-se do marxismo engolissem a seco a aliança e o programa da direita democrática, com o abandono programático total do mundo do trabalho. Se Bolsonaro tivesse vencido o pleito, possivelmente ele seguiria em sua truculência e incorporação orgânica das forças armadas às instâncias do Estado. Seria, porém um governo em viés mais controlado, já assumido na administração passada com o defenestrado de seus ministros ideológicos – Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo, Ricardo Salles, etc. Entretanto, as relações de Bolsonaro com Trump desagradavam também a  administração Biden, em duro confronto com os republicanos e interessada em incorporar uma administração Lula-Alckmin à sua atual campanha internacional.

A Realidade é mais Rica que a Ficção

Para o bem e para o mal, o enorme quebra-quebra de 8 de janeiro deu uma nova qualidade à manifestação, que poderia ter se limitado a um repeteco do sucesso  de massa de 7 de setembro de 2022, que se anunciou como o fim dos tempos e se concluiu apenas como um grande comício eleitoral e um pedido de desculpas de Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, o dito Xandão. A manifestação de domingo não deve impressionar pela magnitude. Não foi nenhuma marcha de legiões rebeldes atravessando o Rubicão constitucional em direção da Roma tupiniquim. 

Se de cada um dos 26 estados do país partissem dez ônibus repletos, já teríamos treze mil manifestantes. O Brasil tem mais de cinco mil e quinhentos municípios! Cinco manifestante por município excederia de longe os presentes. Qualquer convescote evangélico ou show internacional de música multiplicariam por dez os bagunceiros do  8 deste mês reunidos na capital federal. A concentração dos direitistas raivosos não exigiu também grandes recursos. Mas, o que interessa é que o vandalismo desenfreado foi um tiro no pé da extrema-direita, que respingou fortemente no alto comando militar, que procurava aquecer suas mãos no fogo alheio.

O ataque enfurecido ao Alvorada, ao Congresso Nacional e ao Superior Tribunal Federal foi rejeitado por 78,8% e apoiado apenas por 18,4% dos consulados no dia 10 pela Atlas. A rejeição penetrou, portanto, o próprio eleitorado de Bolsonaro no pleito passado. Entretanto, 38% dos consultados consideraram a invasão justificada “em parte”, o que registra a enorme rejeição aos ditos “poderes constituídos” do país, muito forte não apenas entre os bolsonaristas.

Na enquete da Atlas, praticamente 40% dos consultados seguem não acreditando que  Lula-Alckmin  tenha vencido legalmente o pleito. E quase 37% apoiariam intervenção militar para invalidar as eleições e realizar uma outra. Mas, em sentido contrário a essa declaração, apenas 9,5% seriam favoráveis a uma ditadura militar. Um verdadeiro veto nacional. O forte apoio à crença em fraude eleitoral registra que se mantém substancialmente a passada polarização eleitoral. Não contando, portanto, a administração Lula-Alckmin com a tradicional boa vontade aos governos nos seus primeiros tempos. Questão que necessita ser interpretada pertinentemente.

Todos contra o Golpismo

Os manifestantes-baderneiros do 8 de janeiro realizaram um erro monumental. Atacaram os três poderes, não limitando à invasão e o quebra-quebra ao palácio presidencial, a nova residência de Lula da Silva, acusado com a família, à exaustão, no passado recente, pela grande mídia e, ainda hoje,  pelas listas de direita como ladrão-mor da história do país. Um tal comportamento expressou a enorme repulsa da direita extremada e golpista, que almeja instituições ditatoriais, assim como o literal nojo de enorme parte da população, indignada pelos privilégios e falcatruas dos representantes dos ditos poderes constituídos, príncipes de uma nação de população maltratada e explorada. 

O STF e o Parlamento, sentindo-se atacados, ofendidos e desrespeitados, fecharam fileiras em torno do governo petista, ainda que temporariamente e com algumas restrições, que já são vinculadas na grande imprensa. Foi também avassaladora a solidariedade internacional com a ofensa à “democracia” brasileira, que vêem como apenas restabelecida plenamente no Brasil. Até o governo da neofascista italiana rejeitou o desplante dos  bolsonaristas com as instituições, certamente temendo algo semelhante na antiga sede imperial do mundo. A Europa do capital se ressente e teme a crescente rejeição de importantes facções dos trabalhadores e da população dos partidos tradicionais da esquerda europeia, convertidos ao social-liberalismo. Trabalhadores e populares em migração para partidos populistas, que retomam muitas das suas reivindicações em um viés direitista. 

A extrema-direita brasileira sentiu fortemente as sequelas da maga celebração e exposição dominical dos seus mais baixos instintos, ação definida em forma exagerada e oportunista pela grande imprensa como terrorismo. No que foi seguida pelo colaboracionismo agora no poder e por não poucas organizações ditas socialistas. A qualificação de ocupação de prédios públicos com alguma depredação como terrorismo será utilizada certamente nos próximos meses contra o movimento social e o mundo do trabalho. Os bolsonaristas e a extrema-direita envolvidos nos sucessos de 8 de janeiro sofrem com os ataques fortíssimos da mídia, sem sequer uma defesa direta, mesmo por parte de seus porta-vozes mais extremados. Estes últimos colocam as barbas momentaneamente de molho, pois temem seguir o caminho dos milhares de manifestantes presos, que começam a ser apresentados à Justiça. 

O ensaio de recuperar o espaço perdido nos despautérios de Brasília com manifestações portentosas nas grandes capitais, mais fáceis de serem realizadas, chamadas para o dia 10 de janeiro, morreu na casca do ovo, sob a ameaça da repressão e da condenação ao fogo eterno pelo super-Xandão, investido pelo STF como vingador das ofensas da ordem democrático-burguesa nacional. Eles recolheram simplesmente a viola e a empáfia tradicional e foram lamber as feridas em casa.  Na fronteira sul do Brasil, granjeiros direitista, que botaram a mão no bolso para financiar alguns ônibus ou atos ainda mais graves, desapareceram das cidades e foram enfunar-se em suas propriedades rurais. Repetiram, às centenas, em suas calças, o feito grotesco do manifestante alucinado em tapete do STF.

Uma questão política

Os sucessos de 8 de janeiro não oportunizam, como muitos governistas propõem, a desorganização permanente de facções importantes da extrema-direita. A forte rejeição ao quebra-quebra, que não teria ampliado o apoio ao governo petista-direitista, registrou, igualmente, abismal fragilidade da administração Lula-Alckmin na manutenção da ordem, mesmo no coração simbólico do poder republicano. Uma incompetência mastodôntica que não pode ser desculpada por inexperiência governamental ou por ação inesperada.  Inexperiência não há. Esta é a terceira administração presidencial de Lula da Silva e a quinta petista.  E surpresa não houve. Havia dias que se anunciava que milhares de manifestantes de todo o país marcavam rendez-vous barulhento na Praça dos Três Poderes.

A inoperância da nova administração joga água fria na fervura da organizada badalação, já iniciada, que se seguiria à subida da rampa. E a sua origem política é clara. A ineficiência abismal da administração Lula-Alckmin tem suas origens nas  propostas de ação governamental  e no bloco político-social sobre o qual se construiu  a chapa vitoriosa. Desde 2016, o PT e seus puxadinhos empreenderam colaboracionismo deslavado com o golpismo, jamais realmente combatido, propondo-se apenas como o melhor governo para a institucionalização de suas iniciativas estruturais, em contexto de maior civilidade para com as ditas instituições, opostas estruturalmente aos interesses nacionais, populares e do mundo do trabalho. 

Para tal, era imperativo que o petismo e anexos impulsionassem, como o fizeram ininterruptamente, a desmobilização permanente de todas as expressões do movimento social. O que, a bem da verdade, continuava operação desenvolvida durante toda a era presidencial petista e, mesmo, antes dela. A campanha eleitoral deu-se pautada em alianças constitutivas com representantes do grande capital nacional e internacional e o imperialismo. E sempre preocupada em depressão preventiva de mobilizações e de expressão das necessidades da população e do mundo do trabalho.

Durante a campanha e após a vitória, negou-se repetidamente qualquer intenção de revogar os ataques gerais do golpismo contra os trabalhadores, contra a população e contra a nação. Deixou-se claro que não haveria “revogaço”. O que havia sido perdido, para o capital e o imperialismo, de bens nacionais e de direitos dos trabalhadores e da população,  perdido estava. Posição já assumida em 2002, após os oito anos de governo de FHC e, agora, retomada em situação ainda mais crítica. Desta vez, a história promete se repetir, não como farsa,  mas como exacerbação patológica.

Enorme parcela da  própria esquerda que se diz marxista dobrou o joelho diante do altar eleitoral do capital, justificando-se com a pretensa necessidade de combater o mal maior, o nazifascista Jair Bolsonaro, hoje, balão furado. Tudo sob a proposta retórica de derrotar Bolsonaro nas eleições e o bolsonarismo nas ruas. E, como era de se esperar, após o ajantarado eleitoral vencido pelo colaboracionismo em 30 de outubro, chegou, em primeiro de janeiro, a hora da nova administração pagar a nota salgada. Em comprimento de seus compromissos, o novo governo entregou os centros essenciais da imposição presidencial do consenso social para três colaboracionistas desfibrados, que pecaram gravemente, no dia 8. Dois por inoperância e um por deslavada colaboração com o inimigo.

Quem controlava as armas

O Ministério da Justiça e Segurança Pública, com autoridade plena sob a Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, que bons serviços prestaram à administração golpista, foi entregue a Flávio Dino, um colaboracionista incompetente que, antes da posse, já escorregava em todas as cascas de banana com que se deparava. O Gabinete de Segurança Institucional coube a homem de confiança de Lula, um oficial de pijama e de gabinete, o general Gonçalves Dias, com autoridade sobre o esquema de informação do Planalto, com destaque para a Agência Brasileira de Inteligência. Ele ocupou a sala do general Augusto Heleno, proposto por muitos direitistas como direção substituta, após a deserção do Fuher de botequim. O cúmulo da  sede de acomodação com a direita militar e golpista foi a escolha, por Lula da Silva,  de José Múrcio Monteiro, um filo-golpista, para ministro da  Defesa.  Escolha vivamente aplaudida pelo general Mourão.

Respeitoso das hierarquias republicanas, Flavio Dino confiou o controle da esperada manifestação ao governador do Distrito Federal, conhecido bolsonarista. Isso por que cumprira seu papel institucional na posso do governo entrante, dias antes. Deixou um vampiro na guarda de banco de sangue. Ainda no domingo à tarde propunha que tudo estava na santa paz do senhor.  Gonçalves Dias, o senhor das informações, fez ainda pior. No sábado, propôs também nada de novo no front, quando os serviços sob seu comando apontavam em direção contrária. E dispensou tropas da guarda da Esplanada e dos prédios icônicos. Ambos seguiam na orientação de confiança na neutralidade das instituições e de seus representantes e de lenta, gradual e segura substituição, sobretudo dos militares golpistas, nos seus respectivos ministérios.  Isso contando com dois longos meses para escolher quem nomear e quem afastar. Tempo gasto nas badalas “Comissões de transição”. Sequer a direção da Empresa Brasileira de Comunicações foi trocada antes do despelote do domingo em Brasília.

A cereja do bolo foi a designação de José Múcio Monteiro como ministro da Defesa. A escolha foi apresentada, pelos puxa-sacos de sempre, como genial decisão de Lula da Silva para ter um negociador junto ao alto comando militar. Na ocasião,  Múcio foi definido jocosamente como ministro dos militares junto ao novo governo.  E assumiu desde sua indicação essa função. No frigir dos ovos, tratou-se de submissão respeitosa do neopresidente aos militares golpistas. A leniência presidencial com o golpismo prosseguiu com a designação por antiguidade dos comandantes das três armas, todos envolvidos no golpe de 2016 e nos governos que se seguiram. Lula da Silva perdeu a oportunidade de avançar a autoridade civil sobre a militar e rejuvenescer profundamente o alto comando das forças armadas. Uma tal decisão contaria com a indignação dos oficiais enviados para o armário e o apoio irrestrito dos promovidos no comando das tropas. Uma fratura nas forças armadas golpistas que levaria algum tempo para ser soldada.

Múcio manobrou insistentemente para que não se exigisse do Exército o desalojamento dos acampamentos golpistas em áreas de proteção militar, sobretudo o do Quartel-General do Distrito Federal. Definiu-os como direito democrático de expressão, povoados por senhores e senhoras inofensivos, por muitos oficiais da reserva seus queridos amigos. No domingo, quando a Polícia Militar tentou proceder a dissolução daquele acampamento, ele foi defendido por dois blindados e tropas do Exército, em teoria sob a autoridade de Múcio. No mesmo dia, à noite, o dito ministro da Defesa abraçou já sem restrições um viés filo-golpista. Propôs que Lula da Silva emitisse uma Garantia da Lei e da Ordem, GLO, entregando ao Comando Militar do Planalto o restabelecimento geral da ordem no Distrito Federal. Proposta de inspiração castrense indignou o neopresidente. Ela facilitaria um golpe, se ele estivesse em marcha, ou colocaria as forças armadas como a instituição mediadora das crises nacionais, como proposto pela visão aristocrática e bonapartismo militar. O Comando Militar do Exército e o próprio general Júlio Cesar de Arruda, atual comandante do Exército, teriam expressado a inconformidade com o presidente por não se servir de uma GLO.

E, mesmo após a casa ser arrombada, não houve – e não está havendo – preocupação em colocar trancas nas portas. Flávio Dino,  G. Gonçalves e  Múcio foram reafirmados em seus nichos do poder, onde fracassaram por inoperantes ou mantiveram posições mais do que dúbias. Apenas se propõe acelerar a demissão dos bolsonaristas ditos raiz, determinação que será realizada nos ministérios petistas. Nos demais, não raro sob a direção de partidos que apoiaram o golpe de 2016, essa orientação será sabotada, onde for possível. Apesar da oportunidade propiciada pelos acontecimentos de 8 de janeiro, não há proposta de rápida demissão dos milhares de militares incrustados  na administração federal. A única tendência favorecendo uma limpeza mais geral de oficiais bolsonaristas será a fome insaciável pela ocupação dos seus postos pelos apoiadores de primeira, segunda e derradeira hora da nova administração.

As instituições nos salvarão

Toda a repressão às autoridades responsáveis e aos bolsonaristas baderneiros do 8 de janeiro foi deixada para às instituições judiciárias burguesas, com destaque para o STF, onde, mais uma vez, o grande protagonista foi o Alexandre de Morais,  super-Xandão. Lula decretou intervenção  no governo do Distrito Federal, afastando por noventa dias o governador, e seu secretário da Justiça, ex-ministro da Justiça no governo Bolsonaro, os grandes responsáveis pela guarda da Esplanada e dos prédios icônicos. O que impôs a normalidade em poucas horas, registrando o caráter não estrutural do movimento. O super-Xandão ordenou peremptória dissolução dos acampamentos, da acusação dos presos em flagrante delito, da repressão das tentativas de manifestações no dia 10, etc. Lula da Silva tem-se desdobrado em elogios ao funcionamento dos poderes institucionalizados, com destaque para o STF, para o Congresso, para o Senado. Os mais diversos sabores dos atuais colaboracionistas quase quebram as costas, curvando-se extasiados diante mesmas instituições. As que  botaram abaixo o governo de Dilma Rousseff e viabilizaram o golpe de 2016.

Em verdade, o governo Lula-Alckmin podia ter feito um pouco mais, mas não muito, devido a sua natureza profunda. Trata-se de administração sem um efetivo apoio na população, com destaque para os trabalhadores e assalariados, que praticamente não ocorreram às manifestações de repúdio convocada -sem maior organização, como sempre- para o dia 9, segunda-feira. Em algumas capitais, reuniram-se, ao máximo,  dois ou três milhares de manifestantes, muito menos que o povaréu sempre presente em enterros de cantores ou artistas de segunda linha. No enterro do Pelé ocorreram mais de cem mil populares. Nenhuma fábrica interrompeu o trabalho em protesto do que foi definido como tentativa de golpe. E muito menos as centrais sindicais, sempre temerosas da autonomia dos trabalhadores, propuseram qualquer ação nesse sentido.

As razões do imobilismo do governo Lula-Alckmin provém do seu DNA, como proposto. Ele comprometeu-se, foi sustentado e venceu as eleições apoiado pelo grande capital, pelo imperialismo, pelas classes médias petistas e assemelhadas, por aqueles que votariam em uma lata de lixo para se livrarem de Bolsonaro. O governo pretende avançar em conformidade aos seus compromissos e, portanto, às exigências e necessidades de sua base de sustentação, sobretudo aquelas que realmente importam – o grande capital e o imperialismo. E não pode fazer de modo diverso. É a natureza do escorpião.

As medidas iniciais de impacto da  nova administração despidas de qualquer pathos social, foram direcionadas sobretudo para as exigências do imperialismo estadunidense e europeu e às das classes médias, que seguem disciplinadas as políticas identitárias e ambientais como salvação do mundo, a nau onde todos navegaríamos. Políticas impulsionadas pelo Partido Democrata estadunidense após ter abandonado sua antiga base eleitoral histórica, as classes operárias brancas e negras, quando dos governos de Bill Clinton. A “subida da rampa”, que motivou delírios orgásticos nas filas das classes médias, foi magnífico registro plástico dessa orientação identitária. 

Rosângela da Silva, a Janja, a “primeira-dama-identitária” do governo apenas empossado, em forte euforia protagonista, tem indicado ministros e já pousou para capa e ensaio fotográfico da revista Vogue, vestida no estilo chic-sustentável, teria sido a articuladora geral da “subida” com personagens representativas dos segmentos sociais que lhe seriam centrais. Entre eles não havia um petroleiro,  eletricitário, pedreiro, motorista, enfermeiro, camponês, comerciário, trabalhador de aplicativo, ou seja, as classes que criam a riqueza da nação e são mantidos à margem dela. A “subida” refletiu as expectativas da ação governamental de professores universitários, funcionários públicos, intelectuais, profissionais liberais, setores cada vez mais estranhos e opostos à luta anticapitalista e às necessidades dos trabalhadores,  assalariados e explorados. Setores que ainda tem, não raro muito, a perder na presente ordem social. 

Nada para o mundo do trabalho

Até agora, foram assinados sobretudo grande número de decretos, instruções, etc. sobre o meio ambiente, em geral anulando as medidas de terra arrasada bolsonaristas, exigência maior e demagógica do imperialismo estadunidense e europeu. Foram paralisadas algumas privatizações propostas durante a campanha, ainda que já se proponha as Parcerias Público-Privadas, como um dos objetivos do novo governo para atrair investimento. Prosseguiu-se e estendeu-se em algo o Auxílio Brasil de Bolsonaro, que voltará a chamar Bolsa Família, em alimentação de uma população miserável mantida sob o cabresto do populismo e na  semi-indigência há longas décadas. Iniciou-se a reversão de alguns casos do Sigilo dos Cem Anos, revelando-se segredos pífios que nada interessam à grande população.  

Não se avançou e não se propôs qualquer medida substantiva em favor da grande população nacional e trabalhadora. Muito pelo contrário. Vimos que se deixou claro que não haveria “revogaço” dos grandes ataques golpistas contra a previdência e do desmonte da legislação trabalhista e da Justiça do Trabalho. Deixou-se claro que não se poria fim ao arrocho salarial público e privado e que o saque dos bens públicos, através das privatizações, não seria revogado, etc. Se silencia sobre as multas milionárias impostas a empresas brasileiras públicas e privadas pelo capital estadunidense, ao som da Lava-Jato. No máximo, haveria alguns retoques quanto à destruição da legislação trabalhista, em discussões mediadas pelo governo, realizadas entre os empresários e os trabalhadores, os últimos certamente representados pelos burocratas petistas e outros. Os ministros que escorregaram, propondo medidas do interesse da população, foram prontamente desmentidos e ameaçados de irem para o canto da sala, como castigo.

Grande destaque foi feito à nomeação de lideranças identitárias negras de classe média. Entretanto, nenhuma delas, nas concorridas entronizações, lembravam de algumas das reivindicações mais sentidas da população negra pobre, como o fim das “polícias militares”, responsáveis anualmente por infindáveis mortes de trabalhadores e populares, setores em que a população negra está super-representada em muitas das grandes cidades. Não houve a exigência da descriminalização da maconha que ensejaria a libertação de dezenas de milhares de homens e mulheres aprisionados, em péssimas condições, por participar da venda de baseados no varejo, como forma de sobrevivência. Uma população em grande parte negra. Ambas medidas já vetadas por Flávio Dino, antes da sua entronização, em respeito respectivamente ao aparato militar direitista nacional e aos evangélicos e católicos conservadores. Para não falar da redução, mantendo o salário, da jornada de trabalho para  quarenta horas, reivindicação histórica do mundo do trabalho, sempre silenciada em favor do grande, médio e pequeno capital. Quarenta horas de trabalho sancionadas pelo presidente Chavez, na Venezuela, em 2012.

O desprezo sínico do atual governo para com a população trabalhadora e os aposentados materializa-se na atual vacilação  em conceder os 18 reais que aumentariam o  salário mínimo para 1.320 reais.  Haddad, que acaba de propor um pacote fiscal cheio de bondades milionárias para o capital, e se propõe seguir nesse caminho, já anunciou que os 1302 reais decretados por Bolonaro já comportariam o aumento do salário mínimo prometido por Lula da Silva. Portanto, não seria necessário o aumento liliputiano de dezoito reais em um salário mínimo que reduz uma enorme parte da população a uma verdadeira escravidão assalariada. A justificativa para a vacilação é que o governo teria que arcar com um maior gasto, devido à enorme quantidade de aposentados e reformados com um salário mínimo, uma outra infâmia nacional. Os gastos previstos devido ao aumento de 18 reais são literalmente mínimos em relação ao orçamento nacional. A discussão constitui demonstração de responsabilidade para com o mercado.

Importantes setores populares votaram em Lula-Alckmin, muitos para se livrar de Bolsonaro. Porém, não foram menos os que votaram em Bolsonaro. Sem  iniciativas de alto significado do novo governo em favor da população e do mundo do trabalho, não haverá superação da atual polarização. Não haverá reversão no processo de alienação em que se encontram enormes setores das classes populares e trabalhadoras. Ao contrário, essa adesão conservadora poderá conhecer  expansão, em caso de crise. Os trabalhadores e assalariados assistiram os acontecimentos de domingo pela televisão, certamente desgostosos para com o quebra-quebra, já que abominam desordeiros e marginais. Mas, como também proposto, não ensaiaram movimento em defesa do governo, nem foram convocados para tal. O atual governo teme mais os trabalhadores mobilizados do que as mobilizações bolsonaristas.

Embretado nas alianças

Ao governo Lula-Alckmin, embretado por suas alianças e programa, de costas para o mundo do trabalho, não resta que seguir adiante no cumprimento de seus compromissos com o grande capital e o imperialismo, servindo-se de políticas identitárias para encantar os segmentos médios. A Bolsa Família garante dividendos eleitorais, como garantiu ao governo de Bolsonaro. Mas seus beneficiários são de todo refratários à mobilização social, devido à sua natureza profunda de marginalizados do mundo do trabalho. 

O governo seguira na obediência aos interesses do capital, já registrada por Haddad, e ao imperialismo, já avançada por Lula da Silva, antes mesmo de ser entronizado, e reafirmada em forma inoportuna pela “Janja”, quando da recepção da posse presidencial, ao se negar a “primeira dama” a cumprimentar o enviado do Irã à cerimônia. Mas o apoio do grande  capital nacional e internacional será sempre crítico, pois ele sempre quer mais. Sob uma forma mais civilizada e soft, respeitosa das instituições, com pequenas concessões para as classes médias e menores ainda para a população, o governo Lula-Alckmin seguirá, no essencial, nos mesmos trilhos dos dois governos passados. Sempre sob a tutela do alto comando das forças armadas. E não conhecerá a complacência da extrema-direita que o PT e anexos teve para o golpismo. Estarão todo à espera de eleição, em 2026, onde talvez Alckmin se confronte com Haddad ou os dois abraçados se oponham a  alguém ainda mais à direita. Composições impossíveis hoje de se prever.  

Porém, se o caldo entornar, se as crises mundiais e nacionais se aprofundarem,  se ocorrerem explosões e mobilizações populares e operárias, o governo pode ir para o espaço, abandonado pelo capital e o imperialismo, sem qualquer apoio dos trabalhadores e assalariados, como ocorreu com Dilma Rousseff. Nesses e em outros casos, não está afastada a possibilidade de um radicalização do golpe de 2016, talvez sob um tacão militar mais explicito. A única solução do impasse em que nos encontramos encontra-se na mobilização dos trabalhadores contra todas as formas de  submissão, na procura da conquista da sua centralidade no processo político e social, através da imposição de seu programa, no aqui e no agora, em direção da emancipação social de todos os oprimidos e humilhados. 

Mário Maestri, 74, é historiador e autor, entre outros, de Revolução e contra-revolução no Brasil. 1530-2019. Porto Alegre: FCM Editora, 2023.

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